PLAY é um espaço semanal de partilha, sugestão e crítica. O futebol espelhado no cinema, na música, na literatura. Outros mundos, o mesmo ponto de partida. Ideias soltas, filmes e livros que foram perdendo a vez na fila de espera. PLAY.

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«NINGUÉM PÁRA O BENFICA» - de Sérgio Pereira.

Um dos meus bons amigos no secundário era o Pica. Grande benfiquista, doido. Despertava remeloso, mas já a pensar na melhor forma de ganhar no domingo.

Passava o dia a imitar o Kurt Cobain – outra tara do rapaz – e quando ficava rouco sentava-se a desenhar uns sarrabiscos em papéis mal amanhados. Depois, chamava-nos aos berros.

«É assim, pá, 4x2x4, muitos gajos na frente. Comigo eles corriam, davam tudo. Cumé que um gordo como o Michael Thomas joga no meu Benfica? Precisamos de um treinador que berre, que lhes dê cabo da tola».

Ligeiramente estrábico, o Pica não sabia dar um chuto numa bola mas, quero ser justo, era um benfiquista fantástico. Doente, sabia tudo sobre a parte teórica do jogo e tinha um sentido de humor notável.

À noite, não raras vezes, ligava para casa da malta, só para falar de futebol. E desabafar, claro, desabafar muito, até porque o Benfica dos 90’s não era propriamente uma máquina trituradora.

O Pica adormecia a recordar os feitos de Eusébio e Coluna, a olhar os posters colados na parede. Sonhava com as equipas montadas por Eriksson, despertava remeloso… e o ciclo repetia-se.

Lembrei-me do Pica porque tenho a certeza de que vai adorar este livro.  

O meu colega Sérgio Pereira, com a sua habilidade natural em jogar com as palavras, volta a lançar sorrisos e a acionar o mecanismo de defesa das áreas mais sisudas do nosso cérebro.

O Sérgio é um cientista da gramática, um alquimista da sintaxe, e só ele podia escrever desta forma sobre o bicampeonato do Benfica: 2013-2015.

Sempre num tom leve mas, paradoxalmente, apoiado num rigor que faz corar de inveja algumas personagens que se auto-intitulam enciclopédias do futebol.

Faça como o Pica, não vá ao engano. Este é um livro de celebração benfiquista, como explica o autor.

«Se por um acaso terrivelmente infeliz pegou neste livro e não é adepto do Benfica, devolva-o à prateleira. Vai ler coisas que não quer, descobrir piadas que não o vão fazer rir e recordar histórias que não o deixam feliz. Vai ficar com azia e depois quem tem que o aturar sou eu: o autor.»

«Um livro para ler, guardar e visitar sempre que lhe apeteça:

como quem visita um álbum de fotografias de um tempo bem passado

ou uma conversa à mesa sobre as memórias de uma infância feliz. É um

livro de bem com a vida, no fundo».

Um livro escrito de por um jornalista atento aos detalhes, para benfiquistas mais ou menos fanáticos. Uma viagem bem colorida e com muitas paragens obrigatórias. Caro Pica, se estás a ler isto, não hesites: já está à venda e vai ficar muito bem em tua casa.

O prefácio é assinado por Pedro Ribeiro, diretor da Rádio Comercial e comentador do programa Maisfutebol, na TVI24.   

SLOW MOTION:

«EUSÉBIO: A PANTERA NEGRA»

Em 1973 a personagem de Eusébio já justificava a realização de um documentário. Um produto simples, até ingénuo, mas extremamente honesto na forma como é capaz de contar o trajeto do King. As imagens (reais) de um final da Taça de Portugal contra o Sporting são incríveis.  

Falecido em janeiro de 2014, o histórico avançado já não pôde celebrar em vida o bicampeonato garantido pelo plantel treinado por Jorge Jesus. E merecia, como merecia.  

Vale sempre a pena recordar Eusébio.

 

PS: «Wayward Pines» - de Chad Hodge.

Ethan Burke (Matt Dillon) sofre um grave acidente de viação e desperta em Wayward Pines, Idaho. Burke é agente dos Serviços Secretos e procura localizar dois colegas, desaparecidos há meses. 

Logo no primeiro episódio se percebe que Ethan Burke não está numa cidade comum. A paranóia, a conspiração, os segredos por revelar tomam conta da trama e exigem respostas.

Há uma enfermeira cruel, um psiquiatra enigmático, um empregado de hotel irritante e um xerife viciado em gelado e em violência.

SOUNDCHECK:

«BENFICA» - de Panda Bear.

Noah Lennox é um dos fundadores dos Animal Collective. Já ouviram falar? Pensem nos Beach Boys, mas adicionem uma dose generosa de psicadelismo freak.

O nome artístico deste norte-americano, de Baltimore, é Panda Bear. O que o levou a escrever uma música chamada Benfica?

Noah apaixonou-se por uma portuguesa, vive na zona de Lisboa e criou uma simpatia especial pelo clube da Luz. Em 2011 fez questão de introduzir esta composição no álbum Tomboy. É a última faixa do álbum.

«Some might say that

To win's not all that it's about

It's just not something to say

But there is nothing more true

Or natural than wanting to win»

PS: «Kintsugi» - dos Death Cab for Cutie.

O concerto no Primavera Sound, no idílico Parque da Cidade, no Porto, confirmou os méritos do novo álbum deste trio de Washington. Depois da saída do fundador Chris Walla, Ben Gibbard assume a liderança da banda e controla todos os momentos em cima do palco.

O som continua complexo, mas sempre com lugar para a doçura e o desabar sentimental. Há muitas músicas recomendáveis, deixo-vos com esta Little Wanderer

  

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«PLAY» é um espaço de opinião/sugestão do jornalista Pedro Jorge da Cunha. Pode indicar-lhe outros filmes, músicas e/ou livros através do e-mail pcunha@mediacapital.pt. Siga-o no Twitter.