Mais de 70 anos antes de nomes como Lukas Podolski e Miroslav Klose lembrarem, a todos os adeptos do futebol internacional, como pode ser ténue a linha que separa alemães e polacos, um outro grande avançado do seu tempo foi intérprete de primeiro plano dessa complicada relação de vizinhança. Chamava-se Ernst Wilimowski, «Ezi», por alcunha, e o seu percurso de vida acompanha uma parte sombria da história do século XX.

Tecnicamente, não é correto considerá-lo um soldado desconhecido. Soldado, sim, mas pelo menos para os curiosos da História dos Campeonatos do Mundo, o nome de Wilimowski é relativamente familiar, ou não tivesse sido o primeiro jogador a marcar quatro golos num só jogo em Mundiais.

Aconteceu a 5 de junho de 1938, no estádio La Meinau, em Estrasburgo, na derrota da Polónia com o Brasil, por uns inacreditáveis 6-5, após prolongamento. Esse foi o jogo que revelou ao Mundo o talento do brasileiro Leónidas, o Diamante Negro. E foi também o ponto mais alto da carreira de Wilimowski, registado para a posteridade neste pequeno filme do Instituto Francês do Audiovisual em que os polacos aparecem de camisola branca:

Nessa altura Wilimowski ainda não tinha 22 anos, mas já era uma das vedetas do Ruch Chorzow, à época o maior clube da Polónia, cinco vezes campeão entre 1933 e 1938. Filho de um soldado alemão, morto em combate na I Guerra Mundial, o jovem Ernst nasceu em Katowice, em 1916, numa altura em que a cidade ainda fazia parte do império do Kaiser. Foi batizado como Ernst Prandella, em homenagem ao pai, desaparecido na frente ocidental.

Em 1922, Katowice e a Silésia passaram a ser parte integrante da Polónia, e a infância do jovem órfão de guerra foi passada entre os dois países, com um pé em cada lado da fronteira. Até que, perfilhado pelo padrasto polaco aos 13 anos, cortou momentaneamente os laços com a Alemanha e herdou o nome de família pelo qual ficaria conhecido.

Atlético e enérgico, apesar dos tempos difíceis entre guerras, destacou-se desde cedo pelo entusiasmo com que perseguia bolas de futebol e por um sinal particular: tinha seis dedos no pé direito, o que em nada atrapalhava a facilidade e potência de remate com qualquer uma das pernas. Aos 17 anos, Ezi trocou o clube germanófilo da cidade natal e assinou pelo Ruch, que tinha acabado de sagrar-se campeão. Os seus 33 golos na época de estreia valeram-lhe o título de melhor marcador do campeonato e confirmaram a todos os seguidores que um fenómeno tinha acabado de chegar ao futebol polaco.

Os quatro anos que se seguiram, até à tarde dos quatro golos ao Brasil, são um relato monocórdico de golos, troféus e recordes batidos – com uma exceção: o castigo aplicado pela federação polaca, em consequência de uma noitada bem regada com álcool, em plena concentração - que o afastou da equipa que participou nos Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim.

Não se deu aí o seu primeiro contacto com o nazismo e Adolf Hitler, mas a História não o deixou esperar muito. Na madrugada de 1 de setembro de 1939, apenas quatro dias depois de uma exibição memorável de Wilimowski, autor de um hat-trick na vitória da Polónia (4-2) sobre a poderosa Hungria, as forças alemãs arrasaram a cidade de Wielun, matando 1200 civis. Começava a II Guerra Mundial, e o futebol internacional teria de ficar entre parêntesis por quase uma década.

Outra vez alemão

Com a Polónia arrasada em poucos dias, Wilimowski valeu-se das origens paternas para recuperar cidadania alemã, o que o deixou a salvo dos primeiros conflitos: os nazis queriam desportistas de elite para alimentar a máquina de propaganda, e o goleador de Katowice foi autorizado a prosseguir a carreira, como bom ariano. Chemnitz e TSV Munique foram os clubes que herdaram os seus dotes goleadores, com o segundo a conquistar a Taça da Alemanha, em 1942, com um golo de Wilimowski na final.

Por essa altura, ainda o III Reich acreditava que conseguiria impor a sua lei em toda a Europa, com a seleção alemã a participar em alguns particulares com seleções de países ocupados. Depois de 21 golos em 22 jogos pela Polónia, Wilimowski, cujo eficácia goleadora não diminuia com as agruras da guerra, estreou-se com a camisola da Mannschaft em junho de 1941, cinco dias antes de completar 25 anos. Marcou dois golos, os primeiros dos 13 que apontou em oito jogos, até novembro de 1942. A partir dessa altura, a II Guerra deu a volta e a Alemanha deixou de ter tempo para pensar em futebóis.

Integrado na Wehrmacht, Wilimowski teve a sorte de escapar aos combates mais duros e a rendição alemã, em 1945, encontrou-o ileso e de boa saúde. Ainda não tinha 30 anos, e pôde, por isso, retomar a carreira a partir de 1946. Só deixou de jogar em 1959, já bem depois dos 40 anos, numa altura em que o futebol alemão tinha voltado a ser aceite pela comunidade internacional e, com o título mundial de 1954, recuperava o estatuto de grande potência.

A relação de Wilimowski com a Polónia, essa, ficou irremediavelmente cortada: o seu comportamento, mesmo explicado pelas circunstâncias e pela necessidade de sobrevivência, fez com que passasse a ser considerado um traidor pelas autoridades de Varsóvia. Em 1974, em pleno Mundial da Alemanha, o antigo goleador tentou uma reaproximação, mas o selecionador polaco, Kazimierz Gorski, que o considerava um ídolo de infância, não lhe permitiu visitar a seleção que conquistaria, nesse ano, o terceiro lugar. Até morrer, em 1997, o homem dos seis dedos não voltaria ao país natal. Só o passar do tempo permitiu reavaliar os seus dotes de futebolista e goleador, um dos mais prolíficos da história do futebol europeu.

Soldados desconhecidos é uma rubrica dedicada a figuras pouco conhecidas da história do futebol, com percursos de vida invulgares.