O 10 sempre foi mais do que um número, um dorsal, mais até do que uma posição em campo. O 10 era o craque, o líder incontornável do ataque. Criador e, muitas vezes, também finalizador. No passado, muitas vezes o 10 era o 10, outras camuflava-se noutros números. «Os 10 e os deuses» recupera semanalmente a história destes grandes jogadores do futebol mundial. Porque não queremos que desapareçam de vez. 

--

Maturidade precoce, um futebol sem esforço. Primeiro o clube da terra, o Augsburgo, depois o Colónia campeão em título, já como senior. Hennes Weisweiler é o treinador, já após ter feito crescer o Borussia Mönchengladbach, e de ter tentado suceder a Rinus Michels, sem grande sucesso, no Barcelona. Na sua terceira etapa como técnico principal do Colónia, Weisweiler não pode ignorar o talento desse anjo louro de 19 anos, que cedo se impõe na primeira equipa.

No primeiro ano, cruza-se com Brian Clough e o Nottingham Forest. Ainda chega a um 0-2 no City Ground, mas os da casa reagem e essa primeira mão acaba com um 3-3 ainda favorável no marcador. Na segunda, o Forest vence por 1-0 e esfuma-se o sonho da final de Munique.

A estreia na Mannschaft surge no ano seguinte, pela mão de Jupp Derwall, no lugar de Helmut Schön depois de um fracassado Mundial de 1978, na Argentina. A Alemanha inicia então um processo de rejuvenescimento. Tendo em conta a qualidade, é desolador que só tenha estado em 21 jogos pela República Federal Alemã, entre 1979 e 1984, que mesmo assim valem o título europeu de 1980 e a Bola de Prata, correspondente ao segundo melhor jogador do torneio.

Uma carreira demasiado curta na Mannschaft.

Desavenças com a federação germânica, alegadamente por se ter recusado a ir a uma festa de um colega de equipa, levaram a uma reforma antecipada, aos 24 anos. Nem Beckenbauer o demoverá a voltar, apesar da insistência ao longo dos anos seguintes.

O Colónia fraqueja, e Schuster perde o segundo título consecutivo. Depois do Hamburgo, é a vez de o Bayern mostrar-se mais forte. Weisweiler já não mora lá, Karl-Heinz Heddergott acaba rotulado como «amador» pela sua jovem mas temperamental estrela, que é obviamente colocada à venda. O trio promissor formado por Schuster, Littbarski e Woodcock é quebrado.

Segue-se o Barcelona, depois de umas ameaças em seguir para o NY Cosmos, e de Derwall rejeitar a ideia de convocar alguém a jogar nos Estados Unidos.

Parceria com Maradona durou pouco tempo.

O anjo louro era um médio ofensivo fenomenal, de organização e distribuição de jogo no último terço do terreno. Primeiro, culé, depois blanco, a seguir colchonero, passa pelos três grandes de Espanha, ganha três campeonatos e seis Taças do Rei (e uma Taça dos Clubes Vencedores das Taças, embora sem estar em campo, depois de ter sido lesionado com gravidade pelo «Carniceiro de Bilbau», Andoni Goikoetxea, que também o tira do Mundial 1982). Isto apesar de Laszlo Kubala, o seu primeiro treinador no Barcelona, ter deixado claro que não o queria. Felizmente para Schuster, entram em campo Helenio Herrera, e depois o compatriota Udo Lattek, e tudo muda.

Em 1982-83 chega Maradona. Schuster dá-se maravilhosamente bem com o jovem argentino em campo, mas os títulos não acompanham a dupla. Sai Lattek, entra Cesar Luis Menotti, e Goikoetxea volta a fazer estragos. Desta vez, no Pelusa.

No final da temporada seguinte, nem Maradona nem Menotti continuam. Terry Venables é o novo técnico, e o Barcelona ganha mesmo o primeiro título em 11 anos. Nessa equipa, que tinha ainda Steve Archibald, quem mexe os cordelinhos ainda é Schuster.

Segue-se a final europeia perdida com o Steaua de Bucareste, com o nosso herói a deixar o estádio em fúria depois de ser substituído a cinco minutos dos 90, e Nuñez, o presidente, a dizer que Schuster não voltará a jogar pelos catalães.

É ostracizado durante um ano inteiro. O Barça perde o título por um ponto, Venables sai, entra Luis Aragonés, e recebe a braçadeira de capitão em alguns encontros. Conquista a Taça do Rei, mas Nuñez prepara-se para uma limpeza de balneário. Chega Cruijff.

Schuster segue para o Real Madrid. Com Leo Beenhakker consegue a dobradinha e só é afastado nas meias-finais da Taça dos Campeões Europeus pelo super-Milan de Arrigo Sacchi. Os blancos não têm rival a nível interno, no entanto, para desespero do Barcelona.

Ao terceiro ano, o excesso de estrangeiros empurra o alemão para fora do Bernabéu. Jésus Gil faz avançar o Atletico Madrid. Mais uma vez salta de rival para rival. Com Paulo Futre e Manolo, o Atleti é ameaçador. Ganha as taças de 1991 e 92, a última frente ao Real no Bernabéu. Novamente treinado por Aragonés, Schuster mostra todo o seu talento.

O fim da carreira na Alemanha, no Bayer Leverkusen.

Em 1993, as lesões e a relação degradada com Jésus Gil fazem com que regresse à Alemanha. Para o Bayer Leverkusen, onde volta a ser figura. Antes de sair para o México e terminar a carreira.

O anjo louro era elegância e classe, e fazia do passe a sua melhor arma. Um dez de definição. 

Bernd Schuster

22 de dezembro de 1959

1978-80, Colónia, 61 jogos, 10 golos

1980-88, Barcelona, 170 jogos, 63 golos

1988-90, Real Madrid, 62 jogos, 13 golos

1993-96, Bayer Leverkusen, 59 jogos, 8 golos

1996-97, UNAM Pumas, 9 jogos, 0 golos

1 Campeonato da Europa (Alemanha, 1980)

3 campeonatos espanhóis (Barcelona, 1984-85; Real Madrid, 1988-89 e 1989-90)

6 Taças do Rei (Barcelona, 1980-81, 1982-83, 1987-88; Real Madrid, 1988-89; Atletico Madrid, 1990-91 e 1991-92)

1 Taça dos Clubes Vencedores das Taças (Barcelona, 1981-82)

2 Supertaças de Espanha (Barcelona, 1983; Real Madrid, 1989)

2 Taças da Liga (Barcelona, 1983 e 1986)

Alguns prémios individuais:

Equipa ideal do Euro 1980

2º lugar Ballon d'Or (1980)

3º lugar Ballon d'Or (1981 e 1985)

Melhor jogador estrangeiro da liga espanhola (Prémio Don Balon, 1985 e 1991)

Primeira série:

Nº 1: Enzo Francescoli

Nº 2: Dejan Savicevic

Nº 3: Michael Laudrup

Nº 4: Juan Román Riquelme

Nº 5: Zico

Nº 6: Roberto Baggio

Nº 7: Zinedine Zidane

Nº 8: Rui Costa

Nº 9: Gheorghe Hagi

Nº 10: Diego Maradona

Segunda série:

Nº 11: Ronaldinho Gaúcho

Nº 12: Dennis Bergkamp 

Nº 13: Rivaldo

Nº 14: Deco

Nº 15: Krasimir Balakov

Nº 16: Roberto Rivelino

Nº 17: Carlos Valderrama

Nº 18: Paulo Futre

Nº 19: Dragan Stojkovic

Nº 20: Pelé