Se há coisas de que as síndromes não se podem queixar é de falta de padrinhos.
Tivessem vocês as extremidades do corpo azuladas e sofreriam de Raynaud. Fossem acometidos de vertigens ou desmaios ao contemplarem obras de arte e sofreriam de Stendhal. Sendo avessos a um bom banho Diógenes será o nome do vosso mal. Caso simpatizem com o vosso sequestrador a bússola gira para Estocolmo.
Aqui, porém, o risco vem de Copenhaga.
Froholdt é um excelente nome para uma síndrome, convenhamos. E também uma boa forma de resumir uma condição clínica muito comum aos adeptos dos campeonatos periféricos.
Ah, esses desafortunados que ciclicamente vivem o drama de nunca poderem desfrutar de forma despreocupada dos talentos que lhes aparecem à frente dos olhos!
Ao primeiro vislumbre, já havia dragões com um aperto no coração e um suspiro conformado: «Este não vai ficar por cá muito tempo...»
Ao segundo jogo pelo FC Porto deste imberbe dinamarquês de 19 anos, já lia num fórum o alerta: «Temos de pôr a equipa de scouts a procurar um substituto.»
Um adepto do Real Madrid sabe lá o que isso é!
Por cá, porém, não há quem estranhe esta preocupação generalizada que se segue ao deleite de ver um craque a florescer no relvado.
Sintomas: prazer momentâneo, seguido de ansiedade e um permanente estado de alerta… Nem seria preciso ver este viking com ar de aluno Erasmus correr desalmadamente em Arouca, ao minuto 90, com a equipa a jogar com menos um e a golear por 4-0, para perceber a máquina que ali está.
Aos aplausos, orgânicos, seguiram-se novas doses de preocupação dos adeptos: «Não te canses»; «Cuidado para não te lesionares»; «Tem calma, que estás a mostrar demasiado».
Por agora, são os portistas a sofrerem de palpitações ao verem um médio alto e loiro que enche o campo. Mas foi assim também com os rivais: às primeiras cavalgadas de Gyökeres, aos precoces sinais de madureza de João Neves... Será assim com Quenda, tal como quase foi com Rodrigo Mora.
Não há sensação de soberba nos três grandes que suplante este conformismo dos adeptos, cientes do destino que o futebol-negócio tem reservado para os melhores que por cá despontam.
«Este é demasiado bom para jogar no nosso campeonato», murmuram, na esperança de que os tubarões não tenham ouvidos.
«Síndrome de Froholdt»: esse é um dos nossos dramas. Bem mais grave do que qualquer virose de circunstância.
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«A Vírgula» é um espaço de crónica da autoria do jornalista Sérgio Pires.