Uma pérola africana aterra em solo ibérico e é desviada pelo clube rival. Marca golos, conquista os adeptos e anos mais tarde acaba por ganhar o estatuto de lenda seu país.

Este bem podia ser o preâmbulo da história de Eusébio, por exemplo, mas Lisboa não é Sevilha, entre várias outras diferenças. O herói aqui é Alhaji Momodo Njie. Aliás, de Biri Biri, o goleador que na década de 1970 aqueceu a rivalidade entre Sevilha e Betis e inspirou a primeira claque do futebol espanhol.

Nascido há precisamente 75 anos na Gâmbia, o mais pequeno país da África continental, o antigo avançado foi protagonista de uma história incrível ao longo da sua carreira.

Pioneiro no futebol europeu entre os talentos gambianos e personagem icónica do futebol andaluz na década de 1970, Biri Biri era também o pai e mentor de Yusupha Njie, avançado do Boavista, que ao Maisfutebol o recorda no dia em que ele completaria o 75.º aniversário.

«Lembro-me bem da minha infância, quando ele jogava futebol comigo depois das aulas, antes da minha mãe me chamar para ir estudar (risos). Sempre me deu conselhos, dizia-me muitas vezes para dar o meu máximo, independentemente da profissão que acabasse por vir a ter. Esses ensinamentos têm sido muito importantes na minha vida», conta Yusupha, de 29 anos, ao Maisfutebol, destacando a influência paterna «sobretudo no início» da carreira como futebolista: «Apoiou-me sobretudo nos momentos maus, dando-me confiança e estimulando-me a ser competitivo.»

Yusupha, filho de Biri Biri, está na sexta época ao serviço do Boavista

Nem Brian Clough e Ernst Happel travaram a ascensão

Biri Biri nasceu em Banjul, a 30 de março de 1948. Começou a dar os primeiros pontapés na bola em frente à grande mesquita da cidade, enquanto frequentava a escola corânica, e acabou por representar uma mão cheia de clubes na juventude, tendo dado os primeiros passos como sénior nos amadores do Agustinians. Até que aos 22 anos rumou a Inglaterra, por recomendação do capitão da seleção de críquete da Gâmbia.

Tentou a sua sorte no Derby County, em 1970, mas esbarrou no crivo do mítico Brian Clough – mais tarde, em 1979 e 1980, bicampeão europeu pelo Nottingham Forest.

«O treinador não gostava do meu futebol. Passei lá um ano difícil e voltei a casa. Em Inglaterra, não souberam querer-me», revelou o próprio numa entrevista à revista Panenka, em 2019, um ano antes da sua morte.

As portas do futebol europeu abrir-se-iam dois anos depois, quando os dinamarqueses do B 1901 Nykobing, numa digressão a África, defrontaram o Wallidan Banjul. Venceram por 5-4, mas do lado contrário Biri Biri apontou um hat-trick que lhe valeu o convite para trocar o calor africano pelo frio do norte da Europa.

Biri Biri duraria um ano na Dinamarca, até chamar à atenção dos dois grandes clubes da capital da Andaluzia. Há quem garanta que o Betis o descobriu e que o Sevilha o desviou no avião, mas nada melhor do que a versão do próprio, revelada nessa entrevista de 2019:

«Não sabia nada do Betis ou do Sevilha. Estava na Dinamarca e disseram-me: “Há um clube em Espanha que está interessado em ti.” Quando desci do avião, tinha pessoas do Sevilha à minha espera. Levaram-me para o estádio, assinei contrato, falei com o presidente, Eugenio Montes Cabeza, e depois deixaram-me no hotel. Três dias depois, voltei para a Gâmbia de férias.»

Se, na primeira época, Biri Biri mal jogou com Ernst Happel, técnico austríaco bicampeão europeu de clubes e vice-campeão do mundo de seleções com os Países Baixos em 1978, na segunda, a de 1974-75, sob o comando do argentino Roque Olsen, o gambiano despontou: marcou 14 golos em 31 jogos e foi decisivo para a subida da equipa à I Liga Espanhola.

«Esse foi o melhor ano da minha vida. Lembro-me de um jogo contra o Rayo Vallecano em que fiz dois ou três golos… Quando saí de campo, as crianças olhavam-me com admiração e os adeptos levaram-me para casa em ombros. Lembro-me também quando marquei um golo ao Real Madrid [empate 1-1, a 9 de novembro de 1975]. O Sánchez-Pizjuán estava cheio, havia apenas três negros em todo o estádio: a minha mulher, o meu filho e eu. Empatámos e eu fui manchete em todos os jornais», recordou Biri Biri.

Mais do que um ídolo: o inspirador da primeira claque de Espanha

O exotismo e a excitação provocados no público foi tal que Biri Biri acabaria por inspirar o primeiro grupo organizado de adeptos do futebol espanhol.

Criados em 1975, os Biris Norte tornaram-se numa claque antirracista e antifascista. Se na política o grupo tem uma conotação mais à esquerda, no estádio ainda hoje eles se situam no topo norte, por detrás de uma das balizas.

Biri Biri acabaria por deixar o Sevilha, em 1978, ao fim de cinco épocas no clube, mas o seu legado permanece ainda hoje nas bancadas do Sánchez-Pizjuán.

Biri Biri tornou-se uma lenda do Sevilha, clube que representou durante cinco épocas

Se, quando jogava, o empolgante avançado desfiava um rol de motivos para visitar amiúde o seu país, no decorrer da temporada; depois de pendurar as chuteiras, ele acabaria por voltar várias vezes ao clube do Nervión, sempre motivando enormes demonstrações de carinho por parte do público.

Aquando da saída da Andaluzia, o avançado acabou por fazer o caminho inverso: voltou à Dinamarca, para jogar no Herfolge Boldklub (entre 1978 e 1981), antes de regressar ao seu país, para terminar a carreira no Wallidan Banjul e pendurar também as chuteiras na seleção da Gâmbia – que representou até 1987.

Primeiro gambiano a ser futebolista profissional, primeiro negro a representar o Sevilha. Para lá do pioneirismo, Biri Biri era empolgante de ver, veloz e felino no ataque à bola, mas também uma figura afável, que cumprimentava o público e entrava em campo com o seu pequeno e até então único filho – Momar – nascido em agosto de 1975.

Momar fez uma carreira discreta no futebol alemão. Haveria de ser Yusupha Njie, nascido já em março de 1994, a continuar com maior destaque o legado do pai no futebol profissional.

Herdou até a forma de jogar, garante o avançado que nesta época leva já onze golos apontados, o seu melhor registo em seis épocas no Bessa, que até pede meças ao progenitor.

«Até acho que temos um estilo de jogo parecido. A forma de cabecear, de controlar a bola, de passar, de correr… Acho que são muito iguais. Mas, apesar de ele ter sido um grandíssimo jogador, acho que eu sou mais habilidoso com a bola», afirma o goleador dos axadrezados, que partilha orgulhoso uma imagem sua na juventude com o seu pai como foto de perfil de Whatsapp.

Quando Yusupha fez provas na «cantera» sevilhista pela mão do pai 

Esse é outro dos legados do mítico Biri Biri, que depois de ter terminado a carreira recebeu honrarias do estado.

Em 1994, já com o país sob controlo do regime militar de Yahya Jammeh, o antigo futebolista foi nomeado vice-presidente da Câmara de Banjul, tendo então também assumido o cargo de gestor do Royal Albert Market, o grande mercado da capital da Gâmbia.

Em 2000, Biri Biri recebeu de Jammeh, que governou com mão de ferro o país até 2017, a Ordem de Mérito do seu país, tendo então sido designado como «o melhor jogador do milénio e de todos os tempos» da história da Gâmbia. Assim mesmo.

Biri Biri voltaria a Sevilha várias vezes; numa delas até confraternizou no relvado com Maradona, na fugaz passagem de «El Pibe» pelos andaluzes. Noutra, viajou com o jovem Yusupha, para prestar provas na «cantera» sevilhista. O agora avançado boavisteiro não ficou nos escalões de formação, mas há um vídeo que regista essa primeira aventura na Europa.

Em 2017, Biri Biri recebeu perante um Sánchez-Pizjuán lotado as insígnias de ouro do clube. No ano seguinte, já sénior e a destacar-se no Bessa, foram várias as notícias que davam Yusupha como potencial reforço do Sevilha.

Biri Biri haveria de não ver concretizado esse sonho de ver o filho vestir a camisola dos «Hispalenses». A sua vida cheia terminaria aos 72 anos, numa cama de um hospital de Dakar, no Senegal, após complicações durante uma cirurgia.

No dia da sua morte, a 19 de julho de 2020, o Sevilha publicou um notável comunicado de condolências.

«Muitos jogadores têm um registo melhor na história deste clube, mas poucos deixaram uma marca nos adeptos como ele. Os cinco anos que por cá passou, deixaram uma marca indelével no coração dos adeptos que o adotaram como lenda e ídolo absoluto.»

Nessa noite, jogadores do Sevilha e do Valência envergaram fumos negros nas mangas e cumpriram o protocolar minuto de silêncio num estádio completamente vazio. Afastados das bancadas pela pandemia, os Biris Norte e os restantes adeptos não puderam homenagear o herói gambiano uma última vez.

Para Yusupha, ficam as memórias. «As pessoas olham para ele como uma lenda, mas para mim ele é o meu pai, alguém que me inspira todos os dias e que esteve sempre presente quando eu precisei. Ele é o meu herói e eu sinto um grande orgulho por tudo o que ele fez. Não tenho dúvidas de que o legado dele jamais será esquecido na Gâmbia e em Espanha.»