«o maior futebolista que nunca viram jogar»homem que tinha sexta-feira no nome, e as noites de sexta-feira no sangue. 

Pouco ou nada é convencional no trajeto deste estranho cometa futebolístico. Por isso, tiremos já o convencional do caminho, enumerando os factos básicos para lhe definir o contexto. Era avançado centro. Nasceu em Londres. Tornou-se profissional em 1974, com 21 anos. Acabou a carreira aos 25, já dependente das drogas duras que acabariam por matá-lo. Jogou no Reading, que ajudou a promover à terceira divisão. No último dia de 1976, a troco de 28 mil libras, foi para o Cardiff, da segunda divisão. Aguentou menos de um ano até esgotar a paciência de toda a gente – a sua, em primeiro lugar – e sair de cena.

O saldo de 60 golos em 160 jogos oficiais não lhe valeria sequer uma nota de rodapé na história do futebol inglês. Na seleta galeria de jogadores de culto, subsecção talentos malditos, que os britânicos prezam como poucos, talvez mais nenhum tenha feito tão pouco para o tanto que dele se recorda. A comparação com George Best, pelo talento, pelo estilo de vida, e pelos contornos do penoso declínio, é quase tão incontornável como o rótulo. Mas Friday foi um concentrado de Best: fez tudo a uma escala mais pequena, na dimensão e no tempo, e de forma muito mais potente. Se Best, a primeira popstar do universo da bola, ganhou a alcunha de «quinto Beatle», Friday foi Sid Vicious: trouxe o punk para o futebol e foi-se embora, para morrer cedo, distribuindo insultos e gestos obscenos em redor.

A verdade é que, dando razão ao título do livro, 40 anos depois da sua meteórica carreira como profissional nas divisões secundárias de Inglaterra, há cada vez menos quem realmente o tenha visto jogar. Quem viu, conta que os outros perderam muito. Não se prendam com o facto de estarmos a falar de divisões secundárias, e de não haver honras de TV, muito menos replays em super slow motion para lhe eternizar os gestos: dá vontade de acreditar no retrato traçado pelas palavras dos happy few. Forte, atrevido, temperamental, como é da praxe nos avançados ingleses, Friday tinha também qualidades técnicas invulgares, que o faziam destacar-se na legião do kick and rush desses tempos.

Mas claro que isso não seria suficiente para lhe dar a carga mítica, que ainda hoje se traduz nas t-shirts em sua homenagem

em canções

e até num projeto de filme, que ao fim de dois anos continua em produção, sem sair da gaveta. O melhor filme que nunca veremos exibido?

O que torna o caso Robin Friday tão rico em simbolismo é o seu percurso ser uma ilustração perfeita para a década de 70. Aquela em que o idealismo deu lugar às drogas pesadas e as bancadas dos estádios ingleses se transformaram numa válvula de escape para as tensões sociais. Boémio, mulherengo e pontualmente violento, o homem que a 11 de abril de 1975, festejou o golo que dava a promoção ao Reading com um beijo provocatório num polícia, tornou-se a expressão de um mal-estar que desembocaria nas tragédias de Heysel e Hillsborough, na década seguinte. Os exemplos sucedem-se: ao contrário de registos dos seus golos, as histórias são fáceis de encontrar pela net.

Temos Friday, o homem se recusava a pagar bilhete nos comboios, e um dia chegou ao estádio algemado e acompanhado pela polícia. O homem que, por vezes, batia às portas das casas de banho e se fazia passar por fiscal, ficando com os bilhetes que recolhia por baixo da porta. O homem que a partir de 1975, alternava sequências de jogos brilhantes com ausências prolongadas, devido ao consumo de drogas cada vez mais descontrolado. Que chegava aos jogos de sábado exibindo as marcas da noite anterior, invariavelmente agitada - uma reportagem do Reading Evening Post conta que certa vez, depois de um jogo em 1975, explicou um nariz inchado e um olho negro com um prosaico «a míúda acertou-me com uma lata de feijões».

A lenda de Friday é reforçada pelo contraste entre a raridade de imagens em movimento e a variadade de fotos icónicas, que o fixam no tempo, quase sempre a festejar, ou em pose de desafio. Como esta, escolhida pelos «Super Furry Animals» para capa do single que lançaram em 1996. O título, «The Man Don't Give a Fuck», também era um bom póstítulo para a biografia de Robin Friday.

O jogo em causa na fotografia é um Cardiff-Luton, em abril de 1977. O alvo dos insultuosos dedos em V, o guarda-redes do Luton, Milija Aleksic, que poucos segundos antes, ao ser vítima da quarta ou quinta carga sem bola, tinha recusado um pedido de desculpas de Friday.

Aleksic teve sorte, ainda assim: em outubro desse ano, um futuro campeão europeu pelo Liverpool, Mark Lawrenson, cruzou-se com Friday num Brighton-Cardiff jogado com muito maus fígados. Após um carrinho mais violento de Lawrenson, (que não era propriamente um menino de coro) Friday reagiu dando-lhe uma patada na cara. Foi expulso e não ficou no estádio para ver o fim. Se, de passagem pelo balneário, deixou ou não um presente mal cheiroso no saco de Lawrenson, ainda hoje é matéria de debate aceso entre os seguidores do culto.

Foi o penúltimo jogo de Friday. Com um registo disciplinar cada vez mais carregado, e ausências aos treinos cada vez mais prolongadas, deixou o Cardiff, e o futebol, em dezembro de 1977. Voltou para Londres e para as raízes lower class. Trabalhou como asfaltador e traficou drogas. Apesar dos pedidos de adeptos, treinadores e dirigentes, nunca voltou a jogar.

Ficou famoso (e também teve honras de t-shirt) o diálogo com o treinador do Reading, Maurice Evans, que procurava convencê-lo a regressar. Não era demasiado tarde para chegar à ribalta, insistia Evans. «Quantos anos tens?», perguntou Friday que, perante a resposta concluiu: «Tenho metade da tua idade mas já vivi o dobro». Morreu de overdose em 1990, com 38 anos. Era 22 de dezembro. Um sábado, que é onde todas as sextas-feiras à noite acabam por desaguar.

Soldados desconhecidos é uma rubrica dedicada a figuras pouco conhecidas da história do futebol, com percursos de vida invulgares.