Uma pergunta: lembra-se da última vez que uma seleção sub-19 portuguesa esteve na final de um Campeonato da Europa?

É natural que não se lembre. Já passaram onze anos e na verdade não prestamos assim tanta atenção a estas coisas. Outra pergunta: dessa seleção de 2003, quantos jogadores estiveram, por exemplo, na convocatória de Paulo Bento para o Mundial 2014?

Resposta : apenas dois, João Pereira e Hugo Almeida.

Talvez deva retirar o
apenas . Foram dois. Nos últimos anos aceitámos que da formação não saía grande coisa, o que talvez também ajude a explicar ao que chegou a equipa nacional. Ter sucesso aos 19 anos, numa seleção portuguesa, deixou de ser garantia logo a seguir ao Mundial de Lisboa, em 1991.

As razões são relativamente simples.

Por um lado, é mesmo assim. O futebol de alto nível é um funil. Só passam alguns.

Por outro lado, nos últimos anos acentuou-se a circulação internacional de jogadores. O futebol é um negócio, comprar e vender chega a parecer tão ou mais importante do que o jogo.

Por último, não se desfez o preconceito quanto à idade do jogador. Portugal deve ser o país da Europa em que os futebolistas possuem a menor esperança de vida: aos 22 ainda são miúdos e não têm experiência, aos 30 já estamos fartos deles.

Quinta-feira, às 18 horas, lá estaremos todos a torcer por algo que não faz sentido:
Portugal vencer a Alemanha, na Hungria .

Não fazer sentido é diferente de não poder acontecer.
Claro que pode . Esperemos que aconteça, porque ganhar é bom, não me entendam mal. Se isso suceder será apenas porque o futebol é um desporto fantástico onde o improvável sucede. Nem estou a pensar nos 4-0 do Brasil, tão recentes, mas a realidade é que um mundo separa o futebol alemão do português.

A Bundesliga impôs-se como o campeonato que mais cresceu nos últimos anos. Organizado, com boas equipas, bom futebol, excelentes jogadores e estádios cheios. Em Portugal nem conseguimos eleger o presidente da Liga, esqueçam o resto.

Na Alemanha a aposta nos mais jovens foi assumida há mais de uma década. É sólida e coerente. Nós por cá formamos jogadores que depois dispensamos para os belgas, emprestamos aos franceses ou perdemos para os turcos.

Os modelos dos nossos campeonatos para jovens são ridículos. As equipas B estão repletas de estrangeiros e casos mal resolvidos dos plantéis principais. E mesmo quando os ex-juniores têm espaço, raramente se percebe qual o passo seguinte. Os clubes não demonstram possuir planos de carreira para os futebolistas que formam.

Uma análise às seleções alemã e portuguesa expõe as diferenças, a experiência de uns e outros.

No onze germânico que goleou a Áustria, cinco jogadores já competiram na Bundesliga. Integram plantéis de clubes, são opção para os treinadores. Tiveram oportunidade de defrontar alguns dos melhores do mundo. Treinaram com as referências do clube.
Sentem que, se nada de errado suceder, o seu futuro passará por ali .

A Bundesliga tem feito um esforço no sentido de reduzir o número de estrangeiros por equipa. Porque os clubes percebem a vantagem da formação. Além de ter, em média, onzes mais jovens, a Alemanha caminha para os 60 por cento de jogadores formados no país. Uns dias depois da eliminação da Inglaterra, no Mundial 2014, Joachim Low abordou o tema. «Ter muitos estrangeiros na Premier League é parte do problema da Inglaterra», disse. E acrescentou. «Mudámos muita coisa a partir de 2009 e muitos jovens alemães estão a aparecer». Na Liga inglesa não há lugar para mais de 30 por cento de futebolistas formados em casa.

Em Portugal, como sabemos,
os estrangeiros abundam. «A Liga portuguesa continua a estar no «top 5» no que diz respeito a jogadores estrangeiros. Houve um ligeiro decréscimo este ano, mas ainda assim são mais de metade: 52,1 por cento. Portugal é o quinto campeonato que mais recorre a estrangeiros, atrás apenas de Chipre (63.8), Inglaterra (60.4), Itália (54.1) e Turquia (53.1). Ao todo 208 estrangeiros para 399 jogadores nas 16 equipas da Liga. O Belenenses é o clube que aparece com mais portugueses no plantel, 17», escreveu o Maisfutebol em Abril. E acrescentou. « Quanto à formação, Portugal tem apenas 12 por cento jogadores oriundos das escolas dos clubes a representar as equipas principais, o quarto registo mais baixo entre os 31 campeonatos analisados por este estudo, à frente apenas da Rússia, Turquia e Itália. Só há três clubes da Liga acima da média europeia: Sporting (33 por cento), Marítimo (28) e V. Guimarães (23,1). No outro extremo estão Olhanense e Arouca, com zero jogadores formados. O Benfica tem 6,9 por cento e o FC Porto 4,2 por cento.»

Não deixa de ser irónico. No onze que eliminou a Sérvia estiveram cinco jogadores do FC Porto. Mais três do Sporting, um do Benfica, outro do Manchester City e o guarda-redes do Ribeirão. O maior fornecedor de talento, o FC Porto, é precisamente aquele que tem o pior histórico recente de aposta em jovens.

Destes onze, apenas Ronny Lopes já competiu na primeira equipa, neste caso o Manchester City. Cinco já passaram pela II Liga, via equipas B. Os restantes andaram pelos juniores. Esta também é uma diferença para a Alemanha, onde os jogadores são mais cedo chamados à competição com seniores, em escalões mais baixos. Competem com homens, crescem mais depressa.

Em Portugal a formação é poucas vezes discutida. De resto, dirigentes, treinadores e adeptos raramente se disponibilizam para analisar o tema. Desde que a bola entre, ou pelo menos exista a possibilidade de isso acontecer, não há perguntas.

Espero sinceramente que o talento, a organização e a serenidade deste conjunto de jogadores portugueses seja suficiente para derrotar a Alemanha. Em apenas 90 minutos, já sabemos que é possível. No resto da carreira de cada um deles será bem mais complicado. Mas com isso ninguém se preocupa.