José Mourinho já o disse: «o que o FC Porto está a fazer não é normal».  E não é.

Com 18 equipas na Liga, nunca alguém tinha somado tantos pontos numa primeira volta do campeonato.

A equipa de Farioli ainda não perdeu e quase não sofre golos na prova. É preciso recuar 30 anos para encontrar um registo defensivo melhor: o FC Porto de Bobby Robson sofreu apenas três golos durante a primeira volta do campeonato - e, ainda assim, somou menos pontos.

Há, no entanto, uma diferença significativa: essa equipa de Robson (com José Mourinho e Augusto Inácio como adjuntos) estava «feita», carburava desde a época anterior; era campeã - essa temporada foi a segunda do famoso «penta»; já Farioli pegou numa equipa reconstruída «à pressa» no defeso, entrou na nova época a todo o vapor e tem estado (quase) imparável – só o Benfica resistiu no Dragão durante a primeira metade da prova.

A descrença e a desconfiança em redor dos portistas, depois da temporada que tinham feito, podem até ter jogado a seu favor: a equipa de André Villas-Boas contratou bem, de forma discreta e eficaz; os reforços foram isso mesmo, reforços; e até um talento invulgar (para dizer o mínimo) como Rodrigo Mora – tantas vezes a única labareda de inspiração na época anterior – passou a ter dificuldades para entrar na equipa.

Outro aspeto fazia duvidar (ou, pelo menos, olhar com sobranceria) para este Porto de Farioli: o técnico italiano vinha de deixar escapar por entre os dedos o título nos países Baixos, onde o Ajax chegou a ter uma vantagem confortável – se não fosse isso, provavelmente não estaria em Portugal. Depois de terem falhado as apostas em Vítor Bruno e Martín Anselmi, porque haveria esta de resultar?

Farioli foi capaz de superar tudo isso e de montar uma equipa de acordo com as suas ideias. E quando os rivais perceberam o que estava a acontecer, já o Dragão ia embalado.

Tudo isto numa época marcada pela morte de Jorge Costa em agosto - a juntar ao desaparecimento de Diogo Jota e André Silva, com passado no clube, um mês antes. O Olival foi palco de um turbilhão de emoções.

Farioli é bom treinador, já se sabia. Quem tivesse visto as suas equipas anteriores a jogar não duvidaria. Faltava saber como se integraria num clube com idiossincrasias tão vincadas e num momento delicado. Fê-lo com sucesso, interiorizou o discurso típico do clube (às vezes até com exagero) e fez disso uma arma. Agora tem de lidar com o resto.

O FC Porto entra na segunda volta com um avanço confortável. Se muitas vezes passou quase despercebido, agora está, definitivamente, no centro das atenções; é o alvo a abater.

Haverá quem recorde Farioli da sua última época no Ajax; compete-lhe perceber o que aconteceu antes e impedir que volte a suceder.

O técnico italiano será o primeiro a dizer que o FC Porto ainda não ganhou nada.