O argumento teve ligeiras alterações. Desta vez não se preparava uma curta-metragem de cinco minutos, mas sim de dez. O herói era o mesmo de sempre, num remake de antigos sucessos de bilheteira: Liedson. E o objectivo era, desta vez, o prémio supremo, o título nacional. O 31 aproveitava uma bola longa e uma defesa demasiado adiantada do Belenenses para espalhar o pânico, a três centenas de quilómetros, no Dragão. O 1-0 arrumava com o jogo, porque o Belenenses pouco ou nada tinha a perder com a derrota, e agudizava a pressão sobre o principal rival pela conquista do troféu.

O Belenenses partia para a última jornada em quarto lugar e o pior que lhe podia acontecer era cair para quinto. Era uma equipa tranquila, quase totalmente virada para a final da Taça de Portugal, precisamente frente ao adversário desta noite. Sem pressão, os azuis podiam gozar o jogo. Sem motivação, haveria sempre uma voz na consciência que lhes diria para não levá-lo muito a sério. O que seria sempre justificável. Sem ser a quarta posição, os azuis lutariam apenas pelo conforto moral de não perder antes de novo embate no Jamor. E não partir para essa partida realmente decisiva com essa desvantagem psicológica.

Depois de uns cinco minutos um pouco estranhos em Alvalade - afinal, não haveria qualquer golo neste período desta vez -, os leões assumiram de vez o controlo da partida e embalaram para uma vantagem que até poderia ser mais dilatada no final do primeiro tempo. Irritantemente para Paulo Bento e para os parceiros de banco, o auxiliar de Jorge Sousa levantou três vezes a bandeirola antes de a bola entrar na baliza de Marco Aurélio antes do intervalo: Liedson e Alecsandro, os dois primeiros marcadores de serviço este domingo, adiaram os festejos.

A festa (quase) total

Aos 20 minutos, Alecsandro tinha aumentado a diferença para dois golos num remate certeiro. O brasileiro encontrou um pedaço irregular de relva no caminho da bola e traiu Marco Aurélio, já em queda. Aos 20 minutos, havia um ponto e vírgula em Alvalade. O resto dependia do que o F.C. Porto fizesse. O Belenenses estava muito abaixo do seu valor e o perigo que criou resume-se a dois lances. Um desvio após remate de Silas, que Ricardo não deixou passar, e uma finalização de Zé Pedro contra um muro de sportinguistas sobre a linha depois de perder muito tempo antes de rematar.

O Sporting sentiu-se campeão, Alvalade reagia a cada «espirro» no Dragão. Calou-se assustadoramente com o 1-0, festejou o título com o empate e foi para o intervalo ainda em festa, fazendo as contas aos dois resultados. Estava tudo a correr como o mais rebuscado dos planos. O quase condenado Aves estava a arruinar as contas dos dragões.

Nada a fazer...

O F.C. Porto fez o 2-1 poucos segundos depois do recomeço em Alvalade, culpa dos cerca de cinco minutos de diferença que tiveram as duas partidas. Era impossível para os jogadores do Sporting não perceberem o que estava a acontecer. O estádio inteiro voltava a calar-se, um silêncio sepulcral que anunciava que o vento tinha virado e levara com ele a sorte. O jogo também ficara tépido, sem grandes acelerações, apesar dos arranques intermitentes de Nani e Romagnoli de um lado e dos esforços de Zé Pedro do outro. E nem as substituições fizeram virar o rumo dos acontecimentos. Já só se pensava na Taça. Até que Yannick e Pereirinha fecharam o resultado.