Falar de Portugal e de Marrocos é falar de Diamantino Miranda e do único golo nacional à seleção africana em mundiais de futebol. Aconteceu em 1986 e não soube a nada.

Palavras do próprio Diamantino.

«O golo foi muito bonito, de costas para a baliza, fazendo um chapéu ao guarda-redes. Mas não soube a nada. Quase nem festejei porque não me soube a nada», conta Diamantino.

«Estava revoltado com a seleção, por isso entrei com aquela raiva de mostrar que tinha sido injustiçado. Foi o que fiz. Para além disso, estava 3-1 na altura, já não conseguíamos dar a volta ao jogo, por isso, tudo junto, não havia grandes motivos para festejar o meu golo num Mundial.»

Ora nesta altura impõe-se perceber por que fala Diamantino em raiva.

«Falo em raiva porque tinha sido titular nos dois primeiros jogos, tive uma participação ativa na vitória sobre a Inglaterra, portanto nada dava a entender que ia sair do onze. Há quem diga que eu só saí porque havia ordens superiores, de pessoas que não tinham nada a ver com a seleção, para que o Futre fizesse obrigatoriamente um jogo para se apresentar no Mundial com 19 anos.»

O golo de Diamantino foi aos 79 minutos e fez o resultado final. Portugal perdeu por 3-1 com Marrocos e acabou por ser eliminado do Mundial 86 na fase de grupos.

«Teoricamente parecia ser o jogo mais fácil do grupo. Tínhamos a poderosa Inglaterra, a quem Portugal nunca tinha ganho, tínhamos a forte Polónia, com excelentes jogadores, e tínhamos a desconhecida Marrocos. Naquele jeito tão português de acreditar em facilidades, deixámo-nos enredar por esse sentimento. No fim acabámos por perder, e perdemos bem», acrescenta.

«Curiosamente um empate servia para as duas equipas, ficava a Inglaterra de fora. Parece-me, segundo nos chegou na altura, que isso foi proposto pelo selecionador de Marrocos, que era um brasileiro, ao selecionador Torres. Mas o Torres não aceitou e o resultado ficou à vista.»

 

Ora a dois dias de defrontar Marrocos num Mundial de futebol, é impossível não recordar aquele jogo. Diamantino considera que serviu de aviso e que a Seleção não vai repetir os erros.

«Marrocos demonstrou que individualmente tinha melhor equipa do que nós supúnhamos. Tinha três ou quatro jogadores que até fizeram carreira em França. Por isso teve um comportamento notável, só sendo eliminado pela Alemanha com um golo de Matthaus mesmo no fim», frisa.

«O jogo não foi bem preparado por nós na altura, como aliás nenhum era, não por desconhecimento dos responsáveis técnicos, mas por falta de organização federativa. Se tivesse havido um mínimo de organização e de responsabilidade, aquela seleção podia ter ido longe.»

Nesta altura Diamantino recorda os erros cometidos no México, no triste capítulo de Saltillo. São erros de que toda a gente já ouviu falar e que serviram para começar uma nova era na Federação.

Na base desses erros esteve o presidente Silva Resende, diz Diamantino, o qual não soube criar uma organização profissional dentro da Seleção, em coisas tão simples como o planeamento.

«Dois anos antes tínhamos chegado às meias-finais do Euro 84, mas os problemas já existiam. Só que os resultados foram bons e as coisas foram sendo varridas para debaixo do tapete», conta.

«O presidente não estabeleceu regras, não estabeleceu um regulamento, não criou uma logística profissional, chegámos 21 dias antes do Mundial começar, estivemos a treinar em altitude, fizemos um jogo particular contra cozinheiros dos hotéis, treinámos num campo com cinco por cento de inclinação, a bola rolava para trás, enfim, quando o Mundial começou já estávamos cansados daquilo tudo. Depois veio a questão dos prémios, quando soubemos que a Adidas tinha dado um prémio em dólares que era para os jogadores e nunca ninguém nos falou sequer disso... Com tudo isto a acontecer, o Silva Resende estava na Cidade do México e com uma prepotência enorme recusou deslocar-se a Saltillo para falar connosco.»

 

A anarquia no México 86 foi tão grande que Diamantino nunca mais jogou por Portugal.

«Aos 26 anos, e depois daquelas confusões todas, abdiquei de jogar pela Seleção Nacional. Estava desiludido com tudo o que tinha acontecido.»

Por isso aquele golo, e aquela derrota, acabaram por marcar a despedida de Diamantino da equipa nacional. Uma despedida inglória, modestas e austera para um dos talentos do futebol português.

Voltando atrás no tempo, muito se falou e se escreveu depois do jogo com Marrocos, havendo até que tivesse culpado o histórico Vítor Damas pela derrota. Diamantino não vai por aí.

«Damas e Bento foram os melhores guarda-redes que vi jogar até hoje», começa por dizer.

«Acho que o Damas também não estava preparado psicologicamente para jogar. A lesão de Manuel Bento, que estava numa forma espetacular, abalou a equipa. Mas não se pode culpar o Damas. A culpa foi da equipa toda.»

Passados mais de vinte anos, Diamantino diz que não há razões para Portugal cometer os mesmos erros agora. Até porque esta Seleção é diferente, e esta Federação tem uma estrutura inatacável.

«Portugal já aprendeu, passado estes anos todos, que não devemos subestimar ninguém. Esta seleção de Marrocos tem muitas semelhanças com aquela que defrontámos em 86, tecnicamente é uma equipa muito evoluída e é guerreira, com uma intensidade muito boa», conta.

«Esta, como a de 86, não é uma equipa de contra-ataque, não joga em bloco baixo, pelo contrário, quer ter a bola e jogar no campo adversário.»

Diamantino espera, enfim, que desta vez os golos sejam para celebrar.