A chuva ameaça molhar a baixa de Braga. Céu cinzento, nuvens carregadas, quadro sombrio a poucas horas do arranque da Final Four da Taça da Liga.

A cidade, sempre bela, não se assusta. Sai para a rua, veste-se irrepreensivelmente, abre-se ao futebol português.

O coração da competição tem dois núcleos. O Estádio Municipal, naturalmente, e a Praça da República, no ponto oeste da Avenida Central.

O Maisfutebol começa a viagem pelos bastidores da prova que dará o Campeão de Inverno precisamente por aqui. Não há que enganar. A urbe refundada no século XI, após um longo período de ocupação romana, está mais jovem do que nunca. Envelheceu bem.

Na tenda principal, logo atrás das figuras em tamanho XXL de Herrera (FC Porto), Jardel (Benfica), Goiano (Sp. Braga) e Nani (Sporting) – os capitães dos quatro semi-finalistas – as velhas glórias de dragões e águias sacodem a poeira do tempo e atiram-se para 50 minutos de golos, gargalhadas e corações acelerados. Demasiado acelerados.

A vitória cai para o lado azul e branco, em jeito de premonição para o que se seguiria à noite no relvado da pedreira, mas isso não é de todo importante. Basta ouvir outros capitães, revolucionários nas douradas histórias de Porto e Benfica.

«O importante é a camaradagem, mostrar que é possível um futebol melhor», dizem, a meias, João Pinto e Veloso, antigos internacionais. A boa disposição permite, de resto, recuperar a velha máxima do homem que agarrou a taça em Viena e não mais a largou.

«Prognósticos? Só no fim, carago.»

Há tempo para escutar Chiquinho Carlos, um estreante vestido de herói em agosto de 1986, precisamente em Braga, e para perceber que as gentes da cidade não esquecem Domingos Paciência.

«Foi o melhor treinador que passou pelo clube», diz-nos o senhor Carlos Pinto, sócio «há quase 50 anos» dos Guerreiros do Minho. E a Taça da Liga, é para ver no estádio? «Está muito frio e os bilhetes são caros. Agora só vou ao estádio quando está bom tempo.»

A preocupação do sr. Carlos com a meteorologia e as finanças é, de resto, partilhada com mais três bracarenses e braguistas. Numa mesa do clássico Café Astoria, Nicolau Silva e o amigo Pedro do Carmo afiançam pelo mesmo.

«Somos do Sp. Braga, sim senhor. Ao estádio? Não vamos, por causa do preço dos bilhetes [andam entre os 15 e os 25 euros] e do frio. Dizem que os termómetros vão andar perto dos zero graus.»

Dentro do café o ambiente fervilha e as mesas estão cheias. Saem bolos caseiros ainda quentinhos, chás, chocolates quentes e torradas. Apetece estar no Astoria. «Sair daqui lá para baixo, para a pedreira. Eh pá, já tenho 62 anos.»

Saímos do abrigo das arcadas e descemos em direção ao Largo do Paço. Há policiamento em todas as esquinas e nenhum sinal de confronto ou violência entre as centenas de adeptos que se atrevem a afrontar as nuvens negras.

A organização da Liga colocou cartazes e outdoors em pontos simbólicos, a lembrar que há futebol do bom a poucos quilómetros. Não mais de cinco. À quarta tentativa, o nosso jornal apanha um resistente. Este homem vai ver a bola ao vivo.

«Também acho os bilhetes caros, mas quero ver o meu Sp. Braga a ganhar a Taça da Liga em casa», explica António Soares, 42 anos.

O cartaz é atrativo, junta as quatro melhores equipas nacionais dos últimos anos. Também por isso, a direção da Liga espera juntar, no conjunto dos três jogos, mais de 60 mil espetadores no Estádio Axa. Números que superam em muito os das anteriores edições. A grandeza dos protagonistas explica facilmente esta melhoria.

A cidade está bonita, mais viva com a chegada de milhares de adeptos. A PSP estava preocupada com o jogo de abertura mas, conforme nos dizem já no segundo dia, «a operação foi um sucesso».

Os adeptos de Benfica e FC Porto nunca estiveram sequer perto e a geografia do estádio ajudou a que esta separação fosse perfeita. O saldo final, para um jogo desta magnitude, é absolutamente benigno: um detido e um identificado por injúrias.

A senhora de Braga, irrepreensível na sua toilette, sabe receber bem. O nosso jornal sai da zona histórica e faz um trajeto de 20 minutos até ao estádio, a caminhar. Informações claras, sinalização abundante, não há como enganar. Nada a apontar à organização.

O problema, dizem os adeptos, é mesmo o preço dos bilhetes. A roupa nova não dá para tudo.