Talvez aquele lance, ao minuto 36, tenha sido mesmo o momento quase poético de que o jogo precisava. Tão de sentido único que ele estava. Bendito abanão que acabaria num drama tardio.
Poderá estranhar, caro leitor, que, logo a primeira linha desta crónica, seja dedicada a um momento tão específico da partida. Mas vai entender o porquê.
Que o Braga estava motivado pelo triunfo frente ao Vitória, eterno e visceral rival, na última jornada, todos sabiam.
Que o mesmo Braga já nos habitou a ser capaz do melhor e do pior – muitas vezes até no mesmo jogo – também não é novidade.
Mas, talvez nem o mais «otimista irritante» dos adeptos do Braga imaginasse uma entrada em jogo tão boa como aquela que os bracarenses tiveram hoje na Madeira.
Com Moutinho no banco – provavelmente em gestão de esforço para o duplo duelo que se avizinha frente ao Sporting e Ferencvaros – Vincens apostou no regresso de Diego Rodrigues.
A primeira meia hora do Braga foi de domínio total; remetido à defesa, o Nacional nem tímidos ataques esboçava. Daí que o golo de Zalazar, ao minuto 11, tenha surgido com naturalidade. Servido em zona frontal, à entrada da área, o uruguaio foi tudo aquilo que nos tem habituado: letal.
Os bracarenses continuavam a carregar e o segundo golo só não contou porque o árbitro foi alertado pelo VAR para uma falta de Gabri sobre Kaique. O lance não deixou o guarda-redes bem na fotografia: deixou largar uma bola que Gabri aproveitou. O árbitro deu golo, mas acabou por anulá-lo, após consultar as imagens.
E entramos agora nesse minuto 36 de que falei uns parágrafos acima. Esqueça tudo o que foi escrito: a partir daí, o jogo, que se avizinhava de carácter muito fácil para o Braga, mudou completamente.
No mesmo lance, o Nacional conseguiu a proeza de atirar por duas vezes ao poste. O esquerdo. Primeiro foi Paulinho Bóia; na recarga, Chuchu Ramírez.
O estrondo pode não ter dado empate, mas serviu para acordar a equipa madeirense que, nos últimos minutos da primeira parte, deu uma primeira indicação do que seria a segunda.
O Nacional apareceu de cara lavada. Chuchu Ramírez teve o golo nos pés por duas vezes; seria, todavia, Paulinho Bóia a consegui-lo, num lance em que tirou um adversário do caminho, para rematar a contar (59m).
O jogo ficou animado: o duplo pivot que Tiago Margarido implementou deu resultado e o Braga, tendo esboçado uma reação, não voltou a ser a equipa dominadora dos primeiros 30 minutos.
Ricardo Horta ainda rematou à barra, num grande remate, e, na outra baliza, foi Chuchu Ramírez a ficar a centímetros do golo, num cabeceamento intercetado por Dorgeles.
Até que, já em período de descontos, num jogo que se parecia encaminhar para o empate, surgiu o lance que tudo mudaria. Depois de ir ao VAR, o árbitro marcou penálti por uma mão na bola, na área do Nacional, com Zalazar a deixar, pela segunda vez, a sua marca no jogo.
A imagem de Vincens a festejar juntos dos adeptos, punho cerrado, foi o espelho de uma vitória importantíssima para o Braga na luta pelo 4º lugar (o Gil joga na segunda-feira frente ao Benfica).
Eram gritos de alívio. E pensar que tudo tinha começado tão fácil, antes das bolas aos postes.