É uma manhã triste em Moncarapacho (Olhão), onde paira no ar uma dor com nome próprio: Nassur Bacem, o jovem que morreu em campo a fazer aquilo de que mais gostava. Jogar futebol. Todos o lembram assim, trabalhador, bem-disposto e sempre - «mesmo sempre» - um excelente profissional. Deixou-nos aos 27 anos, mas não será esquecido.
Nemésio Martins ainda não recuperou do abalo de quarta-feira à noite. A voz embargada denuncia-o: «Está a ser um dia muito complicado», confessa à reportagem do Maisfutebol.
O presidente do Moncarapachense estava no banco de suplentes quando tudo aconteceu. Corria o minuto 28 do jogo entre a sua equipa e o Imortal (Albufeira), a contar para a terceira eliminatória da Taça do Algarve, no Estádio Municipal de Olhão. De um momento para o outro, o futebol deixou de ser o mais importante.
«Foi de repente. Ele caiu, o nosso médico entrou, chamámos as ambulâncias, ainda se tentaram algumas manobras de reanimação, levou uma injeção de adrenalina... mas nada», conta.
O «nada», aqui, é tudo. Nassur morreu ali, vítima de uma paragem cardiorrespiratória.
«E nós a olhar, impotentes, sem conseguirmos fazer nada. Estamos devastados. É uma dor que não lhe consigo descrever», diz Nemésio, presidente do Moncarapachense há mais de uma década.
Nassur tinha 27 anos, mas já um longo historial no mundo do futebol, a sua grande paixão desde sempre. Começou bem lá atrás nas escolinhas do Águeda, uma vez que a família é da zona de Aveiro.
A qualidade despertou o interesse dos grandes. Em 2009/2010, rumou a Alcochete, esteve três épocas na formação do Sporting e partilhou o balneário com nomes como André Franco (ex-FC Porto) ou Luís Esteves (Gil Vicente).
Do Sporting, rumou a outras paragens. Ainda na formação, jogou no Braga e no Leixões, foi até na formação de Matosinhos que se estreou como profissional. A carreira sénior foi feita, de resto, entre Marítimo (equipas B e sub-23), Oliveira do Hospital e Camacha (Madeira), onde encontrou alguém muito especial.
Tal como Nemésio, João Nivea não esconde a tristeza que o invade. «Para ter uma ideia, eu até me considero um tipo de 'palavra fácil', mas hoje é muito complicado», alerta, para início de conversa.
«Nunca estamos prontos para uma tragédia destas», reconhece o treinador que tinha uma relação muito especial com Nassur Bacem, que conheceu na Madeira.
«É engraçado porque só o orientei seis jogos no Camacha, mas acabei por levá-lo para Moncarapacho no início desta temporada. Isso mostra a nossa ligação. Confiava muito nele», conta João Nivea que, entretanto, também já deixou o clube algarvio.
O carinho - pelo Moncarapachense e por Nassur - nunca se perdeu. Ainda ontem à noite, o treinador foi avisado do que estava a acontecer. «Fui acompanhando tudo, ligaram-me... Estou destroçado», resume.
As memórias que o mister guarda do antigo atleta não podiam ser melhores. Não só «era um menino incrível, sempre de sorriso na cara», como era um «excelente jogador».
«Eu costumo dizer que o Nassur era um lateral moderno, que se projetava, que fazia o corredor inteiro. Era veloz, intenso e aliava isso a uma boa qualidade técnica», diz-nos.
É também essa a memória que Nemésio Martins guarda do jogador. «Nunca nos causou problemas alguns. Era tranquilo, impecável, trabalhador. Um tipo anda nisto há anos e só quando acontecem estas coisas é que mete tudo em perspetiva. Não é fácil».
Uma coisa é certa: ninguém esquecerá este menino, como comprovam as dezenas de publicações nas redes sociais de antigos companheiros.
«Ainda não sei que homenagem vamos fazer, mas, em Moncarapacho, não vamos deixar perder a memória do Nassur», diz Nemésio.
João Nivea não diria melhor. «Nunca esquecemos aqueles que correm connosco. Nunca. E isso era o Nassur».
A sua revista digital