Gyökeres voltou a Alvalade e com ele trouxe o líder da poderosa Liga Inglesa, naquela que acabou por ser a imagem mais bonita da noite: o rei regressado a casa, não para retomar o trono, mas para confirmar que o reino aprendeu a viver sem ele.

O Sporting foi irrepreensível, aliás: aplaudiu-o quando tinha de aplaudir e no resto do tempo agradeceu-lhe em silêncio. Não precisou, portanto, de apagar a memória dele ou de fingir que ele nunca existiu.  

Pelo contrário, deixou que a realidade falasse por si. E a realidade falou: durante mais de noventa minutos, a realidade fartou-se de falar. Falou, por exemplo, no remate de Maxi Araújo à trave. Falou noutro disparo do uruguaio por cima da barra. Falou num desvio mal conseguido de Trincão, quando aparecia em excelente posição para marcar.

Falou, falou e falou. Até que, já nos descontos, um detalhe acabou por fazer cair o triunfo para o lado do aristocrata inglês, e silenciar o entusiasmo leonino. Kai Havertz fez o único golo do jogo, já depois de Zubimendi ter interrompido outro festejo por indicação do VAR.

Aconteceu assim, podia ter acontecido ao contrário.

Imediatamente antes, por exemplo, Raya tinha defendido para a frente um remate de Geny Catamo e por pouco Luis Suárez não emendou para golo. Ou, ainda antes disso, Suárez cruzou para o mesmo Geny Catamo cabecear para defesa de recurso do guardião espanhol.

Portanto, lá está, podia ter caído qualquer dos lados. Ou até para nenhum, como durante muito tempo pareceu que seria o mais lógico. Caiu para o outro lado, e também está bem.

Sporting manteve sempre as hipóteses em aberto

Importa, isso sim, voltar atrás e sublinhar como o Sporting jogou com maturidade.

Correu, pressionou, defendeu quando tinha de defender, atacou quando pôde atacar e manteve sempre todas as hipóteses em aberto. Foi digno e gritou a vontade séria de discutir o jogo.

Naquele estilo europeu dele, mais expectante do que agitado, deixou que o Arsenal tivesse a bola e a trabalhasse com paciência, desde que o fizesse longe da baliza de Rui Silva.

Provavelmente por isso, durante muito tempo, as únicas oportunidades de perigo nasciam invariavelmente das bolas paradas: a tal situação em que dizem que o Arsenal é a melhor equipa da Europa, e provavelmente até o é, embora muito com a conivência dos árbitros.

Mas sim, deixou que o Arsenal tivesse a posse, para depois meter fogo nas botas quando ganhava a bola. Eram dois estilos totamente opostos: um de paciência, outro de urgência.

Agora precisa-se de um milagre... um grande milagre

A verdade, porém, é que nunca se sentiu a eletricidade das grandes noites no ar. Faltou aquela energia, aquele ruído bonito das bancadas, quando acreditam que podem empurrar uma equipa para qualquer lado, incluindo para cima de um colosso inglês.

Não que os adeptos não tivessem apoiado. Pelo contrário, apoiaram muito. Mas sentiu-se a falta daquela convicção dogmática, daquela fé inabalável.

Talvez esta noite não estivesse destinada. Ou pelo menos, não estivesse destinada a mais do que mostrar a Gyökeres que a casa continua de pé, segura e intacta na sua beleza.

Continua, sim senhor, e para a semana há mais. Em Londres vai ser preciso um milagre, é verdade, mas o Sporting já mostrou que, nesses dias em que decide acreditar demasiado, consegue desorganizar todas as teorias.