O Papa Francisco tinha uma ligação antiga e emocional ao futebol. Desde jovem assistia aos jogos do San Lorenzo de Almagro, com o pai e o irmão, no estádio Gasómetro, numa tradição familiar que partilhava a paixão popular pelo clube de Buenos Aires, que tinha sido fundado por padres salesianos.
Eram dias de festa para a criança que haveria de se tornar no Papa Francisco, que apoiava fervorosamente o clube e no fim, independentemente do resultado, seguia com o pai e o irmão para comer uma pizza com molho picante cozida na pedra.
Mais tarde, essa ligação manteve-se para a vida. Ainda como bispo auxiliar de Buenos Aires, na altura conhecido como Jorge Bergoglio, o Papa costumava acompanhar no estádio os jogos da equipa. Dizia que o futebol é uma escola de vida.
Durante o centenário do San Lorenzo, por exemplo, o então cardeal Bergoglio celebrou uma missa especial, em memória dos jogadores e dirigentes do clube já falecidos. Nessa cerimónia, sublinhou o valor do futebol como espaço de fraternidade, esforço coletivo e união.
Mesmo depois de subir ao trono de São Pedro, em março de 2013, a paixão não foi esquecida. O clube fez questão de lhe oferecer uma camisola personalizada e o seu cartão de sócio vitalício, que o Papa aceitou com visível alegria.
O Vaticano confirmou, na altura, que o Sumo Pontífice continuava a acompanhar os resultados da equipa sempre que possível, e que não raramente comentava os jogos com quem o visitava.
Na autobiografia publicada em janeiro, o Papa Francisco dedica um capítulo ao futebol, aborda as suas raízes italianas e recorda a relação entre os imigrantes italianos de Buenos Aires e a equipa do Torino, na altura de infância de Jorge Bergoglio uma das mais fortes do mundo. A morte de toda a equipa, em 1949, num acidente de avião, marcou-o profundamente.
Tornou-se adepto do San Lorenzo por influência familiar e por paixão de criança, ele que cresceu a ver as bandeiras com as cores do clube espalhadas pelas janelas do bairro onde vivia.
«Como futebolista deixava muito a desejar, como adepto era indiscutível», escreveu o Papa Francisco, para acrescentar o quanto se sentia feliz quando corria atrás de uma bola.
«Milhões e milhões de meninos e meninas de todo o mundo imaginam que jogavam à bola. Um grande escritor latino-americano, Eduardo Galeno, conta que uma jornalista perguntou à teóloga protestante Dorothee Solle como explicaria a uma criança o que é a felicidade? 'Não lhe explicaria. Dar-lhe-ia uma bola para que jogasse', respondeu a teóloga»
Em diversas ocasiões, de resto, o Papa Francisco recorreu ao futebol como metáfora para temas mais profundos.
Falou da importância do jogo limpo na sociedade, da necessidade de espírito de equipa no mundo e até da fé como um desporto de grupo. Durante encontros com jovens, tem lembrado que, tal como no futebol, também na vida há derrotas, quedas e momentos difíceis. «O essencial é nunca jogar sozinho», referiu.
Enquanto Sumo Pontífice, recebeu visitas e camisolas de vários clubes, de Maradona a Ronaldo, do San Lorenzo à seleção argentina. Em junho de 2024, recebeu a visita de uma equipa croata e aproveitou para passar uma mensagem de humanismo a todos os jogadores, pedindo-lhes que olhassem para os adeptos, sobretudo para as crianças, que se espelham neles como ídolos.
«Disso sou testemunha, disse Francisco, que venho de um país onde tudo isso é vivido ao máximo», recordou.
O clube português mais recentemente recebido por Francisco foi o Benfica, quando celebrava os 120 anos do clube. Rui Costa acabou por oferecer uma camisola das águias ao Papa.
Francisco representou assim uma ponte entre a fé e a cultura popular. Manteve viva uma paixão que humanizou o cargo papal e o aproximou de milhões de fiéis que, como ele, também vibram com o futebol.