A 'World Cup Experts Network' reúne órgãos de comunicação social de vários pontos do planeta para lhe apresentar a melhor informação sobre as 32 seleções que vão disputar o Campeonato do Mundo. O Maisfutebol representa Portugal nesta iniciativa do prestigiado jornal Guardian. Leia os perfis completos das seleções que participarão no torneio:

<i>Autores dos textos: Philippe Auclair, Bruno Rodrigues, Thomas Simon

Parceiro oficial em França: France Football

Revisão: Nuno Madureira</i> 

Depois de um longo período de testes e experiências, em que também testou o 4-2-3-1, o 4-1-4-1 e o 4-4-2, Didier Deschamps assentou finalmente num 4-3-3 que, para os seus olhos, é o mais adequado às características dos homens que escolheu para o Mundial.

O antigo médio e treinador da Juventus não acredita num sistema superior. É, antes do mais um pragmático, de pensamento tático moldado na Série A, muito mais do que na escola mais romântica e vistosa do Nantes, onde se lançou no futebol. O 4-3-3 destina-se a tirar o máximo partido do potencial dos jogadores escolhidos – porque eles são «os melhores para este trabalho», e não necessariamente «os melhores nas suas posições», como Samir Nasri aprendeu às próprias custas.

Isto traduz-se em campo numa defesa a quatro, em linha, um meio campo de três caracterizado pela polivalência e a predisposição para trocar posições e um tridente de ataque incisivo e com técnica acima da média.

Esta formação que a França vai usar com as Honduras, no jogo de estreia, a 15 de junho é, como vimos, uma das várias fórmulas testadas pelo manager dos Bleus. Nem sempre de forma convicente, diga-se. Mas os jogadores que teve à disposição neste período não eram necessariamente os melhores para fazer do 4-3-3 o sistema de base. A França sofreu perante o Japão (0-1), afundou-se com o Brasil (0-3) e, por duas vezes, penou diante da Espanha na campanha de apuramento – até o selecionador optar pelo regresso ao 4-4-2 na fase final do jogo de Madrid.

Agora, quase todas as peças encaixam no puzzle- como se viu na vitória por 3-0 sobre a Ucrânia na segunda mão do play-off, jogo que passou a constituir referência. Não há razão para que Deschamps desmonte o que demorou a construir, e que torna a equipa agressiva na frente, sem desequilibrar o bloco.

À frente do guarda-redes e capitão Lloris, os laterais Debuchy e Evra, talvez não sejam dos defesas mais fiáveis, serão encorajados a avançar no terreno, o que casa bem com as suas tendências naturais. Sobrecarregar a defesa contrária nos flancos, com o apoio de Ribéry (se recuperar) e, provavelmente, Valbuena, deverá ser uma das maiores ameaças da França. No eixo defensivo, o elegante Varane deverá fazer par com Koscielny ou Sakho – a escolha que vai depender da forma do momento, mais do que de questões táticas.

Não há argumento razoável para opor a um meio-campo formado por Cabaye (a ‘sentinela’), Pogba e Matuidi. O equilíbrio deste trio será um dos pontos fortes da França. Técnica, capacidade física, e de explorar o espaço entre linhas – todos eles têm isso. E também dão presença junto à baliza adversária, o que deverá ser suficiente para convencer Benzema a não fugir da área (como fez, de forma irritante, durante o Euro 2012), e focá-lo no que tem para fazer – marcar.

Se recuperar em tempo útil, Ribéry, o avançado mais eficaz durante a qualificação, será utilizado no seu flanco preferido, o esquerdo, e na terceira ponta do tridente, à direita, Valbuena, que parece guardar o melhor de si para a seleção, parte com ligeira vantagem sobre Loïc Rémy e o versátil Griezmann.

Deschamps acredita que com estes homens, e com este sistema, as triangulações vão aparecer de forma natural. Foi assim com a Ucrânia, mesmo que, aí, a agressividade e intensidade que a França pôs no jogo tenham pesado mais do que a organização em campo. E isso, tal como a disciplina tática, terá agradado ao lutador pragmático que Deschamps sempre foi.

Que jogador poderá surpreender?

«Surpresa» pode não ser a palavra, visto que já é um líder no PSG, numa posição para a qual Laurent Blanc não está propriamente em défice, com Thiago Motta, Massimo Verratti e Yohan Cabaye. Mas Blaise Matuidi pode deixar forte impressão no Brasil, visto que a falta de exposição internacional da Ligue 1 e a irregularidade dos desempenhos franceses depois da catástrofe sul-africana em 2010 fazem com que, fora de França, não haja muitos a descrevê-lo como o fez Carlo Ancelotti, que lhe chamou «um dos melhores médios da Europa». É verdade que o seu jogo ainda tem alguma rudeza, sendo mais fácil apontá-lo a dedo pelo vigor dos desarmes do que pelas qualidades com bola. Em termos físicos está muito mais perto de um Claude Makélélé do que de um Patrick Vieira, mas é muito mais do que um destruidor. A assistência para Benzema e o fantástico golo que marcou recentemente à Holanda são exemplos das suas outras qualidades. A haver setor onde os Bleus podem competir seja com quem for é no meio-campo, com Matuidi como indiscutível patrão. Deschamps deve agradecer aos deuses que Blaise tenha optado pela França em vez de Angola, o país natal do seu pai, Faria Rivelino.

Que jogador vai desapontar os adeptos?

Franck Ribéry, o que seria duro para um jogador que tentou a sério deixar para trás as loucuras sul-africanas de há quatro anos e foi o mais consistente e eficiente ao longo da campanha de apuramento. Porém, Ribéry sente os efeitos de uma temporada em que foi repetidamente travado por lesões, a última das quais, um hematoma na nádega direita, lhe afetou o nervo ciático e obrigou a uma operação. Quando está bem, é um jogador soberbo, o que não aconececeu muitas vezes nos últimos tempos. Parece exausto, mental e fisicamente. Três semanas não parecem tempo suficiente para que recupere a melhor forma.

Qual o objetivo realista para o Mundial?

Face à compsição do grupo E, o apuramento para os oitavos é o mínimo: a não ser alcançado significaria enorme deceção, mesmo que Honduras e Equador sejam desconhecidos para a França. Depois há a Suíça, e os últimos três jogos entre as duas equipas acabaram sempre empatados. Admitindo que os franceses passam o primeiro obstáculo, é desejável que não sejam segundos no grupo, já que teriam a Argentina como provável adversário em São Paulo, a 1 de julho. Se a França vencer o Grupo E, a chegada aos quartos de final, com a Alemanha no horizonte, seria um espelho adequado à qualidade atual da equipa. Em qualquer dos casos, ir além dessa barreira seria visto como uma genuína proeza. Mas, para a França, este Mundial não será apenas uma questão de resultados: mais importante do que isso será recuperar o afeto do público, que ainda não esqueceu – muito menos perdoou – a triste farsa de 2010.

Curiosidades e segredos da seleção

Paul Pogba

Não serão muitos os que têm a coragem ou inconsciência para fazê-lo, mas Paul Pogba respondeu a uma das clássicas «broncas» de Sir Alex Ferguson dizendo-lhe na cara tudo o que pensava, à frente dos incrédulos companheiros de equipa. E foi assim que conquistou a alcunha entre os jovens do Manchester United: Nelson Mandela.

Loic Rémy

Rémy assinou pelo QPR a 16 de janeiro de 2013, uma prova de que Harry Redknapp não é rancoroso. Dez dias antes, o manager tinha voado para Marselha, expressamente para ver jogar o avançado numa vitória do OM (2-1) sobre o Guingamp – só para se deparar com a recusa de Rémy em falar com ele. Na altura, Redknapp foi ouvido a desabafar: «Quem é que este c... pensa que é?!»

Moussa Sissoko

O que têm em comum Moussa Sissoko e Thierry Henry? Resposta: ambos se estrearam pelos Bleus exatamente com a mesma idade, 20 anos e 55 dias. Sissoko, nascido a 16 de agosto de 1989, estreou-se com as ilhas Faroe (5-0) a 10 de outubro de 2009. Henry, nascido a 17 de agosto de 1977, a 11 de outubro de 1997, contra a África do Sul (2-1).

Raphaël Varane

Após terminar a primeira época pelo Lens na Ligue 1, Raphaël Varane começou a preparar os exames finais do secundário. O telefone tocou: era o conselheiro especial de Florentino Pérez, um certo Zinédine Zidane. O jovem de 18 anos disse a Zizou, polidamente, que estava muito ocupado a estudar nesse momento e pediu-lhe para ligar mais tarde – e, obviamente, Zidane assim fez.

Perfil de uma figura: Karim Benzema

Comecemos por um facto indesmentível: a 10ª temporada de Karim Benzema ao mais alto nível foi a mais satisfatória da sua carreira até agora. Desinibido pela partida do principal concorrente, Gonzalo Higuaín, para Nápoles, no último verão, o antigo avançado do Lyon deu «show» com o Real Madrid.

Esta é, pelo menos, a opinião de Grégory Coupet, antigo guarda-redes da seleção francesa e do Lyon, que testemunhou a estreia de Benzema como profissional em dezembro de 2004. «Ele cumpriu em pleno o seu potencial,» diz Coupet. «Para mim tem um jogo completo, a técnica e força mental fazem dele o melhor avançado francês da atualidade.»

Mesmo que os números sugiram o contrário – marcou 24 golos em 51 jogos pelo clube na última temporada, contra 32 em 52 em 2011-12 – o seu peso no jogo do Real é maior do que nunca. «Tornou-se mais influente,» diz Coupet. «Percebes que encontrou o seu espaço, transmite serenidade e confiança.» E, isto, num papel vincadamente diferente do que é esperado de um número 9 clássico, em especial nos movimentos que faz na frente; e isso, diga-se, é algo que no passado nem sempre foi creditado a seu favor na seleção francesa.

Genuínos pontas-de-lança foram sempre peças raras em França, à exceção de Just Fontaine e Jean-Pierre Papin. Que o avançado nascido em Lyon tenha atingido este nível é tudo menos surpreendente para os que acompanharam o seu percurso desde que entrou no clube, com nove anos. Mesmo nessa altura já previsão comum apontá-lo como um «supercraque» do futuro.

Coupet confirma quando lhe é perguntado se já tinha ouvido falar do prodígio antes de ele chegar à equipa de reservas. Na verdade, todos tinham. Um avançado de 15 anos que marca quase 40 golos numa temporada pelos sub-16 dificilmente passaria despercebido. Diz-se que Gérard Houllier recusou contratar um terceiro avançado como alternativa a Fred e John Carew, dizendo ao diretor desportivo Bernard Lacombe: «Já temos um.»

A carreira profissional de Benzema começou de forma explosiva em 2004-05, ainda antes de festejar o 17º aniversário. Coupet estava na equipa, nesse dia. «Era um jogador à parte. Fora do campo era muito discreto, reservado, sem vícios. Mas no campo era bem diferente: normalmente, quando um miúdo chega a profissional [e Benzema só assinaria o primeiro contrato seis meses mais tarde], ainda lhe faltam algumas coisas, seja taticamente, no posicionamento ou na rapidez de execução. Benzema? Não. A sua facilidade impressionava.»

Benzema ainda teria de esperar por Dezembro de 2005 para marcar o primeiro golo sénior, numa vitória por 2-1 sobre o Rosenborg na Champions League. E muitas das suas presenças em campo nesse ano foram como substituto. Mas a evolução acelerou depois de marcar, em março de 2006, o primeiro de 43 golos em 112 jogos na Ligue 1 pelo clube da cidade natal, pelo qual lhes juntou 12 em 19 jogos na Champions.

Uma lesão impediu-o de corresponder à primeira chamada de Raymond Domenech, mas não teve de esperar muito para festejar a estreia, num particular com a Áustria, em Março de 2007. Apesar dos triunfos domésticos, o Lyon – pelo qual ganhou o prémio de melhor marcador em 2007-08, com 20 golos - tornava-se demasiado pequeno para um jogador destinado a tornar-se um dos melhor avançados franceses de sempre.

Sir Alex Ferguson seguiu-o de perto no Manchester United, tal como Florentino Pérez, para quem a contratação do jovem francês se tornou um ‘projeto pessoal’, coroado com sucessos quando o Lyon aceitou uma oferta de 35 milhões em julho de 2009. Daí para cá, teve desvios na vida privada, amplamente cobertos pelos media franceses, e a influência da sua entourage também foi posta em causa. La Liga mostrou ser um ambiente duro para a afirmação de um jovem, embora a preferência por Higuaín do seu primeiro treinador no Real, Manuel Pellegrini, não tenha ajudado. Um total de nove golos em 33 jogos em 2009-10 não era o retorno que Pérez esperava para o investimento.

De forma crucial, Pellegrini foi identificado como o problema, e não Benzema, e o avançado pôde prosseguir, com Mourinho, uma carreira ascensional. Com 26 golos em 2010-11 e 32 em 2011-12, tornou-se o melhor marcador francês na história do Real Madrid e da Liga – batendo os recordes de um tal Zinédine Zidane.

Se, tal como alguns outros, sentiu a última época de José Mourinho no Bernabéu como um momento complicado, desde a chegada de Ancelotti o seu desempenho voltou a melhorar, com o italiano a dar-lhe mais vezes a titularidade do que a qualquer outro dos seus jogadores, à exceção de Sergio Ramos. «A chegada de Ancelotti fez-lhe um bem enorme,» diz Coupet. «Ele parece mais pacificado, dentro e fora do campo. E tornou-se pai.» (a companheira de Benzema, Chloe De Launay, deu à luz uma menina chamada Melia em fevereiro de 2014).

Pelo meio, voltou a marcar pela seleção francesa, depois de um jejum de 1,222 minutos entre junho de 2012 e outubro de 2013. Um dos golos que se seguiram a esta seca foi crucial: o que permitiu aos Bleus empatar o play-off com a Ucrânia, e ajudou a diluir o cliché de que Benzema «desaparece nos grandes jogos» de uma seleção, com a qual tem uma relação complexa. «O meu país é a Argélia,» disse em 2006, «A França é uma escolha desportiva.» Não canta a Marselhesa (Michel Platini também não cantava), uma peculiaridade usada em alguns ataques, não propriamente inocentes, à sua devoção à causa.

Se o seu talento nunca foi posto em causa, já o empenho foi, repetidamente. Mas, depois de assistir pela TV ao desaire do Mundial 2010, Karim tem agora a ocasião para acertar contas, no Brasil. Coupet acredita que depende dele ser capaz de «impor-se, não só como líder pela técnica, que já é, mas como uma referência indiscutível para o grupo. Tem de fazer-se ouvir e ver. Se assim for, espero que varra tudo o que tem à frente.»

Todos os adeptos franceses dirão amen a estas palavras. Se conseguir manter o rumo da melhor temporada em Madrid, então, quem sabe? Karim Benzema pode muito bem tornar-se o factor-x da França.