o primeiro árbitro a reclamar para si o estatuto de estrela foiSoldados DesconhecidosMata-gatos

Por agora, talvez valha a pena começar por dizer que Leo Horn foi várias vezes talismã para o futebol português. Um dos árbitros mais cotados do seu tempo, foi ele a dirigir a segunda final europeia ganha pelo Benfica, em 1962, diante do Real Madrid (5-3), em Amesterdão. E foi ele, também, quem dirigiu o Portugal-Checoslováquia que, em outubro de 1965, nas Antas, apurou pela primeira vez a seleção portuguesa para a fase final de um Campeonato do Mundo.

Pelo meio, há também esta foto, sorridente, numa visita de cortesia ao balneário do Benfica, em abril de 1963, quando os encarnados empataram 0-0 em Roterdão, com o Feyenoord, na meia-final da Taça dos Campeões Europeus.

Eusébio e Leo Horn

Mas o seu percurso de vida torna-o uma figura fascinante bem antes desses cruzamentos felizes com o futebol luso. Nascido em 1916, no seio de uma família judia de Sittard, Horn teve um percurso fugaz como jogador, até uma lesão no joelho o obrigar a mudar de planos, quando já morava no bairro judeu de Amesterdão.

Com apenas 17 anos, as primeiras experiências como árbitro permitiram-lhe encontrar uma vocação: a personalidade forte e o físico imponente faziam-no destacar-se. A dedicação à causa também: diz a lenda que depois de dirigir os jogos para que estava nomeado, percorria de bicicleta outros campos em Amesterdão, à procura de encontros a que os árbitros tivessem faltado, para ganhar mais rodagem e para se tornar notado junto dos dirigentes da federação holandesa, KNVB.

A dedicação deu frutos: em 1938, com apenas 22 anos, tornou-se juiz de primeira categoria, acumulando a função com um emprego numa fábrica de têxteis - essa viria a ser a sua área profissional de sucesso, pela vida fora. Mas em 1939 rebenta a II Guerra Mundial. A família Horn já tinha experimentado várias formas de descriminação antissemita, mas a partir de 1940, Amesterdão, rapidamente ocupada pelos nazis, torna-se um lugar irrespirável. A família mais próxima de Leo deixa a cidade e refugia-se no campo. O filho mais velho dos Horn, Edgar, passa à clandestinidade, entra na Resistência, mas é capturado pelos nazis e acaba por morrer, em 1943, no campo de Sobibor.

Leo escolhe outra via: permanece em Amesterdão, sob falsa identidade, muda de bairro e passa ser conhecido como dr. Van Dongen. Circula pela cidade com uma bicicleta identificada com o bastão de Esculápio, símbolo da medicina. E, na sombra, junta-se a uma célula da Resistência, com uma dezena de elementos, que se especializa em sabotagens e roubos de armas às forças ocupantes.

O mundo é pequeno, e Amesterdão durante a II Guerra ainda mais. O líder do grupo, que se torna num dos grandes amigos do Dr. Van Dongen chama-se Kuki Krol. Depois da Guerra será pai de um rapaz, chamado Ruud, que, com a camisola do Ajax e da seleção holandesa se tornará num dos melhores defesas de sempre, três vezes campeão da Europa e duas vezes finalista vencido em campeonatos do Mundo.

Ruud Krol

Com o fim da Guerra, Horn regressa ao negócio dos têxteis e à arbitragem. É a normalidade possível: até morrer, em 1995, nunca mais deixou de recorrer a calmantes para conseguir dormir. E as agruras da ocupação nazi custam-lhe, além da vida do irmão mais velho, um primeiro casamento, destruído pela clandestinidade. Sem filhos, com mais tempo para dedicar à nova causa, Leo Horn torna-se obsessivo. Cinturão negro de judo, não hesita em usar o físico para controlar jogos mais duros. Extrovertido – vaidoso, segundos os críticos – troca, sempre que pode, a camisola preta oficial por casacos cor de vinho, ou verdes, que se tornam uma espécie de assinatura.

Em 1951, com 35 anos, ganha as insígnias da FIFA e, dois anos mais tarde, já tem reputação suficiente para ser chamado a dirigir um dos jogos mais importantes da história do futebol. Em Wembley, a 25 de novembro de 1953, a Hungria torna-se a primeira seleção continental a ganhar em casa dos inventores do futebol. A goleada à Inglaterra (6-3) assinala o nascimento de uma lenda. E Horn, inicialmente contestado pelos húngaros, que receavam uma conspiração com motivos políticos, liderada pelos ingleses, deixa Londres com o respeito de vencedores e vencidos.

Wembley, 1953: Horn dirige o Jogo do Século

Num futebol holandês ainda longe da glória trazida pela geração de Cruijff, nos anos 60, o árbitro torna-se uma vedeta. Mais ainda quando dirige a final da Taça dos Campeões, entre Real Madrid e Fiorentina, em 1957 (2-0). Colunista de jornal, excelente entrevistado, usa as atenções que lhe dedicam para se promover, e não poupa críticas a dirigentes, treinadores e até mesmo jogadores. A palavra fácil e as poses para a câmara arranjam-lhe alguns inimigos, em especial no universo da arbitragem. Talvez por isso tenha acabado por ser preterido no Mundial de 1962, quando parecia claro favorito a dirigir a final, depois de três excelentes atuações na primeira fase.

Por essa altura, já tinha dirigido a sua segunda final da Taça dos Campeões, a tal em que o Benfica bateu o Real Madrid e Di Stéfano passou o testemunho a Eusébio. Os merengues criticaram Horn, acusando-o de ter deixado passar um penalti sobre Di Stéfano, com o resultado ainda em 4-3. Fiel ao seu estilo, o holandês foi duro na resposta: «O momento decisivo do jogo foi com 4-3, sim, mas foi quando Di Stéfano, isolado, não conseguiu fazer o empate e rematou contra o guarda-redes. Se alguém tirou alguma coisa ao Real Madrid foi esse lance. No outro, ninguém fez falta. Estava bem colocado, se a tivesse visto apitava». A partir do minuto 3.45, as imagens parecem dar-lhe razão:

Ainda assim, Puskas não lhe poupa críticas e insinua no fim do jogo que Horn tinha um preconceito a favor do treinador do Benfica, Bella Guttmann – tal como Horn, um judeu forçado à clandestinidade durante a II Guerra Mundial. Pouco importa: o prestígio internacional de Horn mantém-se intacto e à conta disso dirige ainda duas finais da Taça Intercontinental, em 1963 e 1964.

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Horn, sempre amigo das câmaras

Em paralelo com a carreira na arbitragem, Horn desenvolveu uma paixão por cavalos e pela caça. Será esse hóbi a estar na origem de um dos episódios mais caricatos da sua vida: em 1963, quando praticava com a sua arma de caça, Horn atinge mortalmente um gato, que julgava ser um animal selvagem. Era, afinal, o bicho de estimação de um dos seus vizinhos, que apresenta queixa na polícia. O caso chega a tribunal, Horn é considerado culpado e tem de pagar uma multa.

A história chega aos jornais e alguns dos seus adversários não perdem a oportunidade de ajustar contas com a língua afiada do juiz-vedeta. Contrastando com a sua figura imponente, Horn ganha uma alcunha ridícula: Kattenmepper, o Mata-gatos. E torna-se frequente, na entrada em campo das equipas, o árbitro ser saudado com um prolongado «MIIIAAAW!» vindo da bancada, seguido de risos, que minam a sua autoridade de forma irremediável.

Em 1966, com 50 anos, Horn ainda tem esperança de ser chamado ao Mundial de Inglaterra, mas chega-lhe aos ouvidos que a FIFA o vai excluir da lista final. Pouco dado a subtilezas diplomáticas, escreve uma carta aberta aos responsáveis da FIFA, que não o ajuda nada. Depois arrepende-se, mas já é tarde. Obrigado a ver o Mundial pela TV, decide pôr fim, nesse verão de 1966, a uma carreira invulgarmente preenchida. Quase tão preenchida como a vida atribulada do Mata-gatos, talismã de portugueses, judeu perseguido, membro da Resistência, falso médico, e, para o que nos interessa aqui, um das primeiras estrelas do futebol a atingir a fama graças a um apito.