Ora por isso o Maisfutebol foi aos arquivos da memória descobrir histórias de outros regressos. A começar, claro, por Arthur John, que foi o único antes de Jesus a trocar o Benfica diretamente pelo Sporting: todos os outros passaram pelo meio por outros lados.

 

Arthur John teve outra semelhança em relação a Jorge Jesus: custou uma fortuna. Na altura o Sporting acabou até por dar prejuízo e acabou o campeonato de Portugal a fazer uma falta de comparência. De resto há histórias de grandes vitórias e de grandes derrotas.

Há tentativas de agressão a árbitros, expulsões, queixas na polícia e há um dado curioso: foram sete os treinadores que passaram pelo Benfica e que depois treinaram o Sporting, seis foram campeões na Luz e só um deles foi campeão em Alvalade: Otto Glória.

 

OUTROS REGRESSOS ANTES DE JESUS

 

Arthur John: 31/32

Benfica-Sporting, 1-2

Sporting-Benfica, 2-1

 

Arthur John foi contratado diretamente ao Benfica por 16 contos, o que levou o futebol do Sporting a dar um prejuízo nessa época de 25 079 escudos. Só para se ter uma ideia da fortuna que era, o plantel leonino teve um custou total de 42 547 escudos: Arthur John custou quase 40 por cento do orçamento geral. Ora porque as contas do Sporting estavam realmente em dificuldades, o clube insurgiu-se contra a divisão em partes iguais das receitas dos campeonatos oficiais. Filipe Conrado, tesoureiro do clube, disse mesmo que «a injusta e imoral distribuição das receitas dos jogos do Campeonato de Lisboa não permitiu Sporting retirar delas a parte que lhe caberia pelo interesse que o onze de honra deu ao mesmo campeonato». Por isso o Sporting desiste do campeonato de Lisboa e já não comparece à última jornada. De nada valeram, portanto, as duas vitórias sobre o Benfica.

 

Otto Glória: 61/62 e 65/66

Benfica-Sporting, 2-4

Sporting-Benfica, 0-2

 

Otto Glória foi contratado ao Belenenses com o campeonato ainda a decorrer, mas demitiu-se após a segunda jornada. Deslocou-se ao Porto, venceu a equipa azul e branca por 2-0 e disse que sem ovos não podia fazer omoletas. Voltou quatro anos depois, para ser campeão. Ganhou na Luz por 4-2, com quatro golos de Lourenço, num póquer ainda hoje recordado. Um regresso muito feliz ao Estádio da Luz. Perdeu depois em Alvalade por 0-2, num jogo em que Otto Glória quase agrediu o árbitro Virgílio Baptista, mas foi mesmo assim campeão. A propósito dessa quase agressão ao árbitro, refira-se que Virgílio Batista chamou a polícia para apresentar queixa, mas Abraão Sori, diretor do Sporting, pediu paciência porque Otto Glória sofria de «crise de descontrolo nervoso». O árbitro acabou por não apresentar queixa.

 

Fernando Caiado: 67/68 e 68/69

Sporting-Benfica, 3-1

Benfica-Sporting, 1-0

Sporting-Benfica, 0-0

 

Fernando Caiado era um nome intimamente ligado ao Benfica, onde tinha sido treinador por uma época e adjunto por vários anos, participando na dupla conquista dos Campeões Europeus. Chegou ao Sporting para impor ordem e começou bem, sobretudo ao ganhar o dérbi ao Benfica por 3-1. Foi um jogo em que Coluna foi expulso, por dar uma cabeçada a Figueiredo, e foi suspenso por seis jogos. Figueiredo dizia que sempre que se defrontavam, era agredido pelo capitão benfiquista. Já Coluna acusou o adversário de fazer teatro. O Sporting termina porém o campeonato em segundo lugar, a quatro pontos do Benfica, e Fernando Caiado deixa Alvalade já no início da época seguinte, após empate no dérbi em Alvalade com os encarnados. O treinador, curiosamente, voltaria depois à Luz como adjunto.

 

Fernando Riera: 74/75

Benfica-Sporting, 1-1

Sporting-Benfica, 1-1

 

Fernando Riera chega a Alvalade num ano incomum. A época começou com o mítico Di Stéfano no banco, mas a antiga estrela do Real Madrid saiu três dias depois da derrota com o Olhanense, em casa, em jogo da primeira jornada. João Rocha, o presidente, justificou que Di Stéfano era «um turista malcriado». Já o crauqe Yazalde não gostou nada da decisão do dirigente e disse que «Di Stéfano sabe mais de futebol do que dez treinadores juntos». Polémicas à parte, chegou Osvaldo Silva, que também não durou muito. Fernando Riera tinha dado nas vistas no Benfica, foi o terceiro treinador da época e estreou-se na Luz, com um empate 1-1. Fez um bom trabalho e recuperou pontos, mas na penúltima jornada empatou com o Benfica em Alvalade e deixou o rival ser campeão.

 

Jimmy Hagan (76/77)

Sporting-Benfica, 3-0

Benfica-Sporting, 2-1

Sporting-Benfica, 3-0 (taça)

 

Jimmy Hagan chegou depois de uma época terrível, que terminou com o quinto lugar e a não participação nas provas europeias. Começou com uma vitória por 3-0 sobre o Benfica, logo na primeira jornada, e somou 12 jogos consecutivos sem perder, com um animador 30-7 em golos. Um autogolo de Valter, em Setúbal, significou a primeira derrota. A partir daí o Sporting entrou em crise e perdeu a liderança em Aveiro, quando sofreu um golo de Eusébio e empatou 1-1. A única consolação foi a vitória por 3-0 sobre o Benfica, com três golos de Manoel, que afastou os encarnados da Taça. De nada valeu, é certo, o FC Porto eliminou os leões na eliminatória a seguir, mas pelo menos foi um triunfo saboroso.

 

Miroslav Pavic (78/79)

Benfica-Sporting, 5-0

Sporting-Benfica, 0-1

 

O Sporting contratou o «Cavalheiro das Luvas de Ferro», que poucos anos antes tinha sido campeão pelo Benfica, para recuperar a equipa, depois do terceiro lugar na época anterior. Miroslav Pavic começa com uma derrota, no Bessa, e à 10ª jornada, no regresso à Luz, sofre uma goleada por 0-5 do Benfica. «Massacraram-nos», disse no final do jogo Botelho. Pavic decretou estado de sítio após a humilhante derrota, proibiu telefones e só o capitão Keita estava autorizado a dar entrevistas. A equipa cresceu ligeiramente de rendimento, mas a corrida ao título acabou com derrota perante o Benfica em Alvalade, por 0-1, em abril. O Sporting terminou novamente no terceiro lugar do campeonato e Savic saiu para não mais treinar em Portugal.

 

Jesualdo Ferreira (2012/13)

Benfica-Sporting, 2-0

 

Jesualdo Ferreira foi o único treinador do Sporting que passou pelo Benfica sem ser campeão. Na época leonina de todos os horrores, que acabou com a equipa no sétimo lugar, na pior classificação de sempre, Jesualdo Ferreira chegou como o quarto treinador da temporada. O objetivo era gerir os danos e tentar evitar a não qualificação europeia: por isso o regresso de Jesualdo Ferreira à Luz, agora como treinador leonino, esteve longe de ser polémica. Já tinha regressado como treinador do FC Porto e este Sporting arrastava-se em agonia. No fim perdeu 2-0, o que é normal: menos normal foi o sétimo lugar, claro.