Estranhas as circunstâncias que rodeiam este jogo entre Ajax e Benfica, dois históricos do futebol europeu. Para começar, a evidência mais surpreendente: têm os dois zero pontos ao fim de quatro jornadas na Champions e partilham o último lugar de uma tabela com 36 clubes. Cenário inesperado se atentarmos ao pedigree dos dois. O Ajax é um dos clubes com melhor currículo internacional (11 títulos em 14 finais) e um dos poucos que se sagrou campeão europeu tanto no modelo inicial (fez um tri na década de setenta sob o comando de dois geniais Johan’s, o Cruyff e o Neskeens) como no modelo actual (Viena-1995, com a geração «KK» - Kanu e Kluivert , a tombar o envelhecido Milan de Fabio Capello).

O Benfica (com 2 títulos em 12 finais internacionais) deve a sua aura às duas vitórias seguidas na Taça dos Campeões Europeus de 1961 e 1962 e aos memoráveis duelos que essa equipa mítica de Eusébio, Coluna, Simões, Germano, José Augusto, Santana, Costa Pereira, etc, etc) travou ao longo dessa década com outros pesos pesados – o Ajax de Cruyff foi precisamente um deles.

Ambos em crise de resultados, ambos a jogar poucochinho, ambos à procura de amanhãs mais radiosos, Ajax e Benfica medem forças (ou fraquezas?) na Arena a que o maior génio do futebol neerlandês deu nome. É difícil prever o que pode acontecer. Algures lá em cima, Johannes Cruyff e Eusébio da Silva Ferreira estarão certamente a sofrer com aquilo que têm visto cá por baixo. O Ajax, ainda à procura de treinador (John Heitinga foi despedido há três semanas) e director-desportivo (Alex Kroes também foi despedido por ter achado que Heitinga era um bom substituto para Farioli), vem de perder em casa com o recém-promovido Excelsior (1-2) ao cabo de mais uma actuação desastrosa. Nada que tire o optimismo ao treinador interino Fred Grim, um antigo guarda-redes do clube que foi seleccionador nacional nos sub-21. Ele disse confiar que o Ajax vai mostrar outra face no duelo com o Benfica, mas quando se atenta no desempenho global de Grim como treinador (127 derrotas em 251 jogos e apenas 81 triunfos) todas as dúvidas parecem legitimas.

O pior é que os adeptos do Benfica também não têm grandes motivos para confiarem numa equipa que, com Mourinho, ainda não conseguiu fazer qualquer golo na Champions. Fez um bom jogo em Londres mas ficou a zero com o Chelsea (0-1); fez um mau jogo e ficou a zero em Newcastle (0-3); foi incompetente na finalização e a zero ficou na Luz com o Leverkusen (0-1). Tudo espremido: zero. Pontos e golos. Parece evidente que o Benfica tem mais qualidade individual e mais opções que o Ajax, mas isso não é garantia de nada tendo em conta as dificuldades que a equipa tem sentido para se impor perante adversários domésticos mais modestos. O zero ao intervalo com o Atlético foi apenas o reflexo de uma equipa insegura e hesitante, sem dinâmicas e movimentações interiorizadas.   

Isto sem falar da guerra que Mourinho acaba de declarar publicamente aos jogadores do Benfica que não sigam a cartilha dele. As declarações duras e incisivas (sobretudo: reveladoras de decepção), no final do jogo com o Atlético só podem ser vistas dessa maneira e devem ter deixado Rui Costa à beira de um ataque de nervos. Já não lhe bastava a equipa jogar tão pouco ao fim de 13 jogos e agora o treinador opta por um discurso claramente disruptivo (mais próprio de alguém em fim de ciclo), quando talvez se esperasse, neste momento, uma tónica mais agregadora, mais positiva, e certamente menos acusatória, menos … amargurada.

Com seis derrotas seguidas na Champions (às quatro desta época somam-se as duas sofridas com o Barcelona nos oitavos-de-final da época passada), o Benfica só tem hipótese de voltar à luta pelo apuramento se vencer em Amesterdão. Um empate selará a eliminação, embora salvando um ponto (um penoso mal menor para quem investiu largos milhões). Para Mourinho, que, ao contrário do Benfica, tem um currículo admirável na Champions League - dois títulos e oito (!) presenças em meias-finais -, a sequência actual é igualmente desastrosa: leva seis derrotas seguidas (três com o Benfica, mais três da última participação com o Tottenham), sendo que as últimas cinco foram a zero. Também ele começa a estar sob pressão.

Os adeptos benfiquistas têm sido tolerantes, dado o estatuto de Mourinho e a expectativa que lhes foi criada com a chegada dele, mas nesta altura creio ser justo dizer que  se esperava mais do treinador que encantou milhões de portugueses no inicio deste século. O tempo corre. Para todos.