O 10 sempre foi mais do que um número, um dorsal, mais até do que uma posição em campo. O 10 era o craque, o líder incontornável do ataque. Criador e, muitas vezes, também finalizador. No passado, muitas vezes o 10 era o 10, outras camuflava-se noutros números. «Os 10 e os deuses» recupera semanalmente a história destes grandes jogadores do futebol mundial. Porque não queremos que desapareçam de vez. 

--

Antes de o Chelsea ser CHELSEA, o Chelsea é Zola.

Depois de o Nápoles ser MARADONA, o Nápoles também foi Zola. Foi Marazola. Por pouco tempo, por culpa das péssimas finanças dos Partenopei.

Gianfranco Zola. Italiano, nascido na Sardenha, educado à sombra de Diego, de quem herdou a camisola 10, os ensinamentos e o que pôde carregar do seu papel, no Nápoles.

«Aprendi tudo com Diego. Ficava a espiá-lo durante os treinos e aprendi a curvar um livre direto como ele.»

É verdade. Há qualquer coisa de maradoniano naquele jeito de marcar os livres, embora com o outro pé, o direito, a sua grande arma.

Diego protege-o, acarinha-o e, depois de ter sido suspenso pelo uso de drogas e ter dito adeus à sua querida Nápoles, não o esquece:

«Não precisam de procurar ninguém para substituir-me, a equipa já tem Zola!»

É com Maradona que Zola ganha o único título de campeão da sua carreira, em 1990, que acumula com a supertaça italiana. Marca dois golos decisivos nessa campanha para o scudetto.

O pequeno Marazola não é titular indiscutível, mas não anda longe. Num encontro em que ambos começam de início, a 11 de fevereiro de 1991, em Pisa, Diego usa o número 9 para que seja Gianfranco a vestir a 10. Sente-se a passagem de testemunho, que será reforçada no mês seguinte. Na partida com o Bari, a 17 de março, o simbolismo cresce ainda mais com uma assistência de Maradona para o golo decisivo de Zola, no último encontro do astro argentino no San Paolo. É apanhado no final no controlo anti-doping.

Tempos felizes no Parma.

A linha de sucessão é, no entanto, quebrada algum tempo depois.

A consagração do sucessor acompanha a chegada de Ranieri, mas em crise, o Nápoles tem de vendê-lo em 1993. No Parma de Nevio Scala continua a ser o 10, e consolida logo nos primeiros tempos o estatuto de um dos melhores médios criativos do calcio, a par de Roberto Baggio e Alessandro Del Piero. A qualidade de passe e os 19 golos, de bola parada e corrida, embalam a equipa da Parmalat na luta pelo título em 1994-95, que acaba por perder para a Juventus.

Os troféus são apenas europeus: a supertaça europeia em 1993 e a Taça UEFA em 1994-95.

Em 1996, começam as dificuldades ao serviço dos Parmensi. Carlo Ancelotti prefere Chiesa e Crespo na frente do seu 4x4x2, e Gianfranco é obrigado a jogar na esquerda, algo que não lhe agrada. Em novembro sai para o Chelsea, a convite de Ruud Gullit.

Em Stamford Bridge, em era pré-Abramovich, usa o 25 por cima do 10 que lhe ficara gravado na pele, e é com esse número que assina fantásticos momentos individuais na Premier League, alguns inesquecíveis. Chamam-lhe Magic Box, caixinha mágica.

Um duelo com o gigante Peter Schmeichel.

Em 1996-97, é ele que empurra os Blues para a final da Taça de Inglaterra, ganha depois em Wembley. É eleito melhor jogador do ano pelos jornalistas britânicos.

1997-98 chega, e vence Taça da Liga, Taça dos Clubes Vencedores das Taças – não joga de início a final, devido a problemas físicos, mas entra para decidir o encontro frente ao Estugarda e garantir para os londrinos um dos mais importantes troféus então da sua história – e a Supertaça Europeia.

Ainda com Vialli, que se tornou treinador, e depois com Claudio Ranieri, começa a jogar menos. O compatriota prefere uma dupla com Gudjohnsen e Hasselbaink.

No final da temporada de 2002-03, e apesar de ter sido de novo importante com 16 golos marcados e de ter sido eleito melhor jogador de sempre dos Blues, decide voltar a Itália e à Sardenha, onde o maior clube é o Cagliari.

Roman Abramovich, os seus milhões e ideias de forte investimento, aterram finalmente em Stamford Bridge, mas Zola não esquece a palavra dada ao emblema italiano, que ajuda a regressar à Serie A. É aí que se despede em 2005, com dois golos à Juventus e o seu número, obviamente o 10, a ser retirado durante a temporada seguinte, em homenagem.

A arte de «Marazola»

É Arrigo Sacchi quem o chama aos azzurri em novembro de 1991, mas só marca os primeiros golos quatro anos depois. Pelo meio, tem o Campeonato do Mundo de 1994, em que entra como suplente no encontro com a Nigéria e é expulso e suspenso para os dois encontros seguintes, perdendo depois também a confiança do selecionador para a final. Joga os três jogos do Euro-1996, e retira-se do futebol de seleções depois de ter ficado fora dos eleitos para o Mundial-1998.

A Squadra Azzurra nunca foi Zola, mas ele deixou sempre magia suficiente pelos clubes em que jogou.

1,68 metros. Uma caixinha mágica. Rápido, dinâmico, criativo e inteligente taticamente, tinha na visão e na capacidade de passe armas fundamentais para o seu jogo, ao qual juntava drible, uma capacidade de decisão acima da média e, claro, o remate na passada ou, e aí era letal, nas bolas paradas.

Vénia, Marazola!

A despedida na Sardenha.

Gianfranco Zola

5 de julho de 1966

1984-86, Nuorese, 31 jogos, 10 golos

1986-89, Torres, 88 jogos, 21 golos

1989-93, Nápoles, 105 jogos, 32 golos

1993-96, Parma, 102 jogos, 49 golos

1996-2003, Chelsea, 229 jogos, 59 golos

2003-05, Cagliari, 74 jogos, 22 golos

Itália, 35 jogos, 10 golos

1 campeonato italiano (Nápoles, 1989-90)

2 Taças de Inglaterra (Chelsea, 1996-97 e 1999-2000)

1 supertaça italiana (Nápoles, 1990)

1 supertaça inglesa (Charity Shield, Chelsea, 2000)

1 Taça da Liga (Chelsea, 1997-98)

1 Taça dos Vencedores das Taças (Chelsea, 1997-98)

1 Taça UEFA (Parma, 1994-95)

2 Supertaças Europeias (Parma, 1993; Chelsea, 1998)

Alguns dos melhores momentos:

Os anos «italianos»:

Primeira série:

Nº 1: Enzo Francescoli

Nº 2: Dejan Savicevic

Nº 3: Michael Laudrup

Nº 4: Juan Román Riquelme

Nº 5: Zico

Nº 6: Roberto Baggio

Nº 7: Zinedine Zidane

Nº 8: Rui Costa

Nº 9: Gheorghe Hagi

Nº 10: Diego Maradona

Segunda série:

Nº 11: Ronaldinho Gaúcho

Nº 12: Dennis Bergkamp 

Nº 13: Rivaldo

Nº 14: Deco

Nº 15: Krasimir Balakov

Nº 16: Roberto Rivelino

Nº 17: Carlos Valderrama

Nº 18: Paulo Futre

Nº 19: Dragan Stojkovic

Nº 20: Pelé

Terceira série:

Nº 21: Bernd Schuster

Nº 22: Nándor Hidegkuti

Nº 23: Alessandro Del Piero