A história de Filipe Coelho, treinador do ano na Roménia e vencedor de uma inesperada dobradinha, não é linear. Adjunto de Paulo Bento durante quase oito anos, voltou ao cargo de treinador-principal no Craiova obtendo sucesso imediato. Levou um clube que não ganhava o campeonato há 35 anos até à glória nacional.
«Não sei se podemos comparar assim, mas os adeptos falavam muito no "Nápoles da Roménia". Se pensamos num grande de Portugal quando fica dez, 15 ou 20 anos sem ganhar e a forma como festejam, naquela que é a sexta maior cidade da Roménia, podemos ter uma imagem do que aconteceu», explica o treinador em entrevista ao Maisfutebol.
E, realmente, se olharmos para as cores das camisolas do Craiova e às imagens do delírio nas bancadas após o 5-0 sobre o U. Cluj que selou o título, encontramos semelhanças com a euforia vivida em Nápoles no ano passado. Foram mais de três décadas de seca naquela cidade não muito distante do rio Danúbio.
A desfrutar das férias em Portugal, Filipe Coelho, de 45 anos, volta a estar com a família, de quem está distante enquanto treina. «É sempre o preço mais caro que temos de pagar neste estilo de vida de treinador», confessa. Em retrospetiva, a ida para o Craiova em novembro, pouco depois do início da época, revelou-se acertada.
Reunião informal no McDonald’s levou a convite inesperado
Tudo começou com uma decisão tomada num McDonald’s de Craiova, às duas da manhã de uma madrugada de novembro de 2025. Pouco tempo depois do anterior treinador ter-se despedido, o presidente do clube, Mihai Rotaru, o diretor desportivo português Mário Felgueiras, e um dos acionistas reuniram nesse local insólito. Havia três nomes de treinadores em cima da mesa e Felgueiras defendeu a vinda do português pela sua personalidade, contou Rotaru numa entrevista.
«Foi nesse momento que eles decidiram iniciar as conversas comigo. Viajei desde Lisboa até Bucareste e tive uma reunião dois dias depois, no escritório do presidente, e foi aí que tomámos a decisão final», acrescenta Filipe Coelho. Deixou a equipa técnica de Paulo Bento, por quem nutre muito respeito, como veremos adiante, e aventurou-se num país desconhecido.
Ele próprio era desconhecido aos adeptos, admite, sendo essa uma das primeiras dificuldades no Craiova. Outra foi o calendário. «Chegámos lá num momento difícil, porque estávamos a seis pontos do primeiro classificado, íamos jogar fora nas seguintes duas jornadas, e entre jogos tivemos Liga Conferência». As vitórias iam fazendo com que os jogadores «acreditassem na ideia de jogo» do técnico.
«Quando chegámos, analisámos a equipa, percebemos que tinha qualidade para evoluir e poder fazer melhor. Tínhamos oponentes muito fortes, é preciso não esquecer que o Craiova é apenas a sexta maior cidade da Roménia, com à volta de 300 mil habitantes, mas que tem adeptos que gostam muito do clube e que esperavam por isto há muito tempo. Agora, se me perguntasse, quando fui para a Roménia, se achava que íamos ser campeões, ganhar a Taça e ter uma prestação tão boa na Conference… mentiria se dissesse que sim», admite.
Pela primeira vez na carreira, apostou de forma recorrente no 3-4-3, uma formação celebrizada por Ruben Amorim no Sporting. Ainda que Coelho prefira, como muitos treinadores, sublinhar que «as dinâmicas» são mais importantes e que a formação seja apenas «um ponto de partida». Só a tinha utilizado «um ou outro jogo» ao lado de Paulo Bento, mas teve sucesso, tendo em conta as características dos jogadores.
«Vi gente de alguma idade a chorar de alegria»
Filipe Coelho descreve a Roménia como um país «apaixonado por futebol». O Craiova leva «sempre mais de 20 mil adeptos ao estádio», segundo ele. Já o jogo que deu o título, em casa, foi «o melhor ambiente» que Coelho viveu na carreira, após ter treinado em países como Angola, China, Coreia do Sul ou Emirados Árabes Unidos. «Vi gente de alguma idade a chorar de alegria», recorda.
A imagem mental da época, para o luso, ficou gravada na conquista do campeonato: «Eu diria a felicidade na cara dos jogadores. Alguns deles são da cidade e esperaram muito por isto. Foram muitas vezes criticados ao longo dos anos. A imagem da cara destes jogadores nas ruas, com as famílias, é algo que vou guardar para sempre.»
«O meu maior orgulho desta temporada foi, em primeiro, o compromisso entre todas as partes. E depois, a paixão dos adeptos. Numa Liga que é bastante complicada, em que temos uma primeira fase com 30 jogos, com os pontos a dividirem-se ao meio para um play-off onde ficam os seis primeiros e no play-off fica tudo em aberto. São jogos muito intensos, com ambientes muito bons e com um nível de qualidade já bastante significativo. Há pouca margem de erro na preparação para os jogos», explica.
Filipe Coelho revela que quis um maior pragmatismo nos play-offs, tentando que a equipa mantivesse a identidade de jogo. Uma estratégia que veio a dar frutos, com duas derrotas nesses dez jogos, enquanto caminhava na Taça, cuja final aconteceu antes do fim do campeonato.
A importância de Mário Felgueiras e de Paulo Bento, um «amigo para a vida»
Como já aludimos no início do texto, o diretor desportivo do Craiova é português. Desde 2024 que Mário Felgueiras, antigo guarda-redes, assumiu este desafio, regressando a um país onde jogou entre 2011 e 2014, ao serviço de Brasov e Cluj. Ex-jogador de Sp. Braga, Rio Ave ou Paços de Ferreira, Felgueiras trouxe o compatriota para o Craiova.
«O Mário é uma peça fundamental na minha vinda, até porque foi ele que colocou a possibilidade de vir para o Craiova. Depois, é claro que houve a entrevista com o presidente e consideraram que eu era a pessoa certa. Teve uma importância grande também na minha adaptação, pois conhece bem o país e fala a língua. E tem muito mérito naquilo que é o crescimento da academia, estão muito empenhados nisso», analisa.
A capacidade de adaptação de Filipe Coelho – que ele descreve como o maior trunfo dos treinadores portugueses -, já vinha sendo polida ao longo dos anos em que trabalhou como braço-direito de Paulo Bento, antigo selecionador nacional de Portugal. Um trajeto feito sempre na Ásia. Primeiro, no Chongqing Dangdai, da China; depois, na Seleção da Coreia do Sul, tendo participado no Mundial 2022, terminando a ligação após dois anos na seleção dos EAU.
Ficou a admiração por Paulo Bento e a ligação pessoal. O seu antigo 'mestre' já lhe deu os parabéns pelas conquistas na Roménia.
«É uma referência para mim. Àlem do futebol, também nos princípios. Deu-me a possibilidade de dar um passo em frente na carreira, trabalhar com grandes jogadores como Kim-min Jae, Kang-in Lee, Hyung-min Son só foi possível por causa dele. Bebi da sua liderança, é alguém que sabe muito de futebol. Sempre me apoiou e continua-me a apoiar», diz.
«Um amigo que ficará para a vida» e também, segundo Filipe Coelho, um tipo de treinador que «faz falta» a Portugal.
«É uma pessoa distinta no futebol português, na minha opinião. Sei que sou suspeito, mas digo-o com toda a clareza: é um treinador diferente. Acho que devíamos ter mais Paulos Bentos naquilo que são os exemplos em termos de postura, de seriedade, de princípios, além daquilo que é o treinador. Faz bem ao futebol e tem amor pela essência do jogo», elogia Coelho.
«Será muito difícil poder fazer melhor do que fizemos»
Já olhando para a próxima temporada, o técnico que conta com dois jogadores portugueses – Samuel Teles e João Gonçalves – não pretende importar mais lusos para o Craiova. Está mais interessado na qualidade e não tanto na nacionalidade. Depois do sucesso desta época, Coelho pretende «humildade» e «pés assentes na terra» em 2026/27.
«Depende muito daquilo que são as decisões do clube, quem vamos vender, quem vamos conseguir contratar. Obviamente que eu gostava que pudéssemos dar muito mais alegrias aos nossos adeptos e conseguir dar um passo em frente, mas títulos não prometo. Nunca prometi, nem vou prometer. Vamos ver o que acontece, creio que será muito difícil poder fazer melhor do que fizemos», admite o técnico.
«Criámos expectativas que podemos controlar e também oportunidades de poder participar na Champions ou na Liga Europa, vamos ver se conseguimos atingir. Agora vai começar tudo de novo, o passado já não vai interessar para nada, não nos vai permitir começar com mais pontos só porque ganhámos no último ano. Começa tudo a zero», adverte.
Com contrato até 2027, Filipe Coelho quer continuar no Craiova. Um regresso a Portugal não está excluído, mas também não é prioridade.
«Há sempre a questão familiar em cima da mesa, mas, enquanto treinador, tenho de estar preparado para trabalhar em tudo aquilo que me interessa. Onde sinta que possa atingir aquilo que o clube pretende, isso para mim é fundamental. Obviamente que treinar em Portugal nunca estará fora dos meus planos. Já treinei todos os escalões, desde a última distrital de Lisboa até à II Liga. Falta-me treinar na Liga. Mas não estou obcecado com isso», esclarece.
Por agora, é tempo de recuperar energias. A primeira pré-eliminatória da Champions começa já no dia 7 de julho, no primeiro de quatro degraus até à fase de liga. O hino da Champions ainda não soará em Craiova (normalmente, apenas acontece do play-off para a frente), mas os romenos vão atrás do sonho, com Filipe Coelho a indicar o caminho.
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