Este é apenas o terceiro ano de Rui Mota como treinador principal. No entanto, este «curto tempo» já vale de muito. Estreou-se no Gila, da Geórgia, tendo deixado o clube que era apontado para a descida na liderança do campeonato.
Seguiu-se o Noah, da Arménia, onde ganhou a primeira Liga da história do clube. Juntou a isso uma participação nas competições europeias, algo inédito no país. O novo clube desbloqueado é o Ludogorets, campeão da Bulgária há 14 anos consecutivos.
A estreia como treinador principal tem «superado» as expectativas, como partilha em entrevista ao Maisfutebol. Rui Mota relembrou, ainda, de algumas surpresas negativas que já teve enquanto adjunto e falou da importância de se adaptar taticamente às realidades culturais.
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PARTE I: «Rui Mota: Ludogorets? Quando ganhas há 14 anos consecutivos és o alvo a abater»
Quando pensou em envergar nesta carreira de ser treinador, idealizou que iria passar por tantos países?
Não, não. [risos]. Não idealizei, mas também confesso que também não idealizava que o percurso fosse assim tão difícil de alcançar. Depois daquilo que foi a minha formação inicial, estava à espera que fosse mais fácil, sinceramente, chegar ao futebol profissional. A verdade é que consegui e estou muito grato de ter tido essa oportunidade. Sobre viajar por todo o mundo, não passou pela cabeça, embora seja algo que já faz parte da minha vida, Sempre viajei muito, e por isso acabou por ser fácil adaptar-me a essas novas realidades.
Como é que analisa estes primeiros passos como treinador principal?
Tem sido muito bom. Tem superado as minhas expectativas. Quando comecei no Dila (Geórgia), as perspetivas eram de formar uma equipa competitiva. A verdade é que tornamo-la tão competitiva que estávamos em primeiro lugar na altura quando saí. As coisas estavam a correr muito acima da expectativa, até porque a equipa, na altura, era dada como uma das equipas para não descer. A verdade é que os meus jogadores e todo o satff conseguiram provar que não podemos tirar ilações antes das competições iniciarem. Foi um começo muito forte. E depois, a passagem para o Noah (Arménia) com o propósito de lutar por títulos. Senti claramente que era um contexto que me ia possibilitar isso e também o aspeto de poder disputar competições europeias. Estou muito grato por tudo aquilo que se tem passado em muito pouco tempo. Tem sido uma ascensão muito rápida. Também, como disse, foram muitos anos de preparação para chegar aqui.
Já passou por várias Ligas. Em termos táticos, procura adaptar-se conforme o país e os jogadores ou acaba por ser fiel ao seu modelo de jogo?
Temos a nossa forma de jogar e o nosso modelo bem explícito. Agora, conforme as peças que temos à nossa disposição, temos que saber alterar. Por mais que um treinador tenha a sua filosofia, ou tem a capacidade de buscar jogadores para as posições que quer ou, então, tem que saber adaptar o seu modelo às características dos seus jogadores. Parto sempre por perceber o que é que cada um dos jogadores me pode dar, aquilo que são as suas dinâmicas já intrínsecas e que já estão cultivadas entre eles e aproveitar essas mesmas dinâmicas para desenvolvê-las e melhorá-las. Tem que haver uma análise, perceber qual é o contexto cultural do clube e do campeonato e perceber quais é que são as adaptações em função daquilo que é o nosso modelo de jogo.
Qual é que foi o país que o surpreendeu mais pela negativa?
Lembro-me da Arábia Saudita, ao início foi um bocado complicado, porque foi realmente uma diferença muito grande da nossa realidade quotidiana. Há outros dois clubes que sentimos maior dificuldade. Foi no Vasco da Gama, do Brasil, pela falta de qualidade que a equipa tinha. Nós estamos habituados a ver o Vasco com equipas com outro nível de coletivos e individuais. A verdade é que não encontramos essa qualidade que tanto esperávamos para fazer um bom trabalho. Depois, do ponto de vista cultural dentro daquilo que é o futebol, claramente na Turquia. Não estava à espera de encontrar uma falta de profissionalismo tão grande como encontramos ali no Gaziantep. Não de todos os jogadores, e a verdade tem de ser dita, mas da sua maioria. Faltou muito profissionalismo naquilo que é o dia-a-dia. Não estava à espera porque a Liga Turca é muito competitiva e tem grandes jogadores
Curiosamente apanha sempre portugueses nas suas equipas. O que tem de especial tem o jogador português?
Sobretudo, tem a ver também com as suas competências. Para já, enquanto profissionais, todos os que temos apanhado são profissionais completamente apaixonados pela profissão. E, depois, essa paixão leva-os a entenderem o jogo e para nós treinadores acaba por facilitar muito. Se calhar, com um outro tipo de cultura, precisamos de mais tempo para que eles entendam a nossa forma de jogar. Com o português é mais espontâneo, vamos assim dizer. Se calhar pela linguagem, mas, sobretudo, acho que tem a ver com a formação. É como disse há pouco, nós temos uma escola muito bem sistematizada. Temos a organização do futebol muito bem esclarecida e faz com que jogadores sejam muito capazes desde cedo.