Jorge Jesus ficou definitivamente marcado pelo ataque à Academia do Sporting, em Alcochete, quando liderava os leões em 2018, ao ponto de nunca mais ter voltado a ver um jogo da equipa de Alvalade ao vivo, segundo revela o novo treinador do Al Nassr no decorrer do programa «Primeira pessoa», transmitido esta quarta-feira na RTP.
«No momento, na altura em que aquilo estava a acontecer, não foi difícil porque confrontei-me com a situação. Eu não tenho medo. Estava lá e entrei. Fui agredido, tentei defender os meus jogadores, como é óbvio. Senti o perigo, mas emocionalmente não senti o que hoje sinto», começa por recordar.
Jesus: «Adeptos do Benfica não me perdoaram por ter saído para o Sporting»
O treinador não teve medo, mas ficou marcado pelo violento episódio que marcou o futebol português. «Marcou-me tão profundamente que nunca mais consegui ver um jogo do Sporting ao vivo. Nunca mais. Os jogadores nunca mais quiseram treinar. E eu pedia-lhes “nós temos que treinar”. E eles “mas nós não conseguimos entrar dentro de Alcochete, míster. Não nos peça. Não conseguimos entrar dentro de Alcochete”. Naquela altura nem os percebia muito bem, mas hoje percebo», acrescentou.
Agora, à distância, Jorge Jesus assume que foi o momento mais difícil da longa carreira. «É. Já perdi várias finais. Perdi duas finais com o Benfica na Liga Europa, mais importantes do que a Taça de Portugal, mas sentimentalmente não me marcaram como aquela. Aquela final veio de um contexto em que mexeu comigo no futuro», comentou.
Um episódio marcante, mas Jorge Jesus não guarda rancores e já perdoou os adeptos envolvidos. «Já. Aquilo não são os verdadeiros sportinguistas. Um verdadeiro sportinguista ou benfiquista não toma atos daqueles. Aproveito esta oportunidade para dizer a todas as claques dos clubes “esqueçam isso”. Não é essa pressão que faz com que os jogadores corram mais, pulem mais, saltem. É a pressão positiva. Podem fazê-lo no estádio, dar a entender o desagrado, agora fora do estádio... esqueçam isso. Tirem isso das vossas cabeças», destacou ainda.
«Em Portugal não sabemos valorizar o que é Cristiano Ronaldo»
A Academia do Sporting foi, entretanto, rebatizada Academia Cristiano Ronaldo, o internacional português que Jorge Jesus vai, agora, treinar no Al Nassr. «Para mim é um desafio. Ele é diferente, até a nível biológico, por isso é que tem 40 anos e ainda joga. Nós os dois pensamos da mesma maneira fora do que é o futebol. Tenho 70 anos na idade, mas não sinto em nada do que é a minha vida psicológica ou física», referiu.
E como é que Jorge Jesus olha para Cristiano Ronaldo? «São dois portugueses que vão estar juntos, ele é uma referência no mundo, aliás, nós em Portugal não sabemos valorizar o que é que ele é. Ele é a maior referência humana no mundo, é a pessoa mais conhecida no mundo. Não há comparação possível, é a maior celebridade do mundo. Está muito para lá do mundo do futebol», comentou ainda.