O Ajax-Benfica, da próxima terça-feira, será muito mais do que um duelo entre históricos do futebol europeu em busca de melhores dias e, também, dos primeiros pontos na atual edição da Liga dos Campeões. É igualmente um momento relevante na corrida pelo sexto lugar do ranking da UEFA, prova de resistência que os Países Baixos vão, até aqui, controlando com relativa tranquilidade.
Isso apesar de a Liga portuguesa até ter plantéis mais valiosos e vantagem no confronto direto nos duelos europeus entre clubes dos dois países, esta temporada, pelo triunfo do Sp. Braga frente ao Feyenoord e o empate do FC Porto em Utrecht, ambos para a Liga Europa. E se Portugal ainda quer sonhar em conseguir apanhar os Países Baixos no ranking, convém capitalizar ao máximo esse confronto direto, que ainda terá, pelo menos, um Go Ahead Eagles-Sp. Braga no fecho da fase liga da Liga Europa.
Convém, no entanto, lembrar que Portugal nem sempre andou a correr atrás dos Países Baixos no ranking da UEFA. Em 2011, a vantagem portuguesa era superior a 10 pontos, à boleia da final 100 por cento lusa da edição desse ano da Liga Europa entre FC Porto e Sp. Braga, a que se junta a presença do Benfica nas meias-finais da prova. Essa diferença atingiu os 18 pontos em 2016, quando os Países Baixos ocupavam um modesto 10.º lugar na hierarquia, que contrastava com o pujante quinto posto em que Portugal então navegava.
Em apenas uma década, porém, os Países Baixos não só ultrapassaram Portugal no ranking da UEFA, como têm muito boas perspetivas de poderem terminar a atual temporada no sexto lugar, o último que garante uma vaga extra na Liga dos Campeões em 2026/2027.
O que mudou? Uma combinação de desenvolvimento, mentalidade e de modelo de negócio que a Eredivise soube aprimorar, cujos efeitos se percebem, sobretudo, no trajeto das suas equipas na Liga Conferência, em comparação com o que fazem as portuguesas na terceira prova europeia de clubes.
Descobrir, formar e vender
Ainda não se completou meio ano desde que Guilherme Peixoto trocou o Benfica pelo Twente. Concluído o ciclo na Luz com a conquista da Taça Revelação, o jovem lateral-direito, de 19 anos, esteve na agenda do Estoril, mas dos Países Baixos chegou «um projeto superior». «Apesar de ser noutro país, longe da família e dos amigos, senti que seria mais vantajoso fazer a trajetória de outra maneira, ao invés de ficar em Portugal. Foi o melhor que fiz», acredita.
Melhor, porquê? «Aqui, apostam mais nos jovens, dão-lhes mais oportunidades. E também acho que os jovens ganham mais cá», explica Guilherme.
Esse tornou-se num aspeto central para a evolução da Liga neerlandesa, acrescenta Ivo Pinto. «Ao nível de scouting, têm feito um bom trabalho. Têm contratado jogadores novos, com qualidade, que crescem, desenvolvem-se e depois são vendidos por valores altos para as principais ligas. Acho que Portugal tem vindo a perder um bocado isso», nota o defesa do Fortuna Sittard.
Há cinco épocas a competir na Eredivisie, o lateral-direito, de 35 anos, sente que, ali, «a parte técnica, da qualidade individual dos jogadores, tem vindo a evoluir», numa Liga «mais focada na tática, na posse de bola e que dá oportunidade a jogadores jovens para somarem muitos minutos ao longo da época». Por seu lado, a Liga portuguesa destaca-se pela «intensidade, a força e o elevado número de jogadores experientes», complementa Alexandre Penetra, defesa-central do AZ Alkmaar.
A forte aposta em valores emergentes resulta em jogos mais intensos, nos Países Baixos, com uma dose extra de atrevimento que rareia no campeonato português. «Aqui, o ritmo é diferente. Corremos mais e todas as equipas fazem pressão, coisa a que não estava habituado, mesmo na Seleção, em que as equipas recuam por respeito», nota Guilherme Peixoto.
Em Portugal, «as equipas que estão mais lá para baixo (na tabela classificativa), muitas vezes, encostam-se atrás e tentam fazer o jogo em contra-ataque, mas aqui é diferente. Por isso é que este campeonato tem muitos golos», completa o defesa do Twente.
Os dados compilados pelo SofaScore, parceiro do Maisfutebol, comprovam essa perceção. Nas últimas cinco temporadas, período em análise para a definição do ranking da UEFA, a Liga neerlandesa teve mais golos e remates, no total e enquadrados com a baliza adversária, quando comparada com a portuguesa.
«Ainda acho que aqui há um estilo de jogo mais ofensivo», comenta Ivo Pinto, polvilhado pelo tal espírito audaz que impressionou Guilherme Peixoto. «Uma equipa que em termos de qualidade possa ser mais fraca não tem medo de pressionar e de fazer o seu jogo. Isso demonstra uma personalidade diferente, que conta muito» nos jogos internacionais, defende o jogador formado no Benfica.
Mas as coisas também começam a mudar nos Países Baixos. «Antigamente, se o jogo ficasse 5-4 era fantástico. Isso tem vindo a acontecer cada vez menos porque as equipas começam a defender melhor. A isso também se deve os melhores resultados das equipas holandesas que chegam às competições europeias», acredita Ivo Pinto.
Dando como exemplo a época passada, houve mais equipas neerlandesas do que portuguesas a atingir os oitavos de final da Liga dos Campeões (PSV e Feyenoord/Benfica) e da Liga Europa (Ajax e AZ Alkmaar), que não teve representação lusa nessa fase da prova. Só na Liga Conferência é que isso não aconteceu, com o Vitória a atingir os «oitavos», feito que nenhum clube dos Países Baixos logrou alcançar.
Curiosamente, 2024/2025 foi a exceção que confirmou o que tem vindo a ser a regra na terceira competição de clubes da UEFA. O Vitória foi mesmo a única equipa portuguesa a ultrapassar a fase de qualificação, objetivo que, por exemplo, o Santa Clara não foi capaz de concretizar esta temporada. Enquanto isso, o Feyenoord foi finalista na edição de estreia (2022) e o AZ Alkmaar, que disputa a fase regular da Liga Conferência esta época, foi semifinalista em 2023.
«A certa altura, as duas ligas estavam tão equilibradas no coeficiente (europeu) que qualquer diferença acabaria por ser muito grande. A Liga holandesa continua a levar muitas equipas (às provas europeias) e a fazer pontos», nota Ivo Pinto, para quem «as equipas portuguesas são melhores, mas as holandesas têm conseguido fazer melhores prestações».
O defesa do Fortuna Sittard vai ainda mais longe na análise. No seu entender, «qualquer equipa portuguesa que chegue à Conference League tem quase como obrigação deixar uma boa imagem, pela qualidade do futebol e dos clubes que existem em Portugal», mas, «nos últimos anos, as prestações das equipas portuguesas nas competições europeias têm deixado a desejar».
Isso tem impacto no ranking da UEFA e na própria gestão dos clubes, assinala Ivo Pinto: «Torna mais difícil aos clubes portugueses conseguirem vender, gerarem valor e trazerem outros jogadores jovens. O futebol português vive muito em torno disso. Atualmente, é tudo decidido por números e quando eles não são bons podem gerar uma barreira a uma contratação ou ao despender de uma grande quantia numa transferência.»
O papel de uma mais equilibrada distribuição de receitas
As contas relativas ao ranking europeu fazem-se tanto cá, como lá. Para já, e mesmo tendo menos duas equipas a competir nas provas da UEFA, Portugal leva vantagem sobre os Países Baixos (8.000 pontos contra 6.083) esta época, mas o avanço dos neerlandeses no sexto lugar do ranking, que tem em conta os resultados obtidos pelos clubes de cada país nas competições continentais nos cinco anos anteriores, continua a ser significativo (64.033 pontos contra os 60.666 dos portugueses).
«As pessoas à minha volta falam sobre isso, às vezes. Numa conferência de imprensa, antes de um jogo europeu, alguém mencionou o ranking e o nosso percurso como uma espécie de curiosidade», admite Alexandre Penetra.
Já Ivo Pinto salienta que «a Liga holandesa trabalha muito para estar à frente de Portugal» e dá um exemplo paradigmático desse esforço coletivo em prol de um bem comum.
«Há poucos anos, os principais clubes da Holanda - Ajax, Feyenoord e PSV - deram abertura a uma melhor distribuição dos direitos (televisivos) para os outros clubes. Isso faz com que a Liga holandesa fique mais competitiva a cada ano que passa. É cada vez mais uma liga justa, mais igual, e isso faz com que as equipas consigam trazer valores para, depois, os poderem vender», elogia.
Por ali, tal como acontece em Portugal, o calendário também é ajustado às necessidades dos representantes europeus. «Às vezes, uma equipa neerlandesa que tenha jogado para uma competição europeia tem autorização para jogar ao domingo às 20h00, que não é um horário habitual na Liga neerlandesa», conta Alexandre Penetra, lembrando também que na Liga portuguesa as jornadas podem esticar até à segunda-feira, sempre que necessário.
Para além disso, «todos os estádios têm muito boas condições e 90 por cento deles estão quase sempre cheios, o que traz uma riqueza maior ao futebol holandês», diz Ivo Pinto, ideia que é partilhada por Guilherme Peixoto: «Aqui, os adeptos são top. Apoiam muito a equipa e os estádios enchem.»
A batalha luso-neerlandesa na Europa prossegue na terça-feira, com a Johan Cruijff Arena como palco, num duelo de Champions entre Benfica e Ajax em que muito estará em jogo. Para as equipas e para os países que ambas representam.
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