Antes de mais é preciso referir que o saldo histórico do Sporting frente a adversários austríacos é positivo: a formação leonina venceu por sete vezes, empatou uma e perdeu cinco.

Apesar disso, não deixa de ser verdade que algumas das derrotas mais traumáticas do Sporting na Europa apareceram frente a equipas austríacas.

Sobretudo nos anos noventa (mas não só).

Ora a poucas horas de voltar a entrar em campo na Áustria, frente a um Sturm Graz que venceu nos dois jogos realizados, vale a pena recordar essas derrotas violentas.

CASINO SALZBURGO-SPORTING, 3-0: 7 de dezembro de 1993

Foi a primeira derrota do Sporting frente a adversários austríacos e que provocou um verdadeiro terramoto em Alvalade.

A formação leonina tinha vencido em casa por 2-0 e pensava que a viagem a Salzburgo serviria apenas para cumprir expediente e colocar o carimbo no bilhete de apuramento para os quartos de final.

O Casino Salzburgo, que nessa temporada chegou à final da Taça UEFA, perdendo apenas frente ao Inter Milão, não era a pêra doce que se imaginava. Até porque jogadores como Pfeifenberger (Werder Bremen) e Feiersinger (B. Dortmund) fariam carreira na Bundesliga.

Voltando ao jogo, a formação austríaca chegou à vantagem no início da segunda parte, por Leo Lainer, mas depois disso mais nada. O jogo aproximava-se do fim e corria de feição ao Sporting, que ficou ainda mais tranquilo quando Kurt Garger foi expulso aos 87 minutos.

Os portugueses jogavam os últimos minutos com mais um, o que não serviu de nada quando Adi Hutter empatou a eliminatória já nos descontos. Um golo num remate de fora da área, tal como tinha acontecido com Lainer, em dois lances em que o jovem Costinha é mal batido.

No prolongamento, Capucho acertou duas vezes nos ferros, mas foi Amerhauser, aos 114 minutos, a marcar, para eliminar o Sporting, num jogo que se tornou um escândalo. Isto porque, no regresso a casa, Sousa Cintra anunciou o despedimento de Bobby Robson e de José Mourinho em pleno voo, através do sistema de som do avião.

Foi já com Carlos Queiroz no comando técnico da equipa que os jogadores se juntaram para se despedirem de Bobby Robson, num jantar que para Cherbakov terminou mais tarde do que devia. No regresso a casa, sofreu o acidente que o deixou paraplégico, no fim de uma semana muito dura para o Sporting.

Mas enfim, o inglês foi despedido pela primeira vez na carreira, quando era líder do campeonato, com uma equipa muito jovem. Poucos meses depois, foi contratado por Pinto da Costa para o FC Porto, ganhou dois títulos de campeão e saiu para o Barcelona.

A forma como tudo acabou foi espetacular: o presidente [Sousa Cintra] agarrou no microfone do intercomunicador do avião, na viagem de regresso a Portugal depois de um jogo fora com o Casino de Salzburgo, e anunciou a toda a gente que o treinador seria afastado no dia seguinte. Aquele presidente maluco estava para ali exaltado a dizer: 'Fomos eliminados das competições europeias, isto é um desastre para o clube, tenho que te mandar embora'. Eu estava estupefacto, sentado no meu lugar do avião, enquanto o José [Mourinho] me traduzia estas palavras. Na manhã seguinte fui chamado ao gabinete da direção e demitido. Pela primeira vez em 15 anos, o Sporting estava em primeiro lugar no campeonato português - e ali estava eu a ser despedido. Mourinho estava comigo quando o balde de água fria me caiu em cima

Bobby Robson

RAPID VIENA-SPORTING, 4-1: 2 de novembro de 1995

Depois de perder o título de campeão em Alvalade, no célebre 6-3 com o Benfica, Sousa Cintra fez all-in e construiu um dream team para Carlos Queiroz.

Senão veja-se: Lemajic (sim, a baliza continuava a ser o ponto frágil), Nélson, Marco Aurélio, Naybet e Vujacic, Valckx e Peixe, Figo, Balakov e Amunike, Juskowiak (ou Iordanov).

Apesar de tudo, no final dessa época o Sporting só tinha ganhado a Taça de Portugal, Sousa Cintra cedeu a cadeira do poder a Santana Lopes e saíram as maiores estrelas da equipa: Figo, Balakov, Valckx e Peixe foram para clubes maiores, tendo chegado Assis (o irmão de Ronaldinho Gaúcho), Ouattara, Pedro Martins, Pedro Barbosa, Paulo Alves e Dominguez.

Não era a mesma coisa, claro que não, mas ainda era uma bela equipa, com Amunike, Naybet, Marco Aurélio, Sá Pinto, Pedro Barbosa.

Ora foi esta equipa que, na segunda ronda da Taça das Taças, reencontrou um adversário austríaco. Neste caso, o Rapid Viena, que perdeu em Alvalade por 2-0 (golos de Sá Pinto e Paulo Alves). A eliminatória parecia, por isso, bem encaminhada.

Em Viena, porém, tudo mudou.

Apesar de ter Dietmar Kuhbauer e, sobretudo, um jovem de 21 anos chamado Carsten Jancker, que na época a seguir começaria a brilhar no Bayern Munique, apesar disso tudo, dizia-se, a estrela do Rapid era o central búlgaro Trifon Ivanov, que no ano anterior tinha brilhado no Mundial dos Estados Unidos.

Ivanov tinha tanto de bom jogador, como de arrogante. No dia anterior ao jogo tinha feito umas declarações pouco abonatórias para o Sporting e dentro de campo, aos 90 minutos, foi ele a fazer em esforço a assistência para Stumpf marcar o segundo golo e empatar a eliminatória. Um golo que virou o jogo e que Ivanov festejou como se o tivesse marcado.

Tudo começou, aliás, na expulsão de Dani, em dia de aniversário: cumpria então 19 anos. O jovem entrou mais ou menos a 20 minutos do fim e em 20 minutos viu dois amarelos. O segundo por chutar para longe uma bola que estava sobre a linha lateral.

Kuhbauer tinha feito o primeiro aos 25 minutos, depois dessa expulsão Stumpf empatou a eliminatória, como já se disse. O Sporting foi para prolongamento em inferioridade numérica, desfeito mentalmente e a jogar contra uma euforia evidente.

O mesmo Stumpf fez o 3-0, Carsten Jancker concluiu o 4-0 e o jogo acabou com a imagem de Naybet e Sá Pinto, de joelhos, aos murros no relvado.

Aquela eliminação foi um pesadelo tão grande que deu origem a uma música. Como música e letra de Fernando Correia Marques, senhores e senhoras... «Ó Queirós». Uma obra de arte em forma de poema.

Aqui, nos States ou em qualquer lado, pela bola anda apanhado, bate forte coração. Aqui, o que é certo é incerto. Nunca nada bate certo. Nunca há organização. Aqui, ainda há poluição, ainda há ingratidão. Ó Queirós, oh oh oh oh oh oh, há quem te conheça bem, há quem te conheça mal. Oh oh oh oh oh oh. Há quem te queira tão bem, há quem te queira tão mal

Fernando Correia Marques

SPORTING-LASK LINZ, 1-4: 1 de outubro de 2020

Em outubro de 2020, Ruben Amorim estava muito longe de ser o que é hoje. Muito, muito longe. Em onze jogos na época anterior, tinha somado seis vitórias, três empates e duas derrotas, não evitando que o Sporting terminasse no quarto lugar.

A temporada seguinte começou com a equipa obrigada a disputar o play-off de acesso à Liga Europa, num jogo único, em Alvalade: um jogo que ficaria para a história pelos piores motivos. Uma derrota pesadíssima, frente ao modesto Lask Linz, e o afastamento prematuro das competições europeias.

Eram os tempos em que o Sporting era um caldeirão a ferver e exigia a saída de Frederico Varandas a cada reencontro. De uma forma indelicada.

Ruben Amorim tinha operado uma revolução depois da época anterior, promoveu a saída de pesos pesados como Marcos Acuña, Mathieu, Battaglia, Ristovski, Doumbia, Jesé Rodriguez, Bolasie ou Vietto, para apostar em jogadores do futebol português: Pedro Gonçalves, Nuno Santos, Paulinho, Gonçalo Inácio, Tiago Tomás, Bragança ou Matheus Nunes.

O Sporting tentava respirar, mas era difícil. Aquela nuvem não saía dali e, naquela noite, carregou-se de chuva. Em onze minutos na segunda parte, o Lask Linz fez três golos e colocou o resultado em 4-1. Depois Coates foi expulso e a goleada ainda ameaçou aumentar.

No fim Alvalade só não se despediu da equipa com uma tremenda assobiadela porque era os tempos da pandemia e das bancadas despidas, mas as redes sociais encheram-se de insultos à direção e pedidos de demissão.

Ruben Amorim diria, três anos mais tarde, que aquele foi o dia mais difícil que viveu no Sporting. Mal sabiam os adeptos que naquela noite, naquela derrota traumática, estava a começar algo verdadeiramente novo.

Parece-me que há muita gente que já desistiu da equipa do Sporting, mas eu e os rapazes não desistimos. Nós vamos dar luta. O céu pode cair que eu não vou mudar a forma de encarar as coisas. Isto ainda agora começou e nós vamos dar luta.

Ruben Amorim