Artigo originalmente publicado a 26 de outubro de 2013 na revista MFTotal. Na primeira pessoa, o relato de um dos sobreviventes da tragédia que vitimou grande parte da equipa do Manchester United, passam nesta sexta-feira 57 anos.

No domingo, Harry Gregg faz 81 anos. Harry Gregg foi um dos nove jogadores do Manchester United que sobreviveram à tragédia de Munique. Harry Gregg foi o maior herói dessa tragédia salvando a vida de várias pessoas quando os impulsos foram os de fugir de um avião que ia explodir. Harry Gregg é um herói já condecorado pela bravura e coragem que teve. Factos indesmentíveis à disposição de todos para serem conhecidos.

Mas Harry Gregg não é só esse herói. Isso é pouco para defini-lo. Muito pouco. É um homem que dá o maior valor àquilo que fez pelos outros – mas não só no acidente. E também por tudo o que conseguiu ao longo da sua vida – e não só para os outros, mas também para si. A firmeza que demonstrou quando a maioria dos homens se sentem pequenos perante a efemeridade da vida é a mesma que está no carácter de uma existência que tem mais para contar do que apenas a do herói de Munique.

Nesse ano de 1958, a equipa do Manchester United conhecida como os Busby Babes regressava a casa de Belgrado e o avião fez uma escala para reabastecimento em Munique. À terceira tentativa de descolagem, o avião não conseguiu ganhar velocidade para descolar e despistou-se para fora da pista. Morreram 23 passageiros em consequência do acidente – companheiros de equipa de Harry Gregg foram oito. Harry Gregg foi um dos 21 sobreviventes. Há mais de 55 anos, tinha ele 26 anos. No domingo faz 81.

No domingo, sim. É no domingo, dia 27. Ainda nesta sexta-feira, a conta do Twitter de Harry Gregg gerida pelo seu neto esclarecia a questão, pois há vários sítios que indicam a data de nascimento a 25 de outubro. Por tudo aquilo dos primeiros parágrafos – e ainda, na altura, também com esta dúvida por esclarecer – tentámos (se fosse caso disso) dar desde logo os parabéns ao aniversariante. O telefone tocou do outro lado, atenderam... E ao nosso «Mister Harry Gregg?» [a partir de agora já traduzido] responderam-nos: «Se não estiver a dever-lhe dinheiro, sou eu.» Demos os parabéns em adiantado, de qualquer forma, e começámos a conversar.

Ao terceiro «Senhor Harry Gregg», responde-nos: «Pare lá com o diabo do Senhor Harry Gregg, que Harry chega perfeitamente». O herói de Munique é este homem que mistura a frontalidade e a doçura de uma maneira que é tão sábia como é natural, que teve uma vida plena, em pleno, a falar da carreira de jogador, a recordar o acidente de avião, a dar entrevistas «há 55, quase 56 anos». E é com esta serenidade contagiante que vive numa pequena localidade no topo da Irlanda do Norte, numa «velha casa de quinta», em Articlave. «Só a duas, três milhas da praia. Mas faz um frio...»

A provocação do costume: Nós em Portugal temos mais sorte.... «Eu já estive em Portugal» - a passar férias? - «Sim, estive – sabe onde? – em Monte Gordo» Mas, quando foi isso? Há poucos anos, 20? «Não! Há muito mais! Lá para os anos 60. Tive de ir até Sevilha e depois atravessei aquele rio, o Guadiana.» «Quer saber qual era o nome da villa onde fiquei?» Claro! «Vila Irina».

Harry não tem sempre o mesmo tom de voz, claro. É sério quando as memórias regressam à infância e à pequena vila onde cresceu e aos miúdos que iam para escola consigo e que «não tinham as mesmas capacidades para jogar» e que lhes permitissem outras ambições. «Eu queria mais. Queria desesperadamente fugir dali e trabalhei. Muito duro.»

Aos 20 anos conseguiu tornar-se profissional e foi para o Doncaster Rovers. Cinco anos depois, em 1957, foi para o Manchester United por 23 mil libras, o mais caro guarda-redes de sempre na altura. O homem brioso que, depois de sofrer uma derrota por 9-0 contra uma equipa da English League, quando tinha 18 anos, esteve «dois dias sem ir trabalhar» no seu ofício de carpinteiro assume que na sua vida houve um período «antes» e um «depois» do Manchester – sem dispensar o que ficou pelo meio.

E é nesse «depois» que Harry mostra ter mais orgulho, quando terminou a carreira de jogador e passou a treinador. «Eu sempre vi jogadores como eu trabalharem muito para serem como eu e esquecerem como ficaram famosos. Esquecerem o que os levou ali. E começarem a pensar em títulos de jornais. Esquecem o que os levou ali.»

Harry é explícito: «Se esquecemos as coisas que nos levam lá – o trabalho e a devoção -, quando começamos a esquecê-las, começamos a descer e a descer.» «Eu tive muitos títulos de jornais como jogador, bons, maus.» E é frontal, também já se disse: «Aquilo de que tenho mais orgulho do que consegui fazer é como treinador, com pessoas que foram afastadas por emblemas grandes – aqueles que são free transfers.

«Eu contei-lhes a mesma história de encantar que eu quis ouvir quando era novo. Eu dizia-lhes que se queremos querer ser os melhores temos de trabalhar para ser os melhores. É a isso que eu dou mais valor. Eu tive muita sorte de ajudar esses jogadores.»

(Foto: Associated Newspapers/Rex Features)

E o acidente? Em que ele salvou várias vidas? Harry recordou o jogo de cartas que fizeram durante a viagem, a «pipa de massa» que ganhou ao póker durante a viagem de Belgrado até Munique, o lugar diferente no avião que escolheu para a outra parte da viagem, agora num tom que é triste, mas não dramático.

E o relato fica mais denso quando já depois de duas descolagens abortadas conta que tiveram de desembarcar e esperar quase dez minutos para voltarem ao avião para uma terceira descolagem. A voz de Harry fica mais grave. «Não estou a fazer de John Wayne. Estou a dizer como foi.»

Sem cansaço dos 55 anos de entrevistas sobre a tragédia de Munique nos seus praticamente 81 anos, Harry conta o que muita vez já contou, o que já muitas vezes se escreveu ou mostrou nos media; como o comissário de bordo Tom Cable (uma das vítimas mortais) «estava aterrorizado» indo sentar-se entre os passageiros, como Johny Berry disse «Vamos todos morrer aqui»...

Como Harry se preparou: «Desapertei a gravata e o cinto. «E vi o Roger e pensei: ele está mais assustado do que eu!» Como o capitão James Thain «disse no último momento que não iam conseguir». Como chegaram a pensar ter descolado, mas, depois houve um grande impacto. Como pensou: «Não vou ver a minha mulher. Não vou ver a minha filha. Não vou ver a minha família.. Estes foram os meus primeiros pensamentos.»

Harry despertou com o sangue a escorrer pela sua cara. «Vi luz, trepei e vi a primeira pessoa morta: Bert Whalley.» Como ouviu os gritos de que o avião praticamente partido em dois ia explodir, como o capitão James Thain lhe disse para fugir quando Harry ouviu o choro de uma criança. Como Harry voltou ao aparelho e resgatou uma criança – Venona – e depois a sua mãe – Vera Lukic – quando o capitão já tinha voltado para levar a criança depois de ele ter gritado «Voltem! Está ali gente viva!»

Como reanimou Matt Busby e lhe disse «Você está bem chefe!», fez um torniquete com a sua gravata no braço partido de Jackie Blanchflower, como agarrou Dennis Viollet e Bobby Charlton pelas calças quando os encontrou do outro lado avião com o corpo meio dentro meio fora. «Eu era um tipo forte», conta também. Conta como já contou muitas vezes, sem se interromper, numa sucessão de momentos que «duraram uma eternidade».

Conta como não houve assistência dos bombeiros no local. Como deixaram o local num Volkswagen e foram para o hospital. Como queriam que ficasse internado e como disse «Não vão pôr-me aqui!». E não ficou. «Levaram-nos para um hotel». Aí cruzou-se outra vez com o capitão. De dentro de um quarto perguntaram-lhes se queria jantar. Harry não acreditou no que ouviu.

Voltou ao hospital com Bill Foulkes a pedido, «para mostrar que não tinha sido tão mau.» «Alguns estavam muito mal [como Duncan Edwards], levaram-nos para junto das pessoas para verem que nem todos tinham morrido.»

«Regressei a Inglaterra e as pessoas perguntaram como fizeste?», continua Harry sem qualquer intervalo. Conta que lhe esconderam os jornais por causa de Duncan que morreu dez dias depois. Conta que teve de sair de casa e voltar a mexer-se, que «se tivesse ficado em casa tinha ficado maluco». «Tive de voltar a jogar, a dar pontapés, a chamar nomes durante o jogo.»

A conversa volta ao futebol. E Harry recorda como já tinha estado em Portugal mais do que uma vez antes daquelas férias. Também antes e depois do acidente de Munique. Em 1957, Harry veio com a seleção da Irlanda do Norte que empatou 1-1 em Lisboa com a seleção portuguesa. Em Belfast, claro que foi também o dono da baliza norte-irlandesa que venceu os portugueses por 3-2. «Eliminámos Portugal e fomos ao Mundial de 1958, na Suécia», recorda aquele que foi eleito o melhor guarda-redes dessa competição.

Recorda também o reencontro com Eusébio, na sua Irlanda do Norte, na Milk Cup, «Aquela pessoa amável, maravilhosa», diz. Mas não é dele que fala mais. Harry defrontou o Benfica em 1965/66 para Taça dos Campeões Europeus. E mais uma vez, saiu ele o vencedor. Não referiu os 3-2 para o Manchester em Inglaterra, mas frisou os 5-1 com que saiu vitorioso da Luz.

As outras lembranças vão para «Torres», Germano e «Coluna», aquele que considera «o melhor daquela equipa». Foram os aperitivos antes de a sua alegria em conversar disparar a próxima surpresa: «Sabe o que é que eu tenho aqui no corredor, sabe? A camisola do Costa Pereira, emoldurada. Isso é o que está no meu corredor.»

Harry confessa-se em fim de conversa. «Digo-lhe uma coisa, que sinto desde que estive em Monte Gordo: os portugueses são do mais amável que há. Digo-o sem paternalismos. Não é o meu género.» E como é o seu género, no final disto tudo. «Sou só um ser humano.»