PLAY é um espaço semanal de partilha, sugestão e crítica. O futebol espelhado no cinema, na música, na literatura. Outros mundos, o mesmo ponto de partida. Ideias soltas, filmes e livros que foram perdendo a vez na fila de espera. PLAY.

SLOW MOTION:«LIKE A VOLCANO…:» - de Saevar Gudmundsson

Islândia, país de mistérios tantos, revelação maior do Euro2016 da nossa boa memória.

O trajeto quase imaculado dos heróis vikings chegou a todo o mundo, propagou-se nos cânticos de bancada e pode agora ser visto ao pormenor num excelente documentário de Saevar Gudmundsson.

Antes, muito antes, do mundo despertar para a criação de Lars Lagerback e da federação islandesa, Gudmundsson percebeu que algo estava a mudar radicalmente no futebol do país e passou a seguir a equipa para todo o lado.

Durante 85 minutos – faltaram cinco, caro Saevar! -, podemos acompanhar as palestras de Lagerback, a intimidade de futebolistas completamente anónimos, o sonho de uma população de 330 mil lá no Atlântico Norte.

A apresentação de Lagerback aos atletas é imperdível. «Atenção, estes tipos estão a filmar tudo sobre a nossa equipa e até me puseram microfone na lapela. Nem pensem em dizer o que dizem normalmente… cuidado com os palavrões.»

De cabeça para dentro do vulcão, uma película para os que não acreditam no impossível.

PS: «Moonlight» – de Barry Jenkins

A paródia no momento da entrega do Oscar desviou-nos do essencial: o que vale o filme de Barry Jenkins?

Não vale o que a estatueta representa. Está longe de ser o melhor filme de 2016. O reconhecimento faz algum sentido no momento político que os EUA atravessam, pois Jenkins toca e analisa questões fraturantes, mas não sou capaz de dizer que estou perante um produto de excelência.

O realizador propõe-nos seguir o menino Chiron em três fases da sua vida. Uma existência sensível e solitária num bairro problemático de Miami. Mas falta-lhe emoção, falta-lhe cravar as garras no espetador, falta-lhe a capacidade de nos deixar com o coração aos pulos.

SOUNDCHECK«1987» - de Miguel Araújo

Araújo deixou os Azeitonas e concentra-se num percurso a solo. O primeiro lançamento do novo álbum – perto de chegar – transporta-nos a um dos anos mais marcantes da minha vida, 1987.

Este portuense tem a rara capacidade de ser genial a escrever coisas simples. De falar sobre memórias e de envolvê-las numa roupagem muito doce. E é assim que ele nos recorda aquilo que foi o golo de calcanhar mais famoso do nosso futebol.

Um golo que o marcou para sempre.

«Quase que podia jurar

que foi golo de calcanhar

e o mundo é por aqui»

«O mundo é por aqui, eu vi

foi passe do Juary»

PS: «Volcano» - dos Temples

Aí está, fresquíssimo – editado a 3 de março – o segundo registo de estúdio dos rapazes de Northampton. O mesmo som aditivo, melífluo, carregado de quadras condenadas a entrar nas conversas de jovens e menos jovens.

Um álbum diferente do antecessor Sun Structures, agora mais voltado para sons eletrónicos. Um disco menos preconceituoso, menos dogmático.

«PLAY» é um espaço de opinião/sugestão do jornalista Pedro Jorge da Cunha. Pode indicar-lhe outros filmes, músicas e/ou livros através do e-mail pcunha@mediacapital.pt. Siga-o no Twitter.