O duelo entre Portugal e Inglaterra no Euro 2004 costuma ser recordado (e muito bem!) pela imagem de Ricardo sem luvas, a defender e a marcar o penálti decisivo. Mas, por vezes, as histórias mais bonitas do futebol vivem um pouco à sombra dos grandes heróis. E nessa noite, em Lisboa, houve outro protagonista silencioso. Hélder Postiga. E parece que foi ontem, em casa dos meus avós, que assisti a esse jogo. Lembro-me muito bem da tensão que se vivia lá em casa. A família juntava-se toda na sala para ver os jogos do Europeu, entre sofás, cadeiras e o chão quando não sobrava mais espaço. Muitas memórias futebolísticas ficam vivas em nós durante toda a vida fruto da sua intensidade e paixão. Essa é a verdadeira magia do desporto.

Eu tinha apenas 12 anos, os meus avós ainda estavam vivos, mas o golo do empate de Postiga celebrei-o sozinho. Isto porque já estava a desesperar e quis mudar de local para ver os últimos instantes da partida. E eis que ao minuto 83 tudo mudou. Depois de entrarem os dois já na segunda parte, um cruzamento fantástico de Simão Sabrosa na esquerda de pé direito deu asas ao grande cabeceamento de Postiga, que entrou na baliza sem hipóteses para David James. Estava feito o empate, havia esperança de continuarmos no maior evento futebolístico alguma vez realizado no nosso país. E eu já podia regressar à sala para ver o prolongamento e os penáltis em família.

Mas a noite de Postiga ainda não estava completa. Nem a nossa.

Depois de um golaço de Rui Costa e um golo de Frank Lampard no prolongamento, o jogo caminhou mesmo para a decisão por penáltis. Foi quando o avançado português voltou a assumir um papel inesperado. Num momento em que a tensão transforma passos curtos em quilómetros e a baliza parece encolher, Postiga escolheu a ousadia. Ashley Cole tinha convertido o seu penálti, Hélder Postiga tinha de fazer o mesmo. Se falhasse, Portugal estava eliminado. O peso de uma nação nos ombros de um jovem com apenas 21 anos. No frente a frente com o guarda-redes inglês, Hélder Postiga levantou a bola com uma subtileza quase inimaginável. Panenka perfeito. Por um segundo, o estádio e o país sustiveram a respiração. No seguinte, explodiram de euforia. 

Este gesto não foi apenas uma demonstração de técnica, foi coragem. A coragem de quem, num dos palcos mais pesados da história do futebol português, decidiu desafiar o medo com criatividade e loucura, deixando os rivais completamente boquiabertos.

No final da noite, a fotografia que ficou para a eternidade foi a de Ricardo a defender sem luvas e a marcar o penálti que selou a vitória. Justamente celebrada, essa imagem tornou-se símbolo de um país em festa. Mas a verdade é que a história desse jogo também se escreve com a impulsão fantástica de Postiga no empate e com a delicadeza quase provocadora daquela Panenka.

Porque, por vezes, os heróis de um jogo não são apenas aqueles que fecham a história. São também os que se recusam a deixá-la terminar mais cedo.