20 de janeiro de 2026.

Que quadro! Que pintura! Que noite! A noite em que o Sporting dobrou o campeão europeu, para escrever um pedaço de arte que fica para a história do futebol português.

Porque este Sporting mostrou que pode ser tão grande como os maiores da Europa.

O jogo, de resto, foi tudo aquilo que se esperava: de um lado o aristocrata francês, cheio de pose, dinheiro e altivez, do outro lado o operário português, sempre disposto a mais um esforço, a mais uma obrigação, a mais uma corrida.

No fim, e como aconteceu no filme com que tantos emigrantes se identificaram, os portugueses libertaram-se da Gaiola Dourada, para serem felizes como acham que devem ser.

Neste caso, a felicidade veio embrulhada no apuramento matemático para o play-off da Champions, sendo que ainda pode ser maior: a equipa acaba a terça-feira em sexto lugar e em posição de apuramento direto. Falta uma jornada para o fim. Todos os sonhos são permitidos.

Ora por falar em sonhar, interessa dizer que esta noite carregada de sentimento e felicidade teve muito da abençoada capacidade de sonhar.

Alvalade, por exemplo, cobriu-se até às orelhas de ilusão, mais de 51 mil adeptos com uma fé inabalável que era possível. Dentro de campo, a equipa foi cautelosa, mas não foi temerária.

É verdade que o PSG teve muito mais bola, mais iniciativa, mais domínio, mas nada disso é surpreendente. Afinal de contas, é o aristocrata cheio de pose e dinheiro. E é também, já agora, uma belíssima equipa, cheia de gente genial na criatividade e inteligente na postura.

Por alguma razão é campeão europeu, não é?

Houve alturas até em que o Sporting não conseguia libertar-se do sufoco imposto pelo adversário, que ganhava todas as segundas bolas em zona de ataque. Não foi uma, nem duas vezes que a formação leonina passou vários minutos sem chegar ao meio-campo adversário.

Mas, lá está, nada disso é surpreendente.

O PSG faz uma ocupação dos espaços fabulosa, parece ter sempre alguém no caminho da bola e tem o traquejo internacional que não o faz tremer. Ao contrário do Sporting, ou deste Sporting, afetado por oito ausências importantes. Havia ali gente que precisou de muito tempo para estabilizar o coração e cabeça.

Por isso o PSG fez três golos, todos bem anulados, e ameaçou marcar em mais uma mão-cheia de ocasiões. Sobretudo na primeira parte, quando a preocupação leonina esteve mais em travar o adversário: defendendo com uma defesa de cinco (Geny recuava para latera na direita e Fresneda fechava ao centro), mais três médios (Morita, João Simões e Maxi Araújo) logo à frente.

Um Sporting tão, tão, tão português

Vale a pena dizer, já agora, que pelo menos em duas situações o Sporting também ficou perto de marcar, naquela primeira parte feita de tanto trabalho, solidariedade e capacidade de sofrimento. Um pouco como é a história dos portugueses em França, lembra-se?

No segundo tempo, porém, tudo foi diferente.

O Sporting libertou-se das amarras e olhou o aristocrata francês nos olhos. Suárez marcou duas vezes, pelo meio (mais ou menos ao mesmo tempo em que Rui Borges lançou Vagiannidis), Luís Enrique atirou para dentro de campo um tal de Kvaratskhelia, que custou 70 milhões de euros e não foi caro. Ele que empatou o jogo num golaço.

Alisson, que foi uma espécie de Kvaratskhelia neste jogo, mas daquelas lojas onde se compra tudo a um euro, desequilibrou outra vez à esquerda e Suárez cabeceou para a felicidade.

Alvalade rebentou um grito de felicidade. Cantou-se O Mundo Sabe Que, brindou-se ao êxito, dançou-se com entusiasmo. Esta noite fica para a história.

Porque campeões há muitos, mas só um é português.