O protótipo de futebolista-automatizado não entra nestas linhas. Pablo Aimar fala de forma diferente, pensa de forma diferente. É diferente. Assume o estatuto de privilégio, fala dos colegas mais cultos e inteligentes, fala da vida e da condição do número dez no futebol moderno. Tudo para ler nesta entrevista exclusiva ao Maisfutebol.

Há espaço no futebol moderno para o número dez puro? Um dez como Aimar?

«Tem de haver. O Barcelona joga com três números dez, no mínimo. Iniesta, Xavi e Messi são verdadeiros números dez, adaptados a funções diferentes. São jogadores que em qualquer outra equipa do mundo seriam um puro dez. Sabem, muito claramente, o que têm de fazer com e sem a bola. Inteligentíssimos».

Os adeptos olham para o Pablo e identificam-no como um jogador inteligente. A questão é: teve algum colega de equipa que considere ainda mais inteligente?

«(risos) Dentro das quatro linhas encontrei muitos ao longo da minha carreira. Alguns até sem grandes condições físicas, mas com uma capacidade inata para perceber o jogo. Fora de campo, Santiago Solari [ex-Real Madrid]. É um bom amigo, um homem culto. Mas outros também. O Juan Pablo Sorín (Barcelona, PSG, Cruzeiro), o Roberto Ayala (Nápoles, Milan, Valência) e o Maurício Pellegrino (Barcelona, Valência, Liverpool) são pessoas muito capazes e inteligentes.

Acha que se exagera na relevância concedida aos futebolistas profissionais?

«Com tanta informação e meios de comunicação dá-se mais importância a coisas que, quiçá, não a merecem. Mas não podemos mudar o mundo. Os clubes e os jogadores dão alegrias e tristezas ao povo, mas não creio que os possamos comparar a quem salva vidas, como um médico».

Explique-nos de que forma um futebolista de alto nível, bem remunerado, olha para situações como a alta taxa de desemprego ou a crise financeira.

«Tudo depende de cada um. Somos diferentes, não é justo generalizar. Numa situação dramática como a atual, quase todos temos um familiar ou um amigo em dificuldades. Na Argentina acontece o mesmo que em Portugal. Eu, pessoalmente, tento ajudar as pessoas que me são próximas e até outras menos próximas».

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«O problema é que vivemos [futebolistas] num mundo irreal. Nós ganhámos um dinheiro que não é normal e sabemos isso. Temos essa consciência. Pelo menos eu tenho».