A Avenida dos Aliados abriria ao povo só uma década depois, os horrores nas trincheiras da I Guerra Mundial eram ainda inimagináveis, o FC Porto atravessava uma fase de pueril definição ideológica.

O pai de Manoel, Francisco José Oliveira, era proprietário da Fábrica 9 de julho – Fiação de Lã, inaugurada em 1904. A Praça da Liberdade, chamada então Praça D. Pedro, era o centro cívico, artístico, político e económico da Invicta.

A República chegou quando Manoel se preparava para completar dois anos. O falecido cineasta nasceu numa época de mudanças, no seio de uma família burguesa e muito rapidamente se apaixonou pela atividade desportiva. Foi atleta do Sport Club do Porto e adepto apaixonado do Futebol Clube do Porto.

 

Manoel de Oliveira ao volante de um Ford V8-18

Muito antes de decidir dedicar a vida ao Cinema, Manoel de Oliveira foi um atleta de primeiro nível. O atletismo, o automobilismo e a natação foram os primeiros amores da adolescência. Compensaram, de resto, a pouca inclinação para os estudos.

«Sempre fui um mau aluno e um excelente desportista», afirmou em várias entrevistas.

Com a camisola do histórico Sport Club do Porto – agremiação fundada há 115 anos – foi tricampeão nacional de salto à vara. O recorde pessoal de Manoel de Oliveira figura ainda nos registos do seu antigo clube: 3,35 metros.  

Mas não só. A relação do decano realizador com a instituição portuense foi muito além do atletismo, como explica Paulo Barros Vale, presidente do Sport Club do Porto, ao Maisfutebol.  

«O Manoel de Oliveira foi sócio do Sport até morrer. O mais antigo, claro, e com a quotas em dia. É uma figura incontornável na nossa história, sobretudo por ter sido um praticante de grande ecletismo», refere o dirigente, pouco depois de saber da morte do cineasta.

 

Foto de capa do livro «Manoel de Oliveira, Piloto de Automóveis», de José Barros Rodrigues

«Ele fez parte de uma pequena elite social que, inspirada na doutrina inglesa, praticou várias modalidades no início do século XX. Poucos saberão que, além de ter sido triplo campeão de salto à vara, foi trapezista na nossa primeira companhia de circo».

«O Manoel e o irmão dele, o Casimiro Oliveira, tinham um número de trapézio sem rede», confidencia Paulo Barros Vale. «Atuou em várias salas importante do país, num período em que a cultura e o desporto eram coisas do diabo».

A primeira pista de atletismo do Sport foi feita dentro do Palácio de Cristal. Manoel de Oliveira treinou lá muitas vezes. «É verdade, a Avenida das Tílias era o local predileto dele para correr e saltar. Manteve uma ligação fortíssima connosco até ao fim».  

Trapezista, acrobata e campeão de automobilismo

Galã de corpo escultural e metido num justíssimo fato de desporto. Assim se apresentava o jovem Manoel nas festas anuais do Sport Club do Porto, realizadas no Teatro Carlos Alberto.

Ousado e atlético, Manoel de Oliveira passou a ser conhecido em toda a cidade pelos seus números de trapezismo e acrobacias invulgares. Tudo isto antes de chegar aos 20 anos e começar a dividir o amor pelo desporto com o cinema e muitas meninas casadoiras.

Na praia do Molhe saltava de uma prancha de dez metros de altura para o mar – como está documentado na sua Fotobiografia, da autoria de Julia Buisel – e nos ares provou a reconhecida temeridade ao pilotar pequenos aviões em festivais aéreos.

De qualquer forma, o automobilismo terá sido a grande obsessão de Manoel de Oliveira fora do espaço concedido ao Cinema. «Ganhou várias corridas em representação do Sport», confirma Paulo Barros Vale.

Ganhou, por exemplo, a Gincana do Palácio de Cristal, em 1935, na primeira vez em que se inscreveu numa corrida, impulsionado pelo irmão Casimiro, inseparável companheiro de borgas; Manoel conduziu um Fiat Ballila nessa prova.

Nunca mais parou. Comprou um BMW 315 e passou a competir regularmente no Circuito de Vila Real. Dizem as crónicas da época que foi segundo em 1936, atrás de um tal Adolfo Ferreirinha, este ao volante de um Ford V8-18.

 

Manoel de Oliveira a correr no Circuito de Vila Real

Em 1937 foi o quarto classificado, conduzindo um Ford. Internacionalizou-se e foi ao Brasil ganhar o Rali do Rio de Janeiro em 1938. No mesmo ano conquistou a II Rampa do Gradil, no nosso país.  

A extinta revista Stadium acompanhou uma outra célebre prova em 1937, no Circuito Internacional do Estoril. Numa corrida com 30 voltas, Manoel de Oliveira (Ford) comandou quase sempre, mas foi ultrapassado por Edward Rayson (Maserati) já perto do fim.

O portuense não desistiu e «logo na volta seguinte, ultrapassa de novo Rayson, para assumir o comando da corrida até ao final».

Em 1933 participou como ator no segundo filme sonoro português, A Canção de Lisboa. Deu corpo a Carlos, o amigo de Vasquinho (Vasco Santana), galã e apaixonado por automóveis. O papel não lhe podia assentar melhor.

Manoel no filme A Canção de Lisboa (entre 1m30s e 2m30s):

 

Manoel de Oliveira faleceu neste 2 de abril de 2015, aos 106 anos. O segredo da longevidade? «Ele dizia-nos sempre isto: ‘cheguei a velho porque fiz muito desporto no Sport Club do Porto’ (risos). Eu quero acreditar que isso é mesmo verdade».

Lista de filmes (longas-metragens) de Manoel de Oliveira:

1942 - Aniki-Bobó

1963 - Acto da Primavera (docuficção)

1971 - O Passado e o Presente

1974 - Benilde ou a Virgem Mãe

1979 - Amor de Perdição

1981 - Francisca

1985 - Le Soulier de Satin

1986 - O Meu Caso

1988 - Os Canibais

1990 - Non, ou a Vã Glória de Mandar

1991 - A Divina Comédia

1992 - O Dia do Desespero

1993 - Vale Abraão

1994 - A Caixa

1995 - O Convento

1996 - Party

1997 - Viagem ao Princípio do Mundo

1998 - Inquietude

1999 - A Carta

2000 - Palavra e Utopia

2001 - Porto da Minha Infância

2001 - Vou para Casa

2002 - O Princípio da Incerteza

2003 - Um Filme Falado

2004 - O Quinto Império - Ontem Como Hoje

2005 - Espelho Mágico

2006 - Belle Toujours

2007 - Cristóvão Colombo – O Enigma

2009 - Singularidades de uma Rapariga Loura

2010 - O Estranho Caso de Angélica

2012 - A Igreja do Diabo

2012 - O Gebo e a Sombra

Curtas e médias metragens:

1931 - Douro, Faina Fluvial

1932 - Estátuas de Lisboa

1938 - Já se Fabricam Automóveis em Portugal

1938 - Miramar, Praia das Rosas

1941 - Famalicão (filme)

1956 - O Pintor e a Cidade

1964 - A Caça

1965 - As Pinturas do meu irmão Júlio (documentário)

1966 - O Pão (documentário)

1982 - Visita ou Memórias e Confissões

1983 - Lisboa Cultural

1983 - Nice - À propos de Jean Vigo

1985 - Simpósio Internacional de Escultura em Pedra – Porto

2010 - Painéis de São Vicente de Fora, Visão Poética

2011 - "Do Visível ao Invisível" em Mundo Invisível

2014 - O Velho do Restelo