Festim de futebol servido com indisfarçável deleite por duas boas equipas. E que pena alguma delas ter de sair vergada sob o peso da derrota. Da infame derrota, neste caso particular. Em boa verdade, nem Rio Ave, nem Naval mereciam tomar o duche desprovidos dos três pontos. A Liga é um lugar melhor, idílico até, com dois conjuntos que jogam à bola com tamanho prazer.

O Rio Ave merecia ganhar. A Naval não merecia perder. Nem empatar. Final sem lógica, traiçoeiro, injusto. Pelo menos para as aspirações dos homens de Carlos Mozer, que tanto jogaram em Vila do Conde. Nenhuma ditadura, muito menos a resultadista, devia punir alguém que de forma tão sublime é capaz de fazer sorrir.

No meio de tanto e tão bom futebol houve um golo. Para elevar os níveis de encantamento, um golo soberbo! O relógio apontava entusiasmado o minuto 13. Bola diluída pela defesa da Naval, perdida na atmosfera até encontrar o pé esquerdo de Milhazes. Choque tumultuoso, tiro em arco às malhas interiores da baliza. O Rio Ave marcava e assegurava logo ali, ainda sem saber, a formalização da candidatura europeia.

FICHA DE JOGO

É duro e ingrato procurar explicações para a derrota da Naval. Carlos Mozer fez tudo o lhe que era exigível. Manteve os homens que abateram o Benfica com autoridade, apostou num estilo vocacionado para enamorar os que o vêem e mexeu na equipa de forma audaz.

Bola à flor da relva, triangulações, cruzamentos, procura incessante pelo golo e algumas oportunidades claras para o fazer. Perto do fim, por exemplo, Paulo Santos roubou com um atrevimento de um adolescente convencido o golo ao inefável Fábio Junior.

O jogo é mesmo assim. Desprovido de lógica, viciado na surpresa, testemunha das mais loucas diatribes. Que fique bem claro, porém, que o elogio à Naval não implica a crítica negativa ao Rio Ave. Nem pensar.

OS DESTAQUES: YAZALDE E MARINHO

Talvez sem o alarde estilístico da Naval, os homens de Carlos Brito cumpriram mais uma tarde de futebol convincente. São já sete vitórias nos últimos nove jogos e um posicionamento com vista privilegiada sobre o panorama europeu.

Além do golo de Milhazes, o Rio Ave teve uma bola de João Tomás ao poste e um pontapé de Wires interceptado por Rogério Conceição em cima da linha de baliza. E teve, acima de tudo, um futebolista em 90 minutos de esplendor.

Yazalde foi um minotauro, com tanto de homem como de touro. Um avançado mitológico na esquerda vilacondense. Só lhe faltou marcar, de facto.

Soma, então, o Rio Ave mais três pontos. A Naval perde e complica as contas da permanência. O que apetecia mesmo era ver mais 90 minutos nos Arcos. Aqueles cinco minutos de descontos foram manifestamente poucos para tanta vontade e ardor.