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A aparente boa disposição não deve ser confundida com desleixo. Bruno Conceição tem atacado o problema com a seriedade que o momento exige. Largou a carreira de imediato e teve um curso intensivo de termos médicos que lhe eram estranhos. «Quando o médico me disse que tinha um mieloma múltiplo, percebi que era grave e que era algo oncológico, mas claro que não fazia ideia ao certo do que era.»

Na época 2011/12, o guarda-redes ajudou o Arouca na Liga de Honra. Seguiu para o Trofense, já em janeiro de 2013, mas foi aí que chocou de frente com a sua doença.

«Andava a sentir umas dores no adutor, pensei que era algo muscular e, depois de assinar com o Trofense, pedi-lhes uma semana para fazer tratamento nessa região. Depois, fui treinar. Fiz corrida com o grupo e, nos primeiros exercícios com os outros guarda-redes, acontece a queda natural que precipitou tudo.»

Bruno Conceição atirou-se para o lado e o corpo cedeu. «Fraturei um osso da anca, o ilíaco. Fui operado pensando isso mesmo, mas afinal era uma fratura num quisto, provocada já por uma fissura. Aquelas dores anteriores não eram musculares, afinal.»

O mieloma múltiplo, o maldito cancro, manifestou-se. A fragilidade dos ossos era uma evidência. «Os médicos perceberam logo que algo não estava bem, mas passaram-se largos meses até ao diagnóstico final. De qualquer forma, parei a carreira de imediato.»

A rescisão de contrato com o Trofense foi um passo natural. O clube não sabia o que aí vinha.



«Quando soube que afinal era um mieloma... Psicologicamente, como deve imaginar, o primeiro mês foi muito difícil para mim. Deixei de fazer planos para o futuro, passei a apreciar coisas simples do dia-a-dia, a que muitas vezes não damos valor. Enfim, foi duro mas percebi que tinha de lutar!»

Bruno Conceição passou a ser um anónimo utente do Hospital Santo António e do Instituto Português de Oncologia do Porto. «Um julho de 2013, estive a fazer radioterapia no IPO. Depois, estive internado três semanas para o autotransplante. Seguiram-se dois meses quae fechado em casa, resguardado, mas percebemos depois que não tinha resultado. Não estava pior mas também não estava melhor», desabafa.

As rotinas foram alteradas por completo. «Ao longo do último ano, tive de aprender a evitar certos espaços públicos. Tinha de levar uma máscara sempre que ia ao hospital. Enfim, tenho de ter certos cuidados. E só posso fazer caminhadas, os médicos não me querem a correr ou a fazer natação, por exemplo.»

O antigo guarda-redes lamenta ter interrompido a carreira mas sabe que a doença não escolhe datas. «Se não fosse aquela queda no treino, normal de um guarda-redes, podia ir na rua daqui a uns meses ou anos e de repente, do nada, partir uma perna. Só aí saberia que tinha isto, porque de resto não tenho dores.»

«Ainda bem que o problema foi detetado já, para o atacar, mas claro que custa ter sido assim, ainda na carreira. Tive de terminar. Os ossos ficam um pouco mais frágeis e, para além de todo este tratamento, a posição que ocupava desaconselhava por completo que sequer pensasse em voltar ao trabalho», salienta.



Os Bombeiros Voluntários de São João da Madeira, terra natal de Bruno Conceição, promovem uma recolha de sangue/medula óssea a 18 de março, entre as 9h00 e as 12h30. A sede da corporação fica junto à escola primária dos Condes e à PSP da localidade.

Pode saber mais AQUI.

Para além disso, qualquer interessado pode consultar o site oficial do Instituto Português do Sangue e da Transplantação para descobrir onde e quando pode dar o seu contributo.

«Fiquei vários meses a lutar contra a doença sem falar sobre o assunto. Porém, nesta fase, percebo que quando mais pessoas souberem, melhor para mim. Aproveito um pouco a imagem que tenho por ter sido profissional de futebol, mas é uma forma de ajudar a mim ou quem sabe ajudar outras pessoas.»



Ao longo da última semana, sobretudo, o mundo do futebol foi partilhando a história. Tudo começou nas redes sociais, onde o movimento continua a ganhar novos seguidores. Seguiram-se manifestações públicas de várias personalidades: Leonardo Jardim aproveitou uma conferência de imprensa para lançar o apelo e os jogadores do Estoril apresentaram uma faixa dedicada a Bruno na véspera do jogo com o Benfica, por exemplo.

O apoio foi chegando de todo o lado. De Arouca, da Póvoa do Vazim, de Aveiro. Todos com Bruno Conceição. «Fiquei espantado e orgulhoso com tanto apoio, sinceramente. Estou profundamente grato e isso torna-nos mais fortes. Acreditem que essa força está a passar para mim.»

«Quero agradecer a esses companheiros de profissão e não só. Agradeço às figuras públicas e aos anónimos. Agradeço ao IPO, ao Serviço de Transplantação de Medula Óssea, ao Centro Hospital do Porto, ao Hospital de Santo António e sobretudo à Doutora Cristina Gonçalves, que tem sido incansável no acompanhamento do meu caso. Obrigado a todos!»



O momento alto no Beira Mar e a força de Vítor Pereira

Bruno Conceição luta pela sua vida mas não esquece a carreira. Pelo menos, merece que ela seja lembrada. Pendurou as luvas aos 32 anos mas festejou uma subida à Liga e foi campeão da Honra pelo Beira Mar. Para além disso fez alguns jogos no escalão principal pelo Paços de Ferreira.

«Fiz uma carreira boa mas sempre tive aquela sensação de que podia ter chegado mais longe, tive pouco espaço na Liga. Acima de tudo, ficou marcada pelo ano de subida no Beira Mar, quando fomos campeões».

O guarda-redes nasceu em São João da Madeira e formou-se no clube local. «Fiz toda a formação na Sanjoanense, excetuando um ano de júnior no FC Porto. No Porto, o treinador era o João Pinto, o outro guarda-redes era o José Eduardo e o Bruno Vale, que ainda estava nos juvenis, também era por vezes chamado», explica.

Após a temporada no FC Porto, regressou à Sanjoanense e por lá ficou até 2005. Luís Castro e Vítor Pereira foram dois dos seus treinadores nessa fase. Seguiram-se o Infesta, o Esmoriz e o Varzim até à oportunidade para jogar na Liga.



Em 2008/09, integrou o plantel do Paços de Ferreira e arrancou a época como titular. Com Paulo Sérgio, fez no total quatro jogos para o campeonato e dois para a Taça da Liga. «Foram poucos, infelizmente.»

Bruno Conceição prefere recordar o ano seguinte: o Beira Mar com Leonardo Jardim. 28 jogos nessa temporada, contribuindo para a subida de divisão. O guarda-redes não foi tão feliz na segunda temporada em Aveiro. Rui Rego chegou de Chaves e agarrou a titularidade. Bruno fica na sombra, tal o brasileiro Vicente Paes e um jovem eslovaco: Jan Oblak.

Arouca é o destino seguinte. O guardião é utilizado em 18 encontros até 18 de março de 2012. «Nesse dia, frente ao Portimonense, fiz o último jogo da minha carreira. Estava longe de o imaginar, claro.» A equipa fica na Liga de Honra. Bruno Conceição sai e tenta começar de novo no Trofense. Em vão, no primeiro treino a sério, a lesão e o diagnóstico: cancro.

«Como disse, foi uma carreira boa, que podia ter sido melhor. Guardo boas recordações dos colegas de equipa e de quase todos os treinadores. Se tiver de destacar um, até pelo que tem acontecido nesta fase, tenho de falar no Vítor Pereira. Treinou-me na Sanjoanense e, mal soube do meu problema, começou a ligar-me regularmente, a dar-me apoio. Tem sido fantástico nesse aspeto», revela.

Bruno Conceição vai à luta. Quer fazer a defesa da sua vida. Não desiste e deixa uma promessa. «Quero vencer isto e ficar ligado ao futebol no futuro, seja de que forma for», garante em entrevista à  Maisfutebol Total . O futebol fica à sua espera.