«4x4x3» é um espaço de análise técnico-tática do jornalista Nuno Travassos. Siga-o no Twitter.         

 

«Sou um crente, sou um homem que acredita em milagres, mas também em que é preciso que alguém faça alguma coisa para que aconteçam. Faz-me lembrar aquela história do homem que se queixava a Deus por nunca ganhar o totoloto, e Ele teve de intervir, dizendo-lhe que seria importante que ele fizesse alguma coisa por isso e que, pelo menos, registasse o boletim.»

 

A declaração de Fernando Santos, a três dias da conquista do título europeu, ilustra uma campanha em que a felicidade acompanhou o mérito mas não o ocultou. Não há campeões sem brilho, seja a trinta jornadas ou em sete jogos, por mais que a prestação lusa no Euro2016 tenha conciliado momentos sofríveis com apontamentos épicos.

Se na organização defensiva esteve a base da vitória – algo absolutamente legítimo -, em vários jogos a Seleção fez pouco com bola, tanto em ataque organizado como em transição. Sobretudo na fase de grupos, onde a margem de erro era maior, por força de um modelo competitivo que podia desinibir as equipas, mas que funcionou em sentido oposto com a grande maioria (e não apenas com Portugal).

O que estava em discussão não era tanto a estratégia delineada por Fernando Santos desde o primeiro dia, nem tão pouco a percentagem de posse de bola, mas sim a incapacidade revelada pela equipa no momento ofensivo, em várias etapas da competição. E apontar isto (de forma construtiva) é tão razoável quanto o oposto, quando não estamos a falar de uma ciência exata. Até porque no futebol não se pode olhar apenas para o resultado e ignorar a forma, pois estaríamos a tirar ao jogo um conjunto de emoções para viver e um conjunto de circunstâncias para analisar. Nesse cenário utópico os adeptos ficariam em casa à espera do resultado final para então festejar ou reclamar, e os jornalistas elogiariam quem ganhou e apontariam sempre o dedo a quem perdeu.

Mas nada disto significa que o título tenha sido obra do acaso, até porque esta caminhada teve mais do que as hesitações frente à Islândia, a apatia da primeira parte com a Áustria ou a intranquilidade das contas com a Hungria.

Esta caminhada teve o «bis» de Jordão em Marselha. Teve o míssil de Figo, o cabeceamento inesquecível de João Pinto e a subtileza de Nuno Gomes na épica reviravolta com a Inglaterra. Teve a fezada de Ricardo a defender o penálti sem luvas, antes de bater David James dos onze metros. Teve Ronaldo a bater no peito com um «bis» que deixou a Holanda pelo chão.

Este título é de uma equipa que vai de Bento a Damas. De Vítor Baía a Quim. De Ricardo a Postiga. De Eduardo a Beto. De Rui Patrício a Adrien. De Fernando Cabrita a Fernando Santos, entre tantos outros nomes.

Este título foi conquistado diante da França, e em Paris. Com o melhor jogador remetido ao papel forçado de adjunto, na final, e com o golo da vitória assinado pelo nome mais discutido da convocatória. Este título foi épico, mas também muito merecido. O boletim foi registado e Portugal ganhou o Euro(milhões), com juros de 32 anos.

Que a euforia da conquista não passe a ideia de que esta é a única chave vencedora. E que o prémio seja investido de forma a que o sucesso do futebol português, que se pode medir de muitas formas, seja cada vez mais frequente.