Benfica e Sporting vão lutar pelo título até ao último fôlego desta Liga.

A equipa de Rui Vitória, a depender de si e com uma Luz a abarrotar e em estado de ebulição, está um passo à frente, depois de exibição competente, com menos um desde a primeira parte – Renato Sanches pagou caro pela juventude, mas continuará a ser, mesmo depois do erro, uma das figuras da temporada –, bem antes de Mitroglou inaugurar o marcador, nos Barreiros.

São, claramente e de longe, as melhores duas equipas da Liga, e nem seria preciso escrevê-lo, com alternância de momentos de alta intensidade no campeonato.

O Sporting a acabar imponente e com várias manifestações de força, mas depois de comprometer – em casa com Paços de Ferreira e Rio Ave, e nas visitas a Boavista, União da Madeira e Vitória de Guimarães, na véspera de perder o dérbi que, face ao momento, não podia perder e que permitiu a primeira liderança ao Benfica. Esse foi, confirmando-se a festa dos encarnados no final da partida frente ao Nacional, o verdadeiro jogo do título. 

Se a Liga do Sporting, a sua grande e talvez única aposta, é de elogiar até à exaustão, bem como o trabalho de Jorge Jesus, que conseguiu unir todas as pontas soltas e carregar a equipa até este ponto, é preciso não esquecer que a recuperação dos encarnados, também até aqui, é épica e exemplar.

Rui Vitória e os jogadores tiveram de lidar com oito pontos de atraso – face ao adiamento do jogo com o União, na Madeira – e a visita a Braga pelo meio, sob pressão de terem mesmo de ganhar ou o ponto e vírgula passaria mesmo a ponto final nas aspirações a revalidar o título. Estiveram seis jornadas consecutivas a essa distância, e reduziram para sete com o nulo, que parecia comprometedor, no acerto de calendário. O Benfica esteve afastado do título, e renasceu das cinzas, com uma série de triunfos impressionante.

Resistiu ainda a mais um clássico perdido, depois de uma grande exibição de Casillas na Luz, que novamente não dava segurança quanto ao futuro.

É claro que para isso a equipa teve de unir-se em torno do seu líder. Continuo a achar que foi aí que Jorge Jesus deixou que o campeonato se reequilibrasse, com declarações infelizes sobre Ferraris e ausência de treinadores. A partir desse momento, Rui Vitória conseguiu ser finalmente consensual, ter o grupo a cerrar os dentes e as bancadas a uma só voz.

Diga-se o que se disser, o campeão é sempre um justo campeão. Hoje e no passado. Mas se no fim quiserem continuar a discutir vitórias morais, de um ou do outro lado, é convosco. A Liga que agora se aproxima do fim foi tão dividida que ainda mais se aceita que um ou o outro festejem o caneco.

Esta luta titânica entre os dois grandes rivais, que atingiu proporções feias fora dos relvados, também resulta de semelhanças impressionantes assim que estabilizaram, das quais certamente Jorge Jesus, pela personalidade, até pode continuar a reclamar a paternidade.

Desde logo, o desdém pela simetria.

Benfica e Sporting evoluíram de um 4x4x2 mais linear e tradicional, embora com raízes bem mais profundas na Luz. Jonas implicava a Vitória manter dois na frente, e a reequilibrar no meio-campo. A ausência de Salvio e a quebra de Guedes levaram a uma decisão muito importante para a consistência da equipa: a colocação de Pizzi sobre a direita, libertando-o para uma interioridade, que compensava a inferioridade numérica no miolo. Como o ex-Atletico Madrid, ao contrário de Jesus, não tinha o estatuto de médio-centro para o técnico, foi preciso esgravatar até encontrar o jovem Renato Sanches, que chegaria com riscos, mas também com margem segura para errar – a ausência de opções consistentes ajudou a garantir essa mesma margem, mas não deixar de ser de sublinhar o espaço que foi dado a Renato por parte dos responsáveis num clube tão exigente como o da Luz. Em Alvalade, a necessidade do encaixe de William, Adrien e João Mário obrigou também a colocar o mais inteligente em campo dos três num dos flancos, para também procurar espaços interiores e exteriores.

Bryan Ruiz foi a referência de classe que Gaitán é há anos na Luz, também com carta-branca para daí sair para o meio e desequilibrar. E Rui Vitória precisou de reencontrar no regresso de Fejsa à boa condição física um 6 mais físico e fixo como William, embora talvez um pouco mais profundo, deixando no jovem Renato todo o peso da construção. Uma verticalidade parecida com a de Adrien no rival, contudo com diferenças normais ao nível da maturação num jogador mais feito.

Se Jesus não teve em Teo a proficuidade de Jonas, embora o colombiano, também mais móvel como o brasileiro, tenha voltado aos bons momentos nesta reta final, Slimani e Mitroglou são referências importantes como números 9, com a influência do argelino a ser ainda superior no sucesso da sua equipa.

Atrás, surge a principal diferença. Maior conservadorismo na Luz nas laterais, sobretudo a partir do momento em que Semedo se lesionou, e a necessidade de em Alvalade se procurar a largura no ataque com a experimentação de vários nomes, à direita e à esquerda, onde as lesões de Jefferson complicaram.

Ambos os treinadores foram até aqui capazes de extrair mentalmente, em momentos de grande pressão, o melhor dos seus jogadores, com destaque para Rui Vitória, obrigado a recorrer-se de mais nomes outside the box, ou melhor, nomes com quase tudo por desbravar na equipa, como Ederson, Lindelof, Renato, Gonçalo Guedes, e outros que não correram tão bem como Victor Andrade ou Clésio.

Tudo dito, que venha a última jornada e o campeão! 

 

LUÍS MATEUS é subdiretor do Maisfutebol e pode segui-lo no TWITTER. Além do espaço «Sobe e Desce», é ainda responsável pelas crónicas «Era Capaz de Viver na Bombonera» e «Não crucifiquem mais o Barbosa» e pela rubrica «Anatomia de um Jogo».