Quando, a 16 de março deste ano, Lionel Messi apontou este golo, o segundo dos seus três ao Osasuna, na vitória do Barcelona por 7-0, tornou-se oficialmente o melhor marcador da história do clube catalão, retirando Paulino Alcantara do topo de uma lista onde permaneceu durante 86 anos.

A pergunta, feita em simultâneo por milhões de adeptos de futebol em todo o mundo - «Paulino quê?» - levou à redescoberta da fascinante história de vida de uma das grandes glórias esquecidas do futebol espanhol: o «fura-redes» das Filipinas que, depois de marcar 369 golos em 15 anos de carreira pelos catalães, se reconverteu em médico das forças de Franco, durante a Guerra Civil espanhola.

Nascido na cidade de Iloílo, filho de um militar espanhol e de uma nativa da ilha de Panay, Paulino acompanhou a família na viagem para Espanha, em 1899, quando as Filipinas deixaram de ser colónia espanhola, tornando-se protetorado norte-americano. Com apenas três anos, chega a Barcelona no ano em que um emigrante suíço, Hans Gamper, decide criar na Catalunha um clube que replica na camisola as cores do «seu» Basileia.

Amparado por uma família conservadora de posses, o jovem Paulino descobre em 1909, aos 12 anos, um fenómeno de popularidade nas classes ricas da cidade: um jogo de futebol. O entusiasmo pela equipa azul grená leva-o a apresentar-se a Gamper, que o acolhe, e lhe dá as primeiras noções do jogo. Predestinado para desportos, o miúdo aprende rapidamente e ganha alguma reputação entre os «amateurs» que vão desbravando caminho para popularizar o futebol.

Com apenas 15 anos, mostra-se ao jogador-treinador do Barcelona, o inglês Jack Greenwell, que fica convencido por aquele adolescente franzino, de pernas finas, que passa horas a aperfeiçoar a técnica de remate contra uma parede. Paulino chuta com mais força do que qualquer adulto, mas Greenwell quer lançá-lo como defesa. Dando mostras de personalidade forte, o jovem estudante recusa e é apoiado por alguns companheiros de equipa. A 15 de fevereiro de 1912, com 15 anos e três meses, estreia-se, como avançado, frente aos rivais do FC Catalá. Marca três golos numa vitória por 9-0. Nasce uma lenda.

Nos quatro anos seguintes, Paulino marca golos às dezenas e torna-se o primeiro ídolo popular do FC Barcelona. Quando a pressão familiar o leva a regressar às Filipinas para terminar os estudos em medicina, em 1916, o clube ressente-se. Paulino leva uma camisola do Barcelona na mala, e é com ela que participa nos jogos amadores entre os entusiastas locais. Distingue-se tanto que é convidado para representar a seleção do arquipélago nos jogos asiáticos, contribuindo para uma goleada épica sobre a frágil seleção japonesa (15-2).

Mas as saudades de Barcelona falam mais alto: em 1918 volta ao clube, é acolhido como um herói e torna-se capitão de equipa. Ainda não há Liga, o troféu que conta é a Taça do Rei. Conquista cinco, entre 1913 e 1926. Vai construindo, golo a golo, uma reputação sem precedentes, que o leva, sem surpresa, à seleção espanhola. Estreia-se em outubro de 1921, com 25 anos recém-cumpridos e marca os dois golos na vitória sobre a Bélgica.

Paulino Alcantara, de branco, à direita, no jogo com Portugal

Dois meses depois, volta a bisar: o adversário é Portugal, que faz o seu batismo internacional nesse 18 de dezembro, em Madrid, perdendo por 3-1. Alcantara é o primeiro jogador a marcar golos à seleção portuguesa, com quem voltaria a cruzar-se em 1923, na sua última presença. Pelo meio, em abril de 1922, o incidente que lhe vale a alcunha definitiva: um remate de longa distância, numa goleada da Espanha à França, em Bordéus(0-4), entra e sai da baliza, aproveitando um buraco na rede. Nasce a lenda do «fura-redes» asiático, o matador cuja potência de chuto é uma ameaça para os espectadores nas imediações da baliza. 

O estilo do matador

Inteligente, Paulino percebe que o futebol rudimentar daqueles tempos, que regra geral consistia em levar a bola o mais longe possível, pode ser contrariado por combinações a dois e a três jogadores. Vai passando a mensagem aos companheiros, contribuindo para tornar o jogo do Barcelona invulgarmente sofisticado para os padrões da época.

Entretanto, a família nunca o deixa perder a noção das prioridades: por vezes faltava a jogos para preparar melhor os examesdo curso de medicina, o que não o impede de elevar o seu total para uns assombrosos e irrepetíveis (pensava-se) 369 golos em 357 jogos. O futebol espanhol encaminha-se a passos largos para a criação da Liga, mas o «fura-redes» não espera, abdicando da possibilidade de se tornar campeão. Em 1927, com 31 anos, e um ano antes da edição inaugural, Paulino considera que já se divertiu o suficiente e decide terminar a carreira, dedicando-se à medicina, no ramo da urologia.

A sua popularidade na cidade é enorme: com apenas 27 anos, já tinha publicado um livro de memórias, de grande sucesso. Nele, defende os conceitos britânicos de desportivismo e amadorismo puro, reservado às elites. Sinais de um conservadorismo que se manifesta quando a Espanha entre em guerra civil. A Catalunha pega em armas e torna-se um símbolo para as forças republicanas.

Paulino não hesita em escolher o outro lado: militante da falange de Primo de Rivera, foge para Andorra e França quando as forças franquistas são derrotadas em Barcelona. Apresenta-se como voluntário e participa durante um ano em várias operações militares, sendo nomeado alferes. Depois, alista-se no batalhão misto formado por voluntários italianos e espanhóis, os «Flechas Negras», que defendem os ideais comuns a Mussolini e a Franco.

O médico que sucedeu ao «fura-redes»

Regressa a Barcelona como vencedor, em janeiro de 1939, no final de uma guerra que custou mais de 500 mil vidas. Aí continua a exercer medicina, até a morte (por anemia aplásica) o surpreender, em 1964. A tradição autonómica e de oposição ao regime de Franco, associada ao clube, fez com que o seu nome fosse, durante muitos anos, relegado para segundo plano: a identidade culé não convive bem com a evidência de que um dos seus maiores símbolos foi um franquista convicto. Mas, 50 anos depois do seu desaparecimento, surgiu Messi, a pulverizar recordes e a amnistiar as más memórias, trazendo de volta à ribalta o homem das pernas finas e pontapé-canhão.

Soldados desconhecidos é uma rubrica dedicada a figuras pouco conhecidas da história do futebol, com percursos de vida invulgares.