A 12.ª jornada da Liga deixou mais um rasto de imprevisibilidade e um sinal de aviso particularmente forte para o Benfica. Enquanto FC Porto e Sporting parecem confortáveis, consistentes e prontos para remar até ao fim, o Benfica é aquele que mais claramente está a remar contra a corrente.

As águias mostraram carácter no triunfo em casa do Nacional. A reviravolta foi magistral. Os golos de Prestianni aos 89m e Pavlidis aos 90+5m permitiram ao Benfica vencer 1-2. Mas é precisamente esse suor de cada jornada que revela a fragilidade incómoda da equipa. Não basta ganhar. Convém fazê-lo com firmeza, consistência e sem depender de arrancadas nos instantes finais. Até agora, o Benfica tem dependido demasiado desses rasgos de “inspiração tardia” para somar pontos.

Enquanto isso, o FC Porto continua a avançar com solidez. A defesa e o ataque trabalham com consistência, o que projecta os dragões como favoritos naturais, especialmente com a sua presença forte nas provas europeias. O Sporting, por seu lado, surge apontado como o favorito ao título pelo mais recente estudo divulgado pelo Observatório do Futebol.

E aqui chegamos a um ponto sensível. Talvez o mais decisivo desta fase. Para o Benfica dar a volta por cima, não basta entrega. É preciso que Mourinho consiga, finalmente, transformar a equipa numa máquina oleada, capaz de dominar jogos sem recorrer a reviravoltas dramáticas nos minutos finais. Se isso não acontecer, o que para muitos é ainda “apenas uma fase mais difícil”, poderá vir a converter-se num problema estrutural.

A perspetiva financeira e económica é algo que muitos adeptos ignoram, mas que pesa fortemente nas decisões de longo prazo. Cada ponto conquistado, cada presença nas competições europeias e cada lugar entregue no campeonato conta para as contas da SAD do Benfica. O sucesso desportivo traduz-se em receitas de TV, prémios europeus, bilheteira e patrocínios. Um Benfica instável desportivamente arrisca não só o título. Arrisca também o equilíbrio orçamental. Por isso, a tendência de depender de golos tardios deve preocupar quem olha para o clube como “empresa de resultados”.

É certo que o Benfica conta com um histórico europeu favorável, ocupando uma posição privilegiada no ranking da UEFA, fruto de várias presenças consecutivas na Liga dos Campeões e Liga Europa. Mas a consistência do ranking não substitui resultados imediatos. Se o desempenho na Liga não estabilizar, esse capital europeu poderá perder valor de mercado.

Portanto, ao invés de olhar só para os golos tardios e para a “personalidade de campeão”, convém que Rui Costa e Mourinho se interroguem: será que estamos a construir algo sustentável, ou apenas a adiar a inevitabilidade de um desastre? Se o funcionamento colectivo falhar, os rivais estarão preparados para aproveitar a fragilidade.

A esta altura do campeonato, o Benfica precisa de algo mais do que coração e fé. Precisa de estrutura, de clareza tática e de regularidade. Só assim poderá inverter a tendência atual. Caso contrário, o título (e as contas para 2026) podem estar a caminhar para longe da Luz.

João Rodrigues dos Santos, Professor de Economia do Desporto e Coordenador Científico da área de Economia e Gestão da Universidade Europeia.