Ganhou Jorge Lorenzo, em casa, em Espanha. Vitória tranquila. Demasiado tranquila atiram os fãs de Rossi, que era o outro candidato, lá está. Indiferente ao esforço de recuperação do italiano, que veio de último a quarto para «morrer na praia» (ultrapassou 17 pilotos em três voltas), Lorenzo dominou de ponta a ponta, com Marc Marquez na sua roda o tempo inteiro.

O jovem da Honda, campeão nas duas últimas temporadas, é, por estes dias, o vilão de toda a história. Mais até do que o Lorenzo, que assinou o tri na classe rainha, depois de um mau arranque de temporada e de ser bem menos constante do que Rossi.

Lorenzo ganhou mais corridas (sete contra quatro), mas enquanto «Il Dottore» apenas falhou três pódios (o primeiro, em San Marino à 13ª corrida) e nunca ficou abaixo do quinto lugar, o espanhol terminou seis vezes fora dos três primeiros, tendo como pior registo o abandono em San Marino. No final contudo, somou mais cinco pontos: 330 contra 325.

Costuma dizer-se que não há campeões injustos, mas boa sorte a quem tentar convencer os fieis seguidores de Rossi que ganhou o melhor…

«Marquez tornou-se o guarda-costas de Lorenzo»

No centro de toda a polémica esteve a corrida da Malásia, penúltima da época. Rossi tinha uma vantagem a gerir face a Lorenzo (sete pontos no final), mas Marquez intrometeu-se. Uma corrida de ataque constante que muitos viram como provocatória. E que levou ao toque da polémica, que foi julgado como intencional e atirou o italiano para o fundo da grelha em Valência. Nem o TAS foi sensível ao apelo de Rossi.

É neste ponto que as opiniões se dividem. Há quem defenda que alguém com a experiência de Rossi nunca poderia cair numa «armadilha» destas e teria cedido inesperadamente à pressão. Outros não desculpam Marquez, acusando-o de querer entregar o título ao compatriota. Entre eles esteve Valentino Rossi.

Este domingo, Rossi recuperou com relativa tranquilidade até ao quarto lugar. Mas sabia que a missão espinhosa começava aí. A diferença para a dupla da Honda (Marquez e Dani Pedrosa), que seguia Lorenzo , era irrecuperável. O italiano precisava de uma «ajuda» da equipa rival. Que alguém atacasse Lorenzo. Ninguém o fez.

No final, Rossi desabafou: «Foi incrível o trabalho das Honda. Sabia que isto ia ser assim. Fiz um grande Mundial até ao Japão e tinha condições para ser campeão, mas a partir da Austrália, o Marc Marquez tornou-se, inesperadamente, no guarda-costas do Jorge Lorenzo. Nunca se tinha passado isto e é embaraçoso para a nossa modalidade. Toda a gente viu quandl era o plano do Marc.»

Rossi virou agulhas a Marquez, tal como os seus fãs já haviam feito. No pódio, este domingo, o espanhol foi mesmo assobiado, tal como o campeão. Numa corrida…em Valência.

Marquez não gostou. Nem dos assobios, nem das declarações do rival. «Para mim, que sou um piloto que dá sempre tudo para ganhar, é uma falta de respeito e um insulto», catalogou.

A verdade é que, voluntariamente ou não, Marquez nunca atacou Lorenzo na corrida. Garantiu, no final, que tentou e não conseguiu.

Rossi sobre Marquez em 2013: «É como eu, mas melhorado»

Rossi e Marquez: nenhum deles imaginava por estes dias...

Nem sempre foi assim a relação entre Rossi e Marquez, convém sublinhar. Bem pelo contrário. Aliás, para a história do MotoGP ficou a rivalidade entre o italiano e Lorenzo, na primeira vez que foram colegas na Yamaha.

O, agora, tricampeão entrou na equipa em 2008. Rossi ganhou dois títulos nos dois primeiros anos com o novo colega. Os dois últimos da carreira. Quando Lorenzo ganhou experiência e se agigantou no seio da equipa o clima de tensão tornou-se quase irrespirável. O título de 2010 foi para o espanhol, num ano polémico em que ficou para a história o muro que dividia a boxe da mesma equipa.

Marquez surge, portanto, de forma algo inesperada nesta rivalidade. Assumindo ele o protagonismo. Marquez que, como é público, cresceu a admirar Rossi…

E este começou, também, por achar graça ao jovem que teve um ano de estreia no MotoGP impressionante, em 2013, quebrando recordes e chegando ao título.

«Não é exagero dizer que é o meu sucessor». «Ele é como eu, mas melhorado. É o último modelo». «Só vejo uma solução para travar as vitórias dele: mandá-lo para a Fórmula 1». «Tem todo o potencial para poder vir a ser o melhor de sempre».

Tudo isto foi dito por Valentino Rossi ao longo da temporada de 2013. O tempo, claro, muda muita coisa e a opinião do italiano, por estes dias, será diferente. Marquez é que não quer saber. Mesmo que continue a ser assobiado no pódio: «Senti-me estanho, ouvi uns apupos e é complicado para um piloto. Mas estou de consciência tranquila.»

O universo MotoGP tem a palavra a partir da próxima temporada.

Palmarés de Jorge Lorenzo:

Títulos MotoGP: 3 (2010, 2012, 2015)

Títulos Moto2: 2 (2006 e 2007)

Títulos Moto3: 0

Vitórias MotoGP: 40

Pódios MotoGP: 97

Pole-positions MotoGP: 35

Idade: 28 anos

Palmarés de Valentino Rossi:

Títulos MotoGP (500cc): 7 (2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 2008 e 2009)

Títulos Moto2 (250cc): 1 (1999)

Títulos Moto3 (125cc): 1 (1997)

Vitórias MotoGP: 86

Pódios MotoGP: 175

Pole-positions MotoGP: 51

Idade: 36 anos

Então e…Miguel Oliveira?

Sexta vitória da época para o português

Se o mundo afeto ao motociclismo parou, este domingo, para ver se Valentino Rossi se candidatava ao elenco de «Missão Impossível», em Portugal a ideia passava por colar-se à televisão umas horas mais cedo para ver se Miguel Oliveira também o conseguia.

Tal como Rossi…bateu na trave. O português fez a sua parte e venceu a corrida, mas a desvantagem para Danny Kent era demasiado grande. A excelente ponta final não rendeu um título mundial mas não pode cair em saco roto.

Miguel Oliveira, que já tem assegurado o salto para a categoria intermédia em 2016, venceu quatro das últimas seis corridas, sendo segundo nas outras duas. Uma ponta final de campeão que não valeu o título porque o início não foi o melhor. O primeiro pódio veio só à sexta tentativa, em Itália, na primeira das seis vitórias da época. Antes de 2015, nunca havia ganho.

Aos 20 anos, o jovem de Sintra é vice-campeão do mundo e uma das grandes promessas no MotoGP. Fez a melhor época da carreira na primeira vez que representou uma equipa de francas ambições ao título. Não desiludiu, bem pelo contrário.

Segue-se, então, o Moto2. Espera-se um primeiro ano de adaptação a uma realidade (e potência) nova, mas convém ter Oliveira debaixo de olho. Porque mesmo quando as missões parecem impossíveis ele mostra que vale sempre a pena tentar.