Chamava-se Geraldo Cleofas Dias Alves, mas o mundo do futebol guardou-lhe a alcunha: Geraldo Assoviador, assim mesmo, com «v», à brasileira. Um nome que sugere descontração, bom humor, atrevimento, e esboça toda uma personagem, confirmada por quem o conheceu de perto. Tudo isso e muito mais, confirma Washington Alves, que muito antes de se tornar conhecido como pai de Bruno Alves foi central do Flamengo. E, para o que nos interessa nesta história, irmão mais velho e mentor de Geraldo, o craque do assovio.

Passaram quase 38 anos sobre a última passagem do cometa, mas Washington ainda tem o perfgil do irmão mais novo na primeira gaveta da memória: «Era um sobredotado, um jogador de condições muito acima do normal. Tinha que ser, para chegar com 21 anos à seleção brasileira. E depois era um cara muito tranquilo, confiante, deixava uma sensação de facilidade. O assobio vem daí», conta.

Dos nove filhos de Dona Nilza Alves, cinco tornaram-se jogadores de futebol, como o patriarca, Osvaldo. Da pequena cidade de Barão de Cocais, a 100 quilómetros de Belo Horizonte, o primeiro a fazer a viagem para o Rio foi Washington, que recebeu nome de estadista, tal como os irmãos Lincoln, Júlio César e Wilson.

Central duro, bom marcador, Washington impôs-se no rubronegro a partir de 1969, e aí ficou até 1971. Pelo meio, teve tempo para levar o irmão, sete anos mais novo, a uma experiência nos escalões de formação. Geraldo tinha 15 anos, agradou e ficou, conta Washington: «Já trazia talento, via-se nos jogos de rua. A sua arte estava lá. Depois teve uma grande escola no Flamengo, juntou-se com outros grandes jogadores». Um em especial: ao lado de Geraldo, crescia um talento fulgurante, mas de físico franzino, em quem o Flamengo começava a depositar grandes esperanças: Arthur Antunes Coimbra, filho de um emigrante de Tondela, adepto do Sporting, a quem o mundo do futebol começa a tratar por Zico.

Geraldo e Zico, amigos inseparáveis

Geraldo e Zico tornam-se os melhores amigos, dentro e fora de campo, enquanto a equipa júnior do Flamengo vai colecionando vitórias e troféus. A tal ponto que o pai de Zico começa a tratar Geraldo, carinhosamente, por «o meu filho mulato», tantas as vezes que o recebe na casa do bairro Quintino, no Rio.

Washington não tem dúvidas: a partir de 1973/74, assim que os dois amigos se impuseram na equipa principal, começa a desenhar-se, no Flamengo, a promessa de uma das grandes parcerias do futebol brasileiro. «Ainda hoje essa dupla é falada no Brasil. Zico era um craque, mais finalizador, Geraldo era mais criativo. Era um 8 com características de 10, o seu objectivo era criar situações de finalização para os outros», conta o central, que já não está no rubronegro para testemunhar o sucesso do irmão: sai do clube em 1971 e emigra para Portugal em 1974, onde vai fazer uma sólida carreira a norte, entre Espinho, Vila do Conde e, principalmente, a Póvoa do Varzim, onde joga cinco temporadas.

De longe chegam-lhe relatos do cometa, que nessa altura está no ponto mais alto da trajetória. Em setembro de 1975, com 21 anos, estreia-se na seleção principal, ainda antes de Zico, que só faz o batismo em fevereiro de 1976. O selecionador é Oswaldo Brandão, que vê nele uma aposta firme para o Mundial da Argentina: em meio ano, apesar da concorrência de nomes como Falcão, dá-lhe a titularidade em sete jogos - cinco oficiais, dois deles com a Argentina, e mais dois particulares de preparação.

Geraldo, o segundo à esquerda, em baixo

Tudo parece correr pelo melhor, mesmo com alguns atritos com a direção do Flamengo. Apesar do temperamento descontraído, Geraldo tem personalidade forte e não foge a defender os seus direitos de profissional. Os adeptos compreendem e aceitam bem as zangas e as ocasionais ausências, por motivos disciplinares: além do estilo inteligente e elegante, o 8 do clube da Gávea sente a camisola. Nos 169 jogos oficiais com a camisola do Fla, prova que é tudo menos um mercenário.

Em agosto, com as competições paradas, o Flamengo decide afinar a dupla maravilhosa. Zico, com problemas respiratórios, vai fazer uma pequena correção ao septo nasal. Geraldo, que tem inflamações recorrentes na garganta, vai tirar as amígdalas. Pouco antes, tinha desabafado com a mãe que não tinha vontade de aceder aos pedidos dos médicos do clube: a operação metia-lhe medo. Mas na manhã do dia 26, acaba por dar entrada na clínica Rio Cor, em Ipanema, para uma intervenção simples, com anestesia local. Pouco tempo depois, vítima de um choque anafilático, entra em paragem cardíaca e morre ao fim da manhã.

Veja a reportagem da TV Globo no 35º aniversário da morte de Geraldo

A notícia, que choca todo o futebol brasileiro, apanha Washington a 8 mil quilómetros. O irmão mais velho não consegue acompanhar o funeral de Geraldo, em Barão de Cocais. «Era o meu terceiro ano de Portugal, o campeonato já estava a decorrer, só consegui viajar para o Brasil uns 15 ou 20 dias depois», lembra.

Mês e meio depois, a 6 de outubro, o Flamengo joga no Maracanã com a seleção brasileira, reforçada com o regresso de Pelé, numa derradeira homenagem ao Assoviador. Perante quase 150 mil nas bancadas, Zico posa ao lado do «Rei», com ar triste e ausente. A receita, em teoria, destinava-se à família do jogador. Nunca lá chegou, garante Washington: «O clube pagou o que restava do contrato, e nada mais», lamenta.

38 anos depois o pai de Bruno Alves não esquece. Como não está perto de esquecer o talento do irmão caçula, o Assoviador, cujo nome deu ao filho mais velho: Geraldo Alves, irmão de Bruno, filho de Washington, sobrinho de um cometa cujo rasto ainda hoje une Brasil e Portugal.

Soldados desconhecidos é uma rubrica dedicada a figuras pouco conhecidas da história do futebol, com percursos de vida invulgares