É PRECISO recuar 16 anos, ao FC Porto-Chaves, para encontrar uma final de Taça no Jamor teoricamente tão desequilibrada como parece ser o Sporting-Torreense. O motivo é simples. Há um escalão a separar os dois finalistas. E um fosso de vários milhões entre o valor de mercado dos dois plantéis. Em maio de 2010, o Chaves, treinado por Manuel Tulipa, competia na II.ª divisão. O FC Porto, liderado por Jesualdo Ferreira, tinha acabado de perder o tetra campeonato para o Benfica de Jorge Jesus. Apoiado por milhares de adeptos ruidosos, o «outsider» transmontano ofereceu boa réplica, mas ainda assim insuficiente para contrariar o favoritismo portista. No final, 2-1 para o FCP com a naturalidade das coisas inevitáveis. Prevaleceu a lei do mais forte. Dezasseis anos volvidos, o Torreense de Luís Tralhão é a sétima equipa da história a tentar o feito de vencer a Taça de Portugal estando numa divisão secundária (no caso, a Liga 2).

O Sporting quer naturalmente bisar a conquista da época passada e desta vez contará, entre os seus apoiantes (ainda que não assumidos), uma larga franja de adeptos benfiquistas (!!!), sabedores que um triunfo leonino no Jamor poupará à equipa encarnada a infame maratona de seis jogos de qualificação para a próxima Liga Europa. Ou seja, o Torreense sabe que terá a «torcer» contra ele, por uma vez – esta! - milhões de sportinguistas e benfiquistas. Os dois maiores rivais clubísticos irmanados no mesmo desejo. As voltas que a vida dá, não é verdade?…

O sonho anima o Torreense que, como é público, se encontra também a lutar pela subida de divisão (0-0 com o Casa Pia na primeira parte do duelo). Jamor pede história e nunca o feito maior foi assinado por alguém não pertencente à elite. Será desta?

Uma coisa é factual: os seis anteriores finalistas secundários morreram todos na praia. Todos. Lembremo-los. Antes do Chaves, tinham perdido o Leixões de Carlos Carvalhal (única equipa da III.ª divisão a chegar ao Jamor), derrotado pelo Sporting de Boloni em 2002; o Farense de Paco Fortes em 1990 (1-1 e 0-2 com o Estrela da Amadora de João Alves); o V. Setúbal de Fernando Vaz em 1962 (0-3 com o Benfica de Fernando Caiado) ; o Estoril Praia de Augusto Silva (0-8 com o Benfica de Janos Biri em 1944); e o V. Setúbal de Armando Martins (1-5 com o Benfica de Janos Biri).

Então é missão impossível para o Torreense? Não. Se o treinador Luis Tralhão (que substituiu Vitor Martins, autor da maior proeza da equipa na prova, a eliminação do Casa Pia nos oitavos-de-final), se quiser dar ao trabalho de percorrer o currículo do colega italiano Claudio Ranieri, encontrará aí a prova de que não há impossíveis no futebol - mesmo no mais competitivo do Mundo. Ou seja, se uma equipa tão meio-da-tabela como o Leicester foi capaz de vencer em 2016 uma maratona como a Premier League em compita com adversários muito superiores, então o Torreense tem todo o direito de pensar que é possível derrotar um adversário teoricamente muito superior no espaço de 90 (ou 120) minutos (já agora: no ano do milagre do Leicester aconteceu outro envolvendo portugueses…).

É essa, aliás, uma das razões da magia desta prova. O culto do tomba-gigante. O David que, por uma vez, deixa o Golia por terra.

Será desta?

Olhando para as forças em parada. Por muito que se elogie a campanha do Torreense e os feitos dos heróis locais - Manuel Pozo, Dany Jean, Musa Drammeh, Javi Vásquez, Stopira, Ali-Diadé e Kevin Zohl, entre outros – é muito difícil acreditar que o Sporting desperdice a oportunidade de terminar a época em festa. Afinal, estamos a falar do segundo título mais importante e o Sporting não ganhou nenhum.

Em suma: será preciso conjugarem-se, simultaneamente, vários fatores não muito expectáveis para a festa final não ser verde e branca.

Como em 2016, certo? O ano do Leicester e de outros campeões inesperados.