Aurélio Pereira foi fundamental neste processo, e não foi nada fácil.

 

«O talento não é difícil de observar, o que é difícil de observar é a questão mental. Vi muitos talentos que não deram em nada. Cristiano Ronaldo era diferente», conta.

 

«Ele pegava na bola, dava ordens, gritava ‘leva bola, miúdo’ ou ‘solta a bola, miúdo’. Veja bem, tratava por ‘miúdo’ rapazes mais velhos do que ele...»

 

Por isso o então chefe do departamento de futebol juvenil não teve duvidas.

 

«Muitos miúdos de dezasseis anos dos Açores e da Madeira vinham fazer uma semana de testes a Lisboa e ao segundo dia faziam a mala para ir embora. O Ronaldo não. O Ronaldo ao onze anos dava ordem a rapazes mais velhos.»

 

A formação do agora melhor do mundo no Sporting esteve contudo muito distante de ser fácil.

Ronaldo voltou em definitivo para Lisboa no fim do verão de 1996, nessa altura já sem o padrinho que o acompanhara na semana de testes, e teve muitas noites de lágrimas.

 

Nuno Naré, antigo treinador e coordenador da formação do Sporting, acompanhou esse processo de perto. Ele foi o encarregado de educação de Cristiano durante cinco anos: os primeiros cinco anos que o jovem cumpriu em Lisboa.

 

«Passou momentos muito difíceis no Lar do Jogador, tinha saudades de casa, chorava à noite, disse muitas vezes que ia desistir», conta em conversa com o Maisfutebol.

 

«Nessa altura a mãe e as irmãs tiveram um papel fundamental. Elas é que o convenceram a não desistir da luta pelo sonho dele. Se não fosse por elas, ele tinha ido embora.»

 

«Os quartos eram por debaixo da bancada do antigo estádio, não tinha janelas, chovia lá dentro, era muito complicado...»

 

Nuno Naré era o treinador que funcionava como encarregado de educação, como já se disse, e tomava conta de Ronaldo em todas as vertentes: ia à escola, reunia semanalmente com a diretora de turma, estabelecia o contacto com a família, recolhia informações escolares.

 

«O Sporting fez um grande esforço, também financeiro, com o Ronaldo. Pagava com alguma regularidade viagens à mãe e às irmãs para o virem ver, colocava-o em contacto telefónico, fazia tudo para ele ultrapassar da melhor forma as saudades.»

 

Até porque Cristiano foi um caso incomum.

 

Nunca até então o Sporting tinha tido no Lar do Jogador um miúdo tão novo. O Lar estava aliás vedado a jovens com menos de quinze anos: só se aceitava juniores e juvenis.

 

Ronaldo, recorde-se, era infantil: tinha onze anos.

 

Para além das saudades de casa, de resto, havia outro problema: as dificuldades de integração em Lisboa. Sobretudo na escola em Telheiras.

 

«Teve problemas por causa do sotaque», recorda Nuno Naré. «Ele tinha um sotaque madeirense muito carregado. Os outros miúdos gozavam com ele por causa disso e ele não reagia bem. Sempre que se metiam com ele, ele afinava.»

 

«Mas mais tarde acabou por se integrar e tinha médias razoáveis. Era um aluno mediano: não era dos melhores, mas também não era dos piores.»

 

No Lar do Jogador tudo corria melhor: até porque com uma bola nos pés, todos queriam ser amigos de Ronaldo. Era um miúdo popular, portanto.

 

«Quando mais tarde tomei conta da Academia, cada quarto tinha um responsável. Ele era um líder natural e foi logo designado como responsável. Mais: os quartos tinha quatro ou seis miúdos. O quarto dele era sempre de seis porque todos queriam ir para lá: era muito brincalhão, divertido e amigo do amigo. Todos gostavam dele.»

 

Nessa altura já estavam completamente ultrapassadas as dificuldades de adaptação inicial: Ronaldo estava totalmente ambientado a Lisboa e tinha superado a distância da família.

 

Nuno Naré recorda de resto um jovem muito focado no sucesso.

 

«Nessa altura as nossas preocupações com os miúdos era com as escapadelas: fugiam à noite para ir ter com as namoradas ou com os amigos. Ele fugia para ir para o ginásio ou para ir para o pavilhão de futsal ensaiar fintas. Chegou aliás a ser castigado por isso.»

 

Ronaldo andava sempre com uma bola, de resto.

 

«Jogava futebol no quarto e tinha debaixo da cama uns pesos que ele próprio tinha criado, com umas latas e cimento. Era um exagero e tivemos de lhos esconder.»

 

Aurélio Pereira lembra-se perfeitamente desses tempos.

 

«O foco dele era ser mais forte, mais musculado, melhor do que os outros. Estava completamente focado em ser um grande jogador. Mas acho que todos no Sporting deram um contributo muito grande para ajudar a educar aquela criança. A vocação formadora do Sporting é inigualável, o sentido humano desta casa é enorme.»

 

Por isso começou a ser construído em Alvalade o melhor jogador do mundo: um miúdo com uma fome insaciável, que saltou etapas. Num só ano, aliás, jogou por três equipas: juniores, Sporting B e equipa principal.

 

Era essa ambição que fazia Ronaldo feliz. Aurélio Pereira lembra-se até de um episódio lapidar.

 

«Nós tínhamos um castigo pedagógico lá em casa que era empurrar um caixote do lixo com rodas para fora de casa, para depois ser recolhido. Se alguém cometia algum erro, despejava o lixo», recorda.

 

«Quando era o Cristiano, os outros miúdos gozavam com ele e chamavam Ferrari ao caixote. ‘Vai Ronaldo, leva o Ferrari, acelera’. Até que um dia ele respondeu: ‘Podem rir-se à vontade, que um dia ainda vou ter um Ferrari e aí sou eu que me rio’. Ele já me contou que se lembrou desta história quando comprou o primeiro Ferrari.»