* Enviado-especial do Maisfutebol aos Jogos Olímpicos

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Crianças jogam à bola, vendedores ambulantes gritam o pregão do dia, automóveis e motorizadas pintam de fumo as ruas escanzeladas do Complexo da Maré, 16 favelas acotoveladas na zona norte do Rio de Janeiro.

Para Thaís Cavalcante, o dia começa sem sobressaltos. Despertador aos berros, pequeno almoço tranquilo, caminhada para a escola. Num segundo, porém, tudo muda.

O alvoroço e o medo atiram-na ao chão, mãos a tapar as orelhas, cabeça escondida atrás de um carro.

A Unidade da Polícia Pacificadora – oh, a ironia! - invade a Maré e lança uma rajada de tiros. Janelas estilhaçadas, pneus furados, gente, muita gente em pânico. Thaís corre assustada, deixa cair a lancheira no piso nauseabundo, perde a comida e a alegria.

22 de fevereiro de 2016, o dia da morte de Igor Silva, 19 anos, farmacêutico. A polícia confunde-o com um traficante de droga, atinge-o fatalmente no peito. O pão nosso de cada dia numa zona mártir da Cidade Maravilhosa.

O Exército juntou-se à Polícia no patrulhamento

Thaís Cavalcante é jornalista e uma das responsáveis pelo jornal comunitário O Cidadão. Ao Maisfutebol, convidado especial, a jovem faz questão de narrar este dramático evento para que o mundo perceba que os Jogos2016 «nada mudam» na vida dos 170 mil habitantes da Maré.

Ali, a escassos quilómetros do Maracanã e de outros espaços olímpicos, a única medalha premeia a sobrevivência. «Nunca sabemos quando isso [a ação policial] vai acontecer de novo. Os dias podem ser perigosos ou calmos, mas a repressão do Estado dentro das favelas cariocas é constante», explica Thaís Cavalcante.

Carolina Vaz, colega de Thaís n’O Cidadão, não vive dentro da favela, mas conhece a realidade da Maré como poucos. Tem, de resto, uma visão profundamente negativa e preocupante sobre a realização dos Jogos.

«Estou com muito medo das vidas dos favelados e faveladas, com tanta polícia racista assassina que vai estar nas favelas. Também temo pela vida de nós, militantes, que vamos reclamar nas ruas», sublinha Carolina, preocupada com o reforço militar na Maré.

Os Jogos não são, é fácil de perceber, motivo de celebração para todos. «São excludentes e já causaram a perda de muitas vidas», protesta Carolina Vaz. «Quando acabarem estaremos a pouco tempo das eleições municipais e espero que toda essa informação influencie. Precisamos de prefeitos e vereadores decentes».

«Não há policiamento nas favelas, há invasões»

O Maisfutebol procura a redação d’O Cidadão para perceber de que modo os Jogos Olímpicos podem influenciar a qualidade de vida do carioca da Maré.

Encontra, acima de tudo, relatos de pessimismo e revolta. Depois do apogeu do vírus Zika – Thaís foi infetada -, os maiores problemas são a persistência do narcotráfico e as operações «descontroladas» da polícia.

«Não há policiamento, há invasões», desabafa Thaís Cavalcante. «Esse é só um motivo para oprimir os moradores de favelas, principalmente jovens, homens e negros. Isso tem sido mais constante para trazer essa falsa segurança àqueles que visitam agora o Rio de Janeiro».

E nem quando se fala em emprego, e no previsível aumento de postos de trabalho, o tom se altera. «Os Jogos beneficiarão especialmente os vendedores ambulantes nas praias da Zona Sul – Ipanema, Copacabana, Barra da Tijuca», considera a moradora da Maré.

«O que é curioso é que as favelas movimentam mais a economia do que a classe média alta», conclui Thaís Cavalcante.

Imagens impressionantes no Complexo da Maré

Perante isto, perguntamos se a organização dos Jogos, e antes a do Mundial de futebol, não procura integrar as centenas de milhares de brasileiros que vivem em favelas. Carolina Vaz diz que «sim, mas…»

«Os responsáveis pelos megaeventos não impedem que atletas de favelas estejam nas competições, ou que dançarinas e dançarinos das favelas dancem na abertura e no encerramento», explica.

«Mas tudo isso é mediático. É bom para eles mostrarem que um atleta da favela teve sucesso, que ‘chegou lá’, e que não exclui ninguém de exercer seu talento nas Olimpíadas».

«A integração existe», prossegue Carolina Vaz, «mas não num sentido de querer integrar favelados para lhes fazer bem». Em resumo, no entender destas representantes d’O Cidadão, o interesse mediático da integração dos favelados é «hipócrita e cruel».

«Os megaeventos são voltados para os ricos, querem beneficiar as construtoras e os turistas. O objetivo é manter os favelados controlados, nos seus territórios, sem circular pela cidade, sem oferecer ‘risco’ aos turistas. E isso, muito provavelmente, vai acontecer devido ao policiamento muito forte nas favelas».

«O Rio está fantasiado de Cidade Maravilhosa»

O Conjunto da Maré reúne 16 favelas e está próximo de algumas das principais vias de comunicação do Rio de Janeiro: Avenida Brasil, Linha Amarela, Linha Vermelha e do Aeroporto Galeão.

A preocupação dos moradores, pelo menos dos muitos que vivem dentro da lei, é democratizar «o acesso aos meios de comunicação» e provar que há muitas pessoas qualificadas e de bem dentro destes complexos habitacionais.

N’O Cidadão há protesto e consciência, mobilização e alerta. Thaís e Carolina estão assumidamente contra «os rumos que o Rio de Janeiro toma, num sistema muito excludente e fantasiado de Cidade Maravilhosa».

«Também somos contra o sistema estadual de segurança pública, que mata negros pobres todos os dia nas favelas».

Este estado de espírito não melhorou nada com a recente e polémica ascensão ao poder de Michel Temer, sucessor de Dilma Rousseff na presidência da república.

«Gostaria de deixar claro para que sou contra o golpe articulado que o levou ao poder», atira Carolina Vaz. «Considero-o um homem machista e sem um pingo de sensibilidade com as necessidades da população brasileira. Desejo que ele nunca mais tenha nenhum cargo político e não seja influenciador de ninguém».

Os Jogos Olímpicos são o torneio desportivo de maior alcance mediático em todo o planeta. Ali ao lado, no Complexo da Maré, a influência positiva é nula. O dia a dia continua instável, assustador, com balas perdidas e demasiados alvos.