Dito isto, o jogo de Alvalade foi mais do que um samba de uma nota só: apesar do indiscutível protagonismo do 31, teve também um actor secundário com papel relevante (Miguel Veloso). E uma Naval com personalidade e ideias no sítio, dando um pouco mais de emoção ao remake de um filme conhecido de todos: esta época, foi a décima vez que uma vitória do Sporting ficou consumada nos primeiros 30 minutos.

Sem Vukcevic e com Izmailov no banco, foi um Sporting com sérias limitações na capacidade de acelerar o jogo o que entrou em campo para tentar cumprir o plano típico da equipa na era-Paulo Bento: entrar forte, marcar cedo e ganhar 60 minutos para gerir a situação de aí em diante.

Primeiro obstáculo: um adversário bem organizado, num 4x3x3 capaz de pressionar à frente e bloquear as saídas com bola dos leões. Segundo obstáculo: a passividade a meio-campo, com o regressado Miguel Veloso à procura de referências e com Romagnoli no papel de homem invisível. Assim se passaram 13 minutos dominados pela equipa de Ulisses Morais. O Sporting parecia metido num colete de forças, sem saber muito bem por onde começar a abri-lo e Patrício teve mesmo de brilhar, a remate de Davide.

Segundo lugar-comum: o futebol decide-se muitas vezes nos detalhes. E foi num detalhe que começou a verdadeira história deste jogo. Com Daniel Cruz fora de campo, a receber assistência, Baradji compensou na lateral esquerda mas, ainda a adaptar-se ao território, escorregou no pior momento. Liedson, sempre capaz de antecipar problemas, foi na pressão, roubou a bola e fez o passe que permitiu a Pereirinha o seu primeiro golo na Liga.

Sem jogar o suficiente para chegar à vantagem, parecia que o Sporting tinha completado um óptimo negócio. Mas ainda não estava fechado. Logo a seguir Miguel Veloso teve um passe lateral desastroso, que permitiu a Marinho fugir pela esquerda e, depois de uma primeira tentativa travada por Pedro Silva, servir Marcelinho para um empate merecido (17 m).

Por estranho que possa parecer, esse momento acabou por ser positivo para o Sporting. E mais ainda para Miguel Veloso, que tinha muita coisa em jogo neste regresso. Castigado com assobios de cada vez que tocava na bola, por um público que lhe retirou o benefício da dúvida depois de um erro tão flagrante, o médio do Sporting percebeu que já não podia refugiar-se no anonimato. E foi o seu esforço para limpar a imagem, nem sempre bem sucedido, que libertou a equipa daquelas amarras iniciais, permitindo-lhe finalmente ser melhor.

Terceiro e último lugar-comum: não há duas sem três. Após dois golos resultantes de erros defensivos, o momento decisivo voltou a ter como ponto de partida uma perda de bola de Carlitos, em zona proibida. O ponto de chegada, claro, foi Liedson. Duplamente Liedson: estava no sítio certo para ganhar a bola e embalar para a baliza, obrigando Godemeche a derrubá-lo à entrada da área. E estava no sítio certo para concluir o cruzamento remate de Moutinho com uma cabeçada vistosa que, agora sim, construía uma vantagem merecida.

Faltava mais de uma hora para o fim mas, de certa maneira, a história acabou aí. A Naval, mesmo mantendo-se coesa, nunca voltou a ter a frescura ameaçadora dos primeiros minutos. E o Sporting, em modo de gestão, nunca deixou que o jogo lhe fugisse das mãos. A entrada de Izmailov não mudou muito as coisas mas, no último lance do jogo, saiu dos pés do russo a bomba que Peiser defendeu para a frente. E Liedson estava lá, claro, a deixar o terceiro post-it aos mais esquecidos, prémio excessivo para um Sporting que, por entre lugares-comuns e acidentes de percurso, soube tirar do jogo o que pretendia.