Esta noite, no Auditório do Instituto Superior da Maia, a família, amigos, presidentes de clubes que Pedroto treinou e, é claro, antigos jogadores que orientou vão juntar-se para prestar homenagem ao treinador que revolucionou o futebol português e que desapareceu, com apenas 56 anos, há precisamente três décadas.

 

José Neto, principal organizador da homenagem desta noite, trabalhou de muito perto com o «Zé do Boné». Primeiro no V. Guimarães, depois (e sobretudo...) no FC Porto.

 

Em conversa com o Maisfutebol, José Neto aponta Pedroto como «um mestre», um «exemplo», alguém que soube sempre «estar à frente do seu tempo».

 

«José Maria Pedroto estava muito além do seu tempo. Na sua conceção de jogo, no tratamento do jogo», aponta o agora professor universitário. 

«Foi um homem para lá do tempo, que fazia da luta determinação . Da vida, paixão. Da derrota, classe. Da vitória, ousadia. Da sabedoria, humildade. E vivia no coração das gentes simples. Era o «senhor Pedroto». Formulava questões, rompia conceitos, desafiava o erudito e encorajava o intranquilo», define José Neto, ao Maisfutebol.

Neto recorda uma ideia que Pedroto repetia nos treinos e que considera «lapidar»: «Diz-me como jogas e te direi como deves treinar. Olha para o jogo e ele te dirá como deves treinar».

Fazia muitas perguntas

Como era José Maria Pedroto no dia a dia? Como se dirigia aos jogadores? «Fazia muitas perguntas. Questionava. Desafiava. Estava aberto a novas ideias. E era muito rigoroso», conta José Neto. 

Corra a época de 1981/82, os métodos de trabalho do futebol português tinham ainda um longo caminho a percorrer. José Neto colocou uma questão sobre futebol ao então treinador do V. Guimarães. Pedroto, na altura a mês de regressar para terceira e última experiência no comando técnico do FC Porto, teve reação esclarecedora: «Respondo-te na minha sala de aula». Foram para o relvado do estádio do V. Guimarães, a «sala de aula» do mestre.

«Não era alguém que se fechava na frieza dos números, das estatísticas, dos cálculos. O lado humano, a liderança, a comunicação, eram fatores fundamentais para ele», explica José Neto, para depois especificar. «Dava primazia à dinâmica do treino, ao jogo». 

A importância da posse de bola

Não é exagero dizer que Pedroto iniciou um caminho e uma identidade nio futebol português: muitos dos princípios que uma boa parte dos treinadores nacionais aplicam hoje foram usados pelo «mestre», já nos anos 70.

«Dava muita importância à posse de bola. Dizia que "tem a bola tem o jogo". Dava enorme importância ao passe, ao rigor do passe, "quem passa bem sabe jogar bem". O domínio da bola, a técnica, como base para a qualidade do jogo. Chegámos a ter no FC Porto uma média de 14 minutos e 22 segundos de posse sobre o adversário», conta José Neto. 

«Depois a importância do remate. Insistia nisso. E em como quem não consegue ter bola entra em fragilidade mental, entra em crise...»

Neto fala em «consolidação» e em «princípios de jogo» para definir os métodos de trabalho de Pedroto, «que Artur Jorge viria a prolongar no FC Porto». «Cultivava a raça, o combate. Era um homem de combate».

Os anos no dragão

Um mês depois da tal aula de Pedroto a José Neto em pleno relvado no estádio do V. Guimarães, o «Zé do Boné» regressou às Antas, como treinador do FC Porto pela terceira vez (as primeiras tinham sido entre 1967 e 1969 e a segunda entre 1976 e 1980).

«Levou-me para o FC Porto e aí criámos um gabinete de observação e análise. Construiu doutrina ganhadora, de interpretação do jogo, analisando os dados, tirando conclusões, procurando sempre melhorar o que não tinha corrido bem, tentando perceber o que podíamo aprimorar», conta José Neto. 

«Por exemplo, sobre Fernando Gomes, bibota, sabíamos que para cada golo marcado fazia 4,7 remates, de onde vinham os cruzamentos, analisávamos isso tudo. E depois, para lá destes dados, Pedroto trabalhava muito a comunicação e sobre isso podem tetemunhar os jogadores que eram treinados por ele», aponta José Neto. 

Intemporal


Treinou FC Porto, por três vezes, o Leixões, o V. Guimarães, o Boavista, o V. Setúbal, o Varzim, a Académica e a Seleção Nacional. 

Rompeu conceitos, bateu recordes, acabou com o longe jejum portista nos títulos nacionais. 

Natural de Lamego, era «homem de raízes humildes e princípios sólidos», lembra José Neto. 

Esta noite, no ISMAI, serão muitos a recordá-lo: Pinto da Costa, que já era presidente do FC Porto na última passagem de Pedroto e o rotulou de «homem de grande caráter»; outros presidentes de clubes que Pedroto orientou; Hermínio Loureiro em representação da Federação; Manuel Sérgio; antigos jogadores treinados pelo «mestre» e a família e amigos do «Zé do Boné», como por exemplo Ferreirinha, que o conhecia bem. 

Rodolfo Reis, seu discípulo no FC Porto, será um dos que vai recordar, na homenagem, as capacidades de «liderança e comunicação» de Pedroto.