A viver o primeiro mês dos 47 anos, Ricardo Sousa – outrora herói do Beira-Mar no Jamor – desfruta da tranquilidade de Aveiro, cidade na qual reside há quase 30 anos, antes de retomar a aventura enquanto treinador. Num modesto café no coração da “Veneza de Portugal”, Ricardo Sousa conversa com o Maisfutebol e levanta a mão a quem o reconhece e cumprimenta.

Conta que não faz questão de ser famoso, mas não esquece o prestígio alcançado no «clube do coração».

Numa manhã de temporal – um dia normal, portanto – Ricardo Sousa desdobra-se em elogios a conterrâneos, amigos e antigos colegas de balneário.

Ao Maisfutebol, este antigo médio natural de São João da Madeira – com formação no FC Porto e épocas por Beira-Mar, Belenenses, Santa Clara e Boavista – vai estudando as lides do basquetebol, por influência das filhas, mas o coração bate mais forte pelo futebol. Afinal, é filho de António Sousa e pai de Afonso Sousa, médio atualmente na Turquia.

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Maisfutebol: É fácil se descolar do golo pelo Beira-Mar na final da Taça de Portugal de 1999? Isto é, a sua imagem desportiva não se esgotar naquele momento.

Ricardo Sousa: Queremos sempre novas conquistas que nos marquem. Mas o Beira-Mar é o clube do meu coração. É um orgulho estar ligado à conquista mais importante da cidade de Aveiro.

MF: Mora em Aveiro desde os 19 anos. Gosta de passar despercebido?

RS: Sim. Gosto de estar com a minha família, com as minhas filhas. Ambas jogam basquetebol no Beira-Mar, é a modalidade que mais acompanho do clube.

MF: Como interpreta o momento do Beira-Mar no futebol?

RS: É uma fase sensível. Os clubes são subsidiados por sociedades desportivas (SAD) e apoios externos para competir nos campeonatos profissionais. O Beira-Mar tem lutado para receber investimento de gente de confiança, o que não é fácil.

MF: E competir no Campeonato de Portugal é extremamente exigente.

RS: É muito mais difícil subir no Campeonato de Portugal do que na Liga 3. São muitas equipas. Quando treinei o Beira-Mar, em 2019/20, havia 96 equipas e apenas duas vagas para subir – e há sempre 25 candidatos. Espero que o Beira-Mar regresse rapidamente aos campeonatos profissionais, faz muita falta. Até pela massa adepta.

MF: Pelo Beira-Mar jogou no Estádio Mário Duarte, um lugar que desapareceu, foi demolido. O que sente ao passar naquele lugar?

RS: Não gosto de lá passar! Vivi lá parte da minha infância, acompanhei o meu pai nos treinos e jogos. Muitas das melhores recordações de infância e juventude foram ali construídas. Passar naquela rua e olhar para o vazio é algo que dói. O estádio foi demolido à pressa. Nenhuma obra surgiu.

MF: Nesta fase em que procura um novo desafio, aproveita para ver futebol com o seu pai, o lendário António Sousa?

RS: O meu pai é a pessoa mais recatada que conheço. É difícil tirá-lo de casa, só sai para ver um jogo dos meus filhos. O bichinho do futebol não desaparece, mas cansou-se do futebol moderno. É um meio gerido de forma diferente e o meu pai não compactua com muitas situações. Optou por se afastar. Os convites continuam a surgir, mas não quer ser protagonista. Dou um exemplo. O meu pai apoiou o André Villas-Boas e garantiu que não ambicionava a um cargo na estrutura. De resto, o meu pai continua a fazer a sua vida e a trabalhar na tabacaria em São João da Madeira, que já pertencia aos meus avós. Passa o dia a registar o Euromilhões e a conversar com as pessoas. É o que ele gosta. Entregou-se à felicidade e está bem de saúde aos 68 anos.

MF: Há alguns anos, a coexistência do clã Conceição no balneário do FC Porto era tema de debate. O Ricardo passou por isso no Beira-Mar. Como se gere esta situação?

RS: Dificilmente falava de futebol com o meu pai em casa. Admito que era uma situação difícil, mas descompliquei por aquilo que atingi. Conquistei a Taça de Portugal e fiz bons números. Quando somos importantes para a equipa, o argumento de ser filho do treinador acaba por cair. No caso da família do Sérgio Conceição, o Francisco resolveu muitos problemas e ninguém criticava. Mas o Rodrigo teve menos influência e foi apontado como um problema. A importância no grupo é influenciadora.

MF: São João da Madeira, além de Ricardo e António Sousa, formou outros jogadores que deram o “salto” para os “grandes”, como António Veloso, Cândido Costa, Secretário ou João Mário, atualmente no Bolonha. O que diferencia aquela cidade?

RS: Junto o Vermelhinho e o Rui Correia. É uma cidade do futebol, com muito talento. Mas o futebol mudou. Antes, a formação era quase toda vivida na Sanjoanense. Atualmente, os miúdos saem aos 7 ou 8 anos, o que retira o sentido de pertença, o fator diferenciador de cada cidade. Mas a Sanjoanense vai continuar a produzir bons jogadores, uma vez que tem muito talento e bons profissionais. Sabem o que estão a fazer.

MF: (…)

RS: O Secretário foi das pessoas que mais me marcou no FC Porto, porque fazíamos a viagem juntos todos os dias. O que ele viveu recentemente lembra-nos da importância de aproveitar cada dia junto das pessoas que nos são mais importantes. Ninguém quer carregar o sentimento de que poderia ter feito algo mais.

MF: O Ricardo foi contemporâneo do Cândido Costa na formação da Sanjoanense. Qual a primeira memória com ele?

RS: Éramos os melhores amigos, conheço-o desde infância. Fazemos uma pequena diferença de idades. Partilhámos muitos momentos na infância e juventude. Os pais do Cândido tiveram uma fábrica junto à casa da minha avó. A amizade começou na rua. E entre os 4 os 18 anos passei os três meses das férias escolares no parque de campismo do Furadouro, algo que o Cândido também fazia com os pais.

MF: O Ricardo deu treinador, o Cândido optou por um percurso diferente. Era previsível?

RS: Ele foi meu adjunto na primeira época como treinador, na Sanjoanense. E foi nesse ano que ele começou a trabalhar com o Porto Canal. A certo momento disse-lhe: “Não hesites, não tenhas dúvidas do que podes vir a ser”. É com muita alegria que o vejo a vingar numa nova vertente.

Cândido Costa e Ricardo Sousa reforçam S. João de Ver em 2012.

MF: Em 2001, no Belenenses, integrou o plantel que atingiu o quinto lugar da Liga, na companhia de César Peixoto. Fica surpreendido pelo trabalho do treinador do Gil Vicente na atual temporada?

RS: Não. O César está, finalmente, a ter o projeto que merece. Tem uma equipa à sua imagem. Mais do que a classificação do Gil Vicente, destaco a organização da equipa. É o espelho do César.

MF: Também partilhou balneário com Fary Faye, tanto no Beira-Mar como no Boavista. Pura coincidência?

RS: No último ano no Beira-Mar fiz do Fary o melhor marcador da Liga [18 golos]. Então fui contratado pelo Boavista, enquanto o Fary começou a pré-época no Beira-Mar. O treinador precisava de um ponta de lança e eu propus o Fary. Ou seja, acabo por ter a minha quota-parte de responsabilidade pelo percurso do Fary no Boavista.

MF: E agora o Fary lida com uma situação muito complicada no Boavista.

RS: A responsabilidade não é do Fary, ele não era o responsável máximo ou o investidor. Os sócios e adeptos do Boavista têm de reconhecer que o Fary sempre deu a cara. Nunca fugiu, como outros, e luta para que o Boavista não desapareça e possa, um dia, regressar ao patamar que merece.

Prossiga para a terceira e última parte da conversa do Maisfutebol com Ricardo Sousa.