Sempre discreto, mesmo quando estava no auge da carreira, Richard Möller-Nielsen - que morreu nesta quinta-feira, aos 76 anos - vai ficar nos livros como o homem que surgiu no local certo, à hora certa, para conduzir a seleção dinamarquesa a uma das epopeias mais surpreendentes da história do futebol internacional, no Euro-92.

Mas foi, também, o homem que, por muito pouco, ficou à porta de entrar na história do Benfica, num dos períodos mais agitados da vida do clube encarnado. Essa foi a terceira vez que o seu percurso se cruzou com o futebol português. E, tal como nas duas anteriores, Möller-Nielsen não saiu a ganhar.

Homem certo no local certo

Sobre o seu percurso como jogador e técnico, já se escreveu aqui . Resta dizer que mesmo a sua nomeação para o cargo de selecionador, sucedendo ao histórico Sepp Piontek, criador da «Danish Dynamite» dos anos 80, resultou de um conjunto de circunstâncias felizes: antigo adjunto de Piontek, Möller-Nielsen chegou ao cargo em 1990, como solução de recurso, depois de falhada a contratação do alemão Horst Wohlers.

Nos dois anos que se seguiram, o selecionador entrou em conflito com alguns dos melhores jogadores da equipa, entre eles os irmãos Laudrup, Brian e Michael. E a Dinamarca, que acabou atrás da Jugoslávia no grupo de qualificação, teria ficado à porta do Euro-92 se a guerra nos Balcãs não tivesse eclodido pouco antes da competição. Com a Jugoslávia banida, a UEFA solucionou o problema, repescando os dinamarqueses – que, ao contrário do que diz a lenda, não estavam de férias na praia, mas já de sobreaviso face aos desenvolvimentos políticos.

Sem Michael, o mais velho e mais famoso dos Laudrup que, influenciado pelas ideias de Johann Cruijff, considerava Möller-Nielsen um técnico demasiado defensivo, a seleção da Dinamarca assentou as suas virtudes num guarda-redes excecional – Peter Schmeichel – e nos dribles sinuosos do Laudrup mais novo, Brian, para conquistar a coroa suprema, superando as favoritas Holanda e Alemanha. Numa competição de nível mediano, o espírito solidário e a ausência de vedetas acabou por funcionar a favor da equipa. E nem mesmo os adeptos mais entusiastas atribuíram a Möller-Nielsen mais do que o papel de líder discreto, com ideias arrumadas e sem sombra de génio ou mania das grandezas.

Do Skydome a Sheffield

Poucos se lembram disso, mas o primeiro encontro da Dinamarca campeã da Europa com o futebol português resultou no único troféu sénior de seleções conquistado por Portugal. A seleção dinamarquesa tinha acabado de vencer a Argentina, na decisão da Taça das Confederações, mesmo sem as suas principais estrelas, (os Laudrup, e Peter Schmeichel, então o melhor guarda-redes da Europa). Mas no Canadá, um golo de Paulo Alves, a passe de Pedro Barbosa, permitiu a Portugal vencer a Dinamarca na final do troféu Skydome, disputado num estádio fechado e com relva artificial.

Oliveira, à esquerda, e Möller-Nielsen, à direita, após o sorteio do Euro 96

O reencontro com Portugal deu-se um ano mais tarde, no arranque da fase de grupos do Euro-96. A seleção portuguesa, ausente de fases finais há dez anos, tinha pela frente o campeão em título, com Laudrups, Schmeichel e companhia. E o empate (1-1) com golos de Brian Laudrup e Sá Pinto, acabou por ter sabor a vitória: nessa tarde, em Sheffield, Portugal foi claramente melhor que o campeão.

Sem capacidade para repetir o milagre de quatro anos antes, Möller-Nielsen e a Dinamarca ficaram pelo caminho na fase de grupos, atrás de Portugal e da Croácia. Chegava ao fim a sua passagem pelo cargo, e também o período dourado do futebol dinamarquês. Exilado na Finlândia, onde treinou a seleção entre 1996 e 1999, Möller-Nielsen não voltou ao futebol de alto nível. Mas esteve perto, muito perto, em outubro de 1997, no seu terceiro contacto com o futebol português.

Trunfo eleitoral

Após a saída de Manuel Damásio, a presidência do Benfica estava vaga. Havia três concorrentes: Vale e Azevedo, Abílio Rodrigues e Luís Tadeu. O primeiro, derrotado por Damásio na eleição anterior, já conquistara notoriedade junto dos adeptos e apostava forte num nome bem conhecido para treinador: o escocês Graeme Souness, ainda a viver dos créditos de grande jogador no fantástico Liverpool. Abílio Rodrigues, o candidato com menos visibilidade, também tinha um trunfo eleitoral forte, na figura de Bobby Robson, que tinha deixado excelente imagem no Sporting, FC Porto e no Barcelona.

Faltava a escolha de Tadeu, que nessa altura repartia o favoritismo nas sondagens com Vale. A escolha recaiu em Möller-Nielsen que discreto, como sempre, desembarcou em Lisboa, numa manhã de outubro, para confirmar, numa conferência de imprensa relâmpago, que sim senhor, tinha acordo fechado com o candidato.

A 31 de outubro de 1997, numa das eleições mais concorridas da história do Benfica, 19.824 votantes participaram numa escolha equilibrada até ao fim. Nunca se saberá até que ponto um boato, posto a correr por fontes da candidatura de Vale e Azevedo, no pico da afluência, ao final da tarde, contribuiu para fazer inclinar a balança: Rui Costa, então na Fiorentina, teria acabado de desembarcar em Lisboa e estaria no escritório de Vale, pronto a assinar em caso de vitória.

Falso, como se percebeu depois: Vale ganhou mesmo as eleições, com 51,5 por cento dos votos, contra 46,9 da lista de Luís Tadeu, apoiada por Eusébio. Tadeu e Möller-Nielsen ficaram fora dos destinos encarnados, entraram Vale e Souness para os seus lugares. O Benfica acentuou aí uma espiral de autodestruição que, entre outras coisas, levou o técnico escocês a deixar o clube, ano e meio depois, com um lamento e um aviso: «Vale e Azevedo mente quando olha nos olhos. Tenham cuidado, este homem é perigoso». Os factos posteriores viriam a dar-lhe razão. Ninguém sabe como teria sido com Möller-Nielsen no seu lugar, mas dificilmente teria sido pior.