A retaliação do Irão face ao ataque concertado dos Estados Unidos da América e de Israel tomou de surpresa muitos portugueses emigrados no Médio Oriente. Dezenas de mísseis têm sobrevoado o Mar Vermelho nos últimos dias, em direção a países onde ocidentais viviam em plena tranquilidade.

O Maisfutebol recolheu o depoimento de três técnicos lusos que agora trabalham na região. Todos eles estão recolhidos no domicílio e todos eles têm as atividades dos respetivos grupos em suspenso. Tentam manter a «tranquilidade» e «serenidade», mas o que ouvem e veem «preocupa».

Pedro Martins, treinador português que deixou marca no Rio Ave ou no Olympiakos, é um dos que mantêm a calma apesar das explosões. O técnico do Al-Gharafa, clube da cidade qatari de Doha, ouviu várias explosões no sábado, uma delas a «300 ou 400 metros» de sua casa, devido à interceção de mísseis. «Ouvi imensas», conta em entrevista ao nosso jornal, admitindo que neste domingo o volume do ataque tinha diminuído.

«Tenho estado em contacto com amigos e também com os meus assistentes. Embora cada um esteja mais recatado nas suas casas, tentamos viver uma vida perfeitamente normal, na medida do possível. Mas sempre senti-me extremamente seguro», sublinha Martins, explicando depois a origem dessa tranquilidade.

«A qualidade da defesa aérea do Qatar é muito boa, o que permitiu ter este nível de segurança. Também sei que há muito mais aviões de defesa no espaço aéreo neste domingo. Continuamos seguros. É o que sinto, muito sinceramente», acrescenta.

Além disso, Pedro Martins já foi contactado pelo Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Emídio Sousa. Foi um criado um grupo de Whatsapp com portugueses residentes no Qatar para facilitar a comunicação.

«Tive um acompanhamento tremendo por parte da QSL (Qatar Super League), que nos tem contactado. Este domingo tivemos uma reunião. Outro aspeto relevante também é a união da comunidade portuguesa. Está toda a gente informada, está toda a gente interessada em que as coisas se resolvam pelo melhor», diz.

Pedro Martins é treinador do Al-Gharafa há quatro temporadas. Vai «avaliar» continuidade daqui a três meses

«Estamos a entrar num mundo lunático»

O feirense não tem interesse, para já, em sair do Qatar. Nem recebeu por parte do grupo de jogadores, que contém nomes como Yacine Brahimi, Joselu, ou Álvaro Djaló, indicações de atletas a querem sair do país. Jogadores, esses, que recebem um treino específico 'caseiro'.

«Sei de alguns portugueses que tentaram sair do país, mas não foi possível. Alguns tentaram ir via Arábia Saudita, porque ainda mantém o espaço aéreo transitável. Outros via Omã, porque esse país não tem uma base aérea americana», conta.

Pelo menos no Qatar, que sofreu ataques também no Aeroporto Internacional de Doha, o espaço aéreo está fechado até 3 de março. Pedro Martins vive no Qatar há quase quatro anos, orientando sempre o Al-Gharafa. Nunca imaginou viver algo assim.

«Eu acho que no meu grupo de trabalho não há ninguém que esteja habituado a este tipo de situação. Não conheço ninguém que tenha vivido algo semelhante e, portanto, é uma situação nova para nós. O Qatar sempre foi um país muito seguro, com qualidade de vida, muito tranquilo», assegura.

«Estamos a entrar num mundo lunático. É preocupante. Fruto de três potências que querem controlar o mundo, que podem ter proporções gigantescas. Só espero que os líderes europeus se assumam de uma vez por todas», pede Pedro Martins.

O episódio não faz, garante, o técnico, repensar a sua continuidade no Al-Gharafa. Mantém o foco no clube para os próximos três meses e, no final, irá fazer uma «avaliação». Apesar da tranquilidade vivida em casa, Pedro Martins admite sentir também alguma «impotência», bem como um colega luso.

«Nós sentimo-nos um pouco impotentes com aquilo que se está a passar. Estamos à espera que haja desenvolvimentos. Como é evidente, isto ultrapassa quer o Qatar, quer os profissionais do futebol. Também tive a oportunidade de falar, por exemplo, com o Pedro Emanuel [treinador do Al Fahya, da Arábia Saudita], que se sente um pouco nas mesmas circunstâncias. Ninguém sabe o que é que vai acontecer», atira.

Nandinho orienta treino do Al-Muharraq, do Barém

Jogadores de Nandinho refugiaram-se num parque de estacionamento

Uma impotência que se alastra alguns quilómetros a norte, no vizinho Barém, onde atua outro treinador português. Nandinho orienta o Al-Muharraq, líder do Campeonato, e tem estado fechado em casa a aguardar desenvolvimentos.

«Situação é de impasse. Competições suspensas, ordens para ficar em casa e quando soam alarmes nos telemóveis e as sirenes, temos de ir para as caves dos prédios até que a situação acalme. Desde ontem têm havido ataques a locais com presença norte-americana, mas as antiaéreas do Barém têm lidado bem com isso», começa por dizer ao Maisfutebol.

A capital do Barém, Manama, foi um dos alvos preferenciais do Irão por alojar uma base americana. A vaga de mísseis de sábado fez com que os jogadores do Al-Muharraq utilizassem um abrigo improvisado.

«Foram para um local seguro, num parque de estacionamento subterrâneo de um centro comercial. Passaram lá a noite e hoje voltaram a casa. Vamos aguardar, senão teremos de 'abalar' daqui pela Arábia Saudita. Esperemos que a Embaixada portuguesa tome algumas medidas nas próximas horas», afirma o ex-Gil Vicente ou Famalicão.

A embaixada portuguesa mais próxima da região, tal como no caso do Qatar, fica a quatro horas de carro. Uma distância que acaba por resultar em alguma ansiedade.

«Estamos em contacto com a Embaixada Portuguesa em Riade [Arábia Saudita] para perceber quais os passos a tomar em conjunto com o clube. Há um grupo de portugueses no Whatsapp em que recebemos informação. Desde aqui há uma ponte para a Arábia Saudita e eles têm permitido a acesso a cidadãos europeus sem visto», relata.

«O espaço aéreo ainda está aberto, mas o problema é que estão a cancelar voos. Não sabemos o que vamos encontrar, porque outros aeroportos foram atacados. O do Kuwait, Barém, Qatar... estamos a aguardar», lamenta o português.

Artur Jorge, ex-Sp. Braga, é rival de Pedro Martins na Liga qatari

Artur Jorge diz ter visto mísseis no céu de Doha

Outro dos treinadores que tem levado a bandeira portuguesa para o Golfo Pérsico é Artur Jorge. O técnico do Al-Rayyan, rival do Al-Gharafa de Pedro Martins no Qatar, contou a sua experiência ao Maisfutebol através da sua assessoria de imprensa.

«Vivemos momentos de alguma tensão com o início do conflito. Ainda que seguindo o protocolo do Estado e resguardado em casa, foi possível durante todo o dia e noite ver bem de perto o rebentamento dos mísseis no céu de Doha. Particularmente o dia de ontem foi muito intenso», admite o ex-treinador de Sp. Braga ou Botafogo.

«A situação preocupa, mas o momento é de manter a serenidade e garantir a segurança. Todos os jogos da Liga foram cancelados e adiados, o mesmo aconteceu com o jogo que teríamos no dia quatro, a meia-final da Gulf Cup Champions, a jogar no Kuwait. Aguardamos com paciência e esperança o fim do conflito para podermos voltar à nossa rotina diária aqui no Qatar», relatou o português.

O futebol é agora um pormenor no Médio Oriente, especialmente no Golfo Pérsico, em suspenso pelo conflito aberto neste fim-de-semana. Sem treinos e com jogos adiados, resta esperar (pelo melhor).