Nuno Gomes
«Nesse Europeu tudo me saía bem, mas perdi um pouco o comboio da seleção com essa suspensão. No Mundial 2002 quase não joguei, depois em 2003 fui operado ao tornozelo, estava a voltar e não podia exigir muito. O Pauleta fixou-se como titular e eu já estava à espera de ser suplente no Euro-2004. Ainda assim, fui utilizado nos dois primeiros jogos e sentia-me uma peça válida no grupo. Uma das forças de Scolari era dar a mesma importância a todos, titulares ou não. E eu senti-o na preparação para esse jogo»







Nuno Gomes
«Scolari tinha uma tradição. Depois de dar o onze e a palestra, geralmente no hotel ou no local de estágio, dava umas últimas instruções no estádio, durante uns cinco minutos. Depois juntávamo-nos, num abraço coletivo, e por vezes rezávamos. E então ele pedia a um jogador para deixar as últimas palavras antes de entrarmos no campo. Nesse dia escolheu-me a mim. Fui apanhado de surpresa, mas a verdade é ninguém conhecia o critério que o levava a escolher um ou outro. Havia jogadores mais carismáticos do que eu, mas como me pediram para falar, avancei. Lembrei que todos sabíamos o óbvio, que tínhamos de ganhar, mas que o mais importante era que cada um de nós saísse do estádio com a certeza de ter dado tudo o que tinha. Fosse qual fosse o resultado, tínhamos de acabar o jogo com a consciência de que não havia mais nada para dar. Depois gritámos e saímos»







Nuno Gomes
«Ficámos a aquecer no anexo junto ao balneário, um salão com piso sintético, onde os jogadores fazem um futevólei para descontrair, antes da entrada em campo. Aquecemos durante 5 minutos, à espera de uma confirmação, e ela chegou pelo Flávio Murtosa: «aquece bem que vais entrar já», disse. Vesti a camisola de jogo e subi logo, para acabar de aquecer no campo. Havia alguns suplentes a brincar com a bola, mas pela intensidade com que estava a aquecer dava para ver que eu ia entrar. Por isso, algumas pessoas que estavam em redor do campo começaram a dar-me força. Não sei o que levou Scolari a antecipar a substituição. O risco do amarelo ao Pauleta pode ter pesado, mas por outro lado o jogo estava muito fechado. Se calhar Scolari pensou nas minhas características, de sair muitas vezes da posição nove para fazer tabelas e combinar com os extremos»









Nuno Gomes
«Eu respeitava demasiadas vezes os movimentos dos companheiros. Alguns críticos apontavam-me o facto de não ser egoísta como um defeito para um ponta de lança, e em parte concordo com eles. Por isso, quando o Figo inicia o lance, a lógica diz-me para fazer o «1-2» com ele. Acontece que já naquela altura se analisavam os adversários em pormenor, e acredito que os defesas espanhóis sabiam perfeitamente as diferenças entre a minha forma de jogar e a do Pauleta. Quando o Figo corre para o meio vê-se que dois deles (N.R. Juanito e Albelda) acompanham o movimento para fechar. É nesse momento que hesito, , e me lembro de fugir, por uma vez, aos meus princípios como jogador»





Nuno Gomes
«Muitas vezes quando recebemos de costas para a baliza nem temos tempo para dominar, sentimos logo o central nos calcanhares. Mas nesse caso percebi que ele (Helguera) não tinha acompanhado e estava à espera da entrada do Figo. Por isso, uma vez tomada a decisão, tenho tempo para dominar, rodar e preparar o remate»





Nuno Gomes
«Muitas vezes o defesa que sai ao remate levanta uma perna, para aumentar o volume do corpo. Os avançados sabem que se a bola passar aí o guarda-redes não a vê logo. Acho que foi isso que aconteceu: quando rematei a bola passou muito perto das pernas do Juanito, primeiro, e do Helguera, depois, e o Casillas não a viu partir. Quando viu, já não podia chegar a tempo»






Para o fim desta história faltavam ainda longos minutos de sofrimento, com a Espanha a carregar em busca do empate e Portugal a não conseguir matar o jogo num dos vários contra-ataques de que dispôs. Da noite em que salvou a festa, virando à esquerda quando todos o esperavam do outro lado, Nuno Gomes guarda duas pequenas anedotas. 

Uma, a intuição, comentada nessa noite em Alcochete, entre sorrisos maliciosos de companheiros de equipa, de que, durante uma fração de segundo - entre perceber que o ponta de lança não ia devolver-lhe o passe e ver a bola no fundo da baliza - Luís Figo terá sentido a mais efémera das fúrias, antes de levantar os braços num gesto de triunfo e perdão. A outra vem de fora de campo, e mistura aritmética com a angústia daqueles minutos finais em que o relógio não andava para os portugueses mas corria para os espanhóis. É Nuno Gomes que fecha a história, como se impõe:

«Os últimos dez minutos foram dramáticos, e começou a haver contra-informação. E como a Espanha, mesmo perdendo, seria apurada se o outro jogo (N.R.: Rússia-Grécia, 2-1) acabasse 3-1 para a Rússia, começou a correr a informação, vinda de fora, de que estava tudo bem e íamos passar os dois. Eu não sabia se era verdade ou não, mas dava-me jeito que fosse, por isso também comecei a espalhá-la. Nessa altura os espanhóis já só queriam pôr a bola lá em cima, de qualquer maneira, com os centrais a ponta-de-lança. E nós dizíamos aos defesas para terem calma, que não era preciso correr. Às tantas, na marcação de um livre, faço sinal ao Puyol para se deixar ficar, porque já não tinham de marcar. Ele hesitou, olhou para o banco a perguntar, e depois, quando lhe disseram que era mesmo preciso marcar, ficou a olhar para mim com aquele ar de quem queria matar-me.»