«Não me convidem mais para cenas destas».

Foi assim que Luís Filipe Vieira, agora oficialmente candidato à presidência do Benfica, finalizou a conturbada entrevista de quase duas horas na TVI e CNN Portugal.

Ser confrontado por jornalistas (Sandra Felgueiras e Joaquim Sousa Martins), com fatos e argumentos, realmente incomoda, sobretudo quando se está acostumado a conversas controladas e perguntas previamente combinadas.

Começou por referir que «deixou o Benfica», como se nada tivesse acontecido. Nem sequer ficou com o rosto corado. Esqueceu-se naturalmente das investigações e acusações do Ministério Público, da detenção nos calabouços da PSP e ainda da prisão domiciliar.

«Não sei bem até hoje porque paguei a caução de três milhões de euros», destacou.

Há quem fique revoltado e tente recuperar até mesmo aquela moedinha de um euro que geralmente as máquinas de lavar roupa avariadas engolem. Outros, por exemplo, vivem normalmente mesmo tendo «perdido» milhões. É a vida.

Disparou diversas vezes contra Rui Costa, com quem trabalhou lado a lado por mais de dez anos. Seguiu a linha do também opositor João Noronha Lopes, cuja principal bandeira é dizer que a atual administração não tem gestão e projetos.

Não apresentou projetos sólidos, a não ser quando avisou que vai buscar o penta. Deixou (praticamente) tudo para depois. Fortaleceu, então, a (minha) ideia de que estava sentado ali como ex-presidente, não como candidato. E ficou incomodado por isso. Por favor!

Fugiu de perguntas básicas e necessárias. Preferiu atirar acusações levianas e insinuações. Sempre que pressionado a explicar, como pede o manual do bom jornalismo, optou pelo «me disseram», «me falaram» e «ouvi dizer».

Sim, falou-se pouco do Benfica. Compreende-se. Luís Filipe Vieira não é o Benfica. É um ex-presidente, com muitos erros e acertos, e que essencialmente tem uma imagem altamente controversa. Os sócios encarnados precisam saber em quem vão (ou não) votar, oras.

Voltou a atacar duramente Pedro Proença, hoje presidente da FPF, a quem ajudou a ser reeleito na Liga em 2019. Poderia tranquilamente ter falado em arrependimento. Felizmente, mudamos de opinião ao longo do tempo. Faz parte.

«Votei nele para deixar o barco passar», optou como sábia resposta.

Na segunda mesa, com a presença de comentaristas, também pisou em ovos para justificar o injustificável, especialmente quando Luís Vilar elencou os mais de 40 jogadores que foram contratados, não tiveram minutos na equipe principal e acabaram por sair (muitos por empréstimo).

«Se calhar, fiz isso para ajudar os outros clubes», disparou, depois da insistência no delicado assunto.

Indisposto com a chuva de indagações, protagonizou um encerramento de puro egocentrismo. Se houvesse mais tempo, Vieira e Rui Santos mais um pouco acabariam por discutir quem é o dono do melhor bronzeado. Uma discussão de baixo nível. De ambos os lados, justiça seja feita.

Em meados de 2021, o mesmo Luís Filipe Vieira enfatizou que «há democracia a mais» no Benfica. Uma afronta pronunciada em alto e bom tom. Se calhar acontece o mesmo na TVI e CNN Portugal...

*Bruno Andrade escreve a sua opinião em português do Brasil