PLAY é um espaço de partilha, sugestão e crítica. O futebol espelhado no cinema, na música, na literatura. Outros mundos, o mesmo ponto de partida. Ideias soltas, filmes e livros que foram perdendo a vez na fila de espera. PLAY.

SLOW MOTION:

«EUSÉBIO – A História de Uma Lenda» - de Filipe Ascensão

5 de janeiro, 2014, oito horas e 40 minutos de uma manhã fria, o Maisfutebol escreve uma das manchetes mais duras da sua história: «Morreu Eusébio».

O tempo, todos o sabemos, passa demasiado depressa. A correr. E já lá vão três anos sem a presença reconfortante do Pantera Negra.

Por mera coincidência, nesse horrível domingo, e ainda antes de ter conhecimento do falecimento de um dos maiores futebolistas de todos os tempos, acordei bem cedo e desloquei-me para os estúdios da TVI.

Preparei-me, na véspera, para fazer um breve comentário à jornada da Liga. Em direto.

Mal entro nas instalações da Media Capital, um colega que fazia a vigilância do espaço metralhou-me com a novidade: «Já sabes? Morreu o grande Eusébio.»

Fiquei duplamente atrapalhado. Pela notícia e pela responsabilidade de, dali a minutos, ter de falar para todo o país sobre o senhor Eusébio. Sem nunca ter tido o privilégio de com ele privar.

Como salvar esse direto televisivo? Contando o que vi de Eusébio no Euro2012.

Um ano e meio antes de falecer, o senhor Eusébio esteve com a seleção na Polónia e Ucrânia, ao mesmo tempo que eu informava os leitores do Maisfutebol. Cruzámo-nos um par de vezes. Vi-o bastante doente.

Não me esqueço da dificuldade com que caminhava e respirava nos bastidores do jogo de Portugal em Kharkiv, leste da Ucrânia. Uma semana depois, já com Portugal qualificado para as meias-finais, Eusébio teve uma forte indisposição e foi hospitalizado em Poznan.

Tememos o pior. Passei longas horas à porta do Hospital Józefa Strusia, em constante comunicação com a redação, e o ambiente era de profunda consternação. Dali a três dias, Portugal jogava contra a Espanha. Eusébio merecia ver esse jogo. Recuperou e viu-o.

Senti, nessas horas de dúvida, o peso histórico desta lenda. A angústia de um país. Tive, finalmente, consciência das façanhas tantas vezes relatadas pelo meu pai. Um monstro, um futebolista de exceção, uma força da natureza.

Este documentário sobre o senhor Eusébio ajudará outros a sentirem o mesmo que eu senti. O realizador não caiu na tentação de beatificar o ser humano – o que seria um erro primário - e centrou-se naquilo em que Eusébio era realmente uma santidade: no futebol.

PS: «T2 - Trainspotting» – de Danny Boyle

«Choose life!». 20 anos depois, Boyle reune o elenco original do icónico Trainspotting e volta a percorrer os becos mais imundos de Edimburgo. Renton, Begbie, Sick Boy e Spud, duas décadas mais velhos mas nem por isso mais ajuizados.

Há Iggy Pop, há Orbital, mas será que há sanitas putrefactas? É ver, senhores. Uma reunião triunfante.

SOUNDCHECK

«Eusébio no Deserto» - de Filho da Mãe

O tributo do músico Rui Carvalho, vulgo Filho da Mãe, coloca Eusébio na pele de um cowboy, provavelmente perdido num deserto.

A composição é instrumental e inspirou Carvalho a transportar o génio de Eusébio para este jogo com as cordas de uma guitarra acústica.

Uma escolha obrigatória nesta semana.

PS: «Spirit» - dos Depeche Mode

Andy Fletcher, Martin Gore e Dave Gahan, tudo meninos na casa dos 50, chegam ao 14º álbum da carreira – uma carreira de quase 40 anos! – em grande forma.

Não é o melhor disco dos Depeche Mode, mas é um trabalho de grande nível, cheio de canções intensas e aquela eletrónica pesada, compatível com guitarras e bateria, à solta.

Vale a pena ouvir esta versão LIVE do primeiro single:

«PLAY» é um espaço de opinião/sugestão do jornalista Pedro Jorge da Cunha. Pode indicar-lhe outros filmes, músicas e/ou livros através do e-mail pcunha@mediacapital.pt. Siga-o no Twitter.